Erigindo vínculos – Os ignotos (Parte 1)

Poema por Juliana Soares Vicente

Os médicos dirigem-se à taverna mais limítrofe,

após um extenuante expediente.

Todos aparentando estar em um estado epítrofe,

mas essa utopia

só tinha serventia

para o agrado do gerente.

Quais assumiram a forma da próxima vespa-joia?

Quais os riscos de ser a pessoa mais simplória?

Qualquer um poderia ser visto como suspeito.

Até o imaculado poderia cometer o mais horrendo dos feitos.

No primórdio de suas carreiras,

não há o conceito de livre expressão.

Ou morrer afogado na baía costeira,

ou sujeitar-se a desposar o carpo da mão.

Ao invés de simplesmente conviver com a face alheia,

um beneplácito alvoreceu um veredito e uma deliberação.

Há poucos instantes

chegara a hora de enjeitar a empáfia

que com emancipação vagueia.

Com esforços abundantes,

formaremos firmes ráfias,

perante a ameaça que por perto passeia.

Tal medida é compulsória,

uma vez que no futuro vejo

diversas e extensas dedicatórias

ao extinto e massacrado vilarejo.

Somos, agora, uma comunidade a se formar.

Deslealdade suspenderá o convívio.

Sabemos muito bem, que se sozinhos,

pisaríamos um no outro, como inimigos.

A Origem Carmesim

Conto por Guilherme Penninck

Foto: reprodução da internet

O vento uivava sem descanso naquela sombria noite de verão, os trovões ecoavam por toda cidade, entretanto, apenas um alarme podia ser ouvido naquela vizinhança. Os donos da casa foram surpreendidos ao descobrirem que sua propriedade fora arrombada, mas o que, inicialmente, parecia apenas uma invasão domiciliar seguida de roubo, mostrou-se uma situação muito mais fúnebre. Sabia o que iria acontecer, reconheci a situação, a chuva, aquela ventania e, principalmente, os calafrios que percorriam minha pele.

[5 anos atrás]

A noite já havia se instalado quando eu e minha prima Gabriela descemos do táxi. Observamos o casarão de janelas circulares, iguais a dois olhos tristes no qual passaríamos a noite. Não tínhamos outra escolha, nenhuma pensão oferecia preço melhor a duas pobres estudantes, talvez por esse motivo o sobrado se encontrava em um estado tão decadente.

A dona era uma velha franzina, de cabelos tão brancos quanto a neve que caía do lado de fora. Vestia uma desbotada camisola de estampa florida e tinha unhas enormes cobertas por um esmalte da cor roxa descascado nas pontas. Acendeu um cachimbo.

– Vou mostrar o quarto, fica no segundo andar da casa – disse ela enquanto soltava uma baforada em nossos rostos.

Subimos uma estreita escada feita de madeira que rangia a cada passo que dávamos, o segundo andar era bem amplo, não continha nenhum móvel, apenas uma pequenina porta no fim do corredor, seguimos em direção a ela e a abrimos, quando a luz se acendeu tivemos a primeira visão do quarto, não podia ser menor. Duas camas, duas estantes e uma mesa com duas cadeiras de madeira que pareciam não terem sido usadas há algumas décadas.

– Café das nove às onze, deixo a mesa posta na cozinha – falou enquanto soltava uma densa baforada. – Recomendo que não abram a janela, o frio daqui de cima é algo sobrenatural – recomendou enquanto lutava contra sua crise de tosse.

Estávamos exaustas e logo fomos dormir, caí no sono assim que me deitei, em meu sonho havia um anão em nosso quarto, ele veio até mim, pegou minha mão e me levou até uma pequena passagem que estava escondida atrás de uma das estantes. Acordei sobressaltada com um barulho que vinha do lado de fora, minha prima havia acordado também e estava ao lado da janela tentando ver o que tinha acontecido.

– Não tem nada lá fora, que estranho! – constatou.

Lembrando de meu sonho comecei a empurrar a estante e, para minha surpresa, ali estava a passagem, ao abri-la deparei-me com uma pequena caixa prateada com adornos em dourado e o desenho de uma caveira na tampa. Chamei minha parente para descobrirmos o que se encontrava dentro daquele estranho e pequeno baú, tivemos uma surpresa ao abrirmos, pois nos deparamos com uma pilha de ossos.

– São de anão! – constatou minha prima. – É uma raridade, dá para ver que estão todos formados – concluiu.

Essa descoberta foi aterradora para mim, enquanto Gabi se encontrava maravilhada pela sua mais nova descoberta. Ela estava cursando o terceiro ano em medicina e realmente amava o que fazia, para ela, achamos algo equivalente a um pote de ouro. Subitamente, um estrondo veio do andar de baixo, fazendo com que eu desse um pulo de espanto.

– Você ouviu esse barulho? – indaguei, estava pálida como uma folha de papel.

Decidimos investigar, descemos lentamente os envelhecidos degraus da casa. O que, inicialmente, eram apenas ruídos, gradualmente, transformou-se no som de uma lâmina raspando contra a parede, o barulho afastava-se calmamente, assim, seguimos, essa talvez tenha sido a pior escolha que já fiz, eu me condenaria pelo resto de minha vida.

Uma melodia começou a tocar, algo que nunca ouvira na vida, uma babel de sons caóticos, um verdadeiro pandemônio, entreolhamo-nos, duvidando de nossa sanidade e, lamentavelmente, tive uma prova de que o horror era real ao chegar na cozinha. Vi a cena mais aterradora que qualquer pessoa poderia presenciar: a dona estava pendurada por um gancho de carne em seu ombro, sua pele havia sido arrancada, a mulher estava agonizando até a morte.

Palmas puderam ser ouvidas atrás de nós, ao nos virarmos fomos surpreendidas por uma figura fantasmagórica que trajava uma máscara e uma grande capa preta. Aquela coisa lambia a lâmina banhada no sangue pastoso da velha senhora da casa, este que possuía uma cor vinho tão enigmática quanto o próprio assassino e suas intenções. Intenções essas que estavam escondidas por trás de olhos amarelos profundos e inebriantes que brilhavam na triste  penumbra que recheava de desespero o recinto, a máscara escondia o semblante de seu usuário. Assobiava uma sombria canção, com a calma de um caçador perseguindo uma presa indefesa.

– Eu encontrei a oferenda perfeita, o sacerdote dos grandes antigos ficará orgulhoso de mim.

Minha prima lutava Karatê e partiu para cima do agressor, eu me limitei a sentar no chão e implorar por minha vida. O assassino, munido de uma faca, retalhou Gabriela e foi para nosso quarto, voltou com a pequena caixa em mãos e atirou uma faca em minha direção antes de desaparecer na escuridão. Pude olhar uma última vez em seus olhos tomados pela loucura, aquilo que estava à minha frente não era mais um ser humano, apenas uma casca que cedera à insanidade. Havia um bilhete preso à arma branca, nele estava escrito: “aqueles que não lutam por suas vidas não merecem ser sacrificados”.

Esses dizeres, esses malditos dizeres, nunca mais pude tirá-los de meus pensamentos, todos os dias eu sonhava com o rosto já sem vida de minha prima caída em meus braços, e então, uma faca era atirada em minha direção e nela, eu podia ler tal frase. O ódio que eu sentia por mim me corroía, não conseguia me perdoar pela minha impotência, minha incapacidade de me defender, até que, em um dado momento, decidi mudar. Eu mereceria ser sacrificada. 

[Presente]

Um carro parou em frente à casa, dele saiu um casal que com pressa abriu os portões e entrou no local. Não tive tempo de impedi-los, limitei-me apenas a observar de longe, eles tiveram sua primeira surpresa ao pisarem em um fluído viscoso que descia escada abaixo, manchando as caras roupas dos jovens.

– Somente o vermelho vívido da mórbida falta de vida é capaz de saciar minha sede – ecoou uma voz gutural, capaz de gelar a espinha de qualquer ser vivo que a ouvisse.

O casal hesitou, porém decidiu subir até o segundo andar, de certo, deve ter pensado que era apenas um sádico que matava animais por diversão e por obra do destino escolhera esta casa para se entreter.

– Eu vou chamar a polícia! – bradou o dono da casa.

Não houve resposta, ao invés disso, um silêncio gritante invadiu o ambiente, uma atmosfera aterradora torturava os ali presentes, dissecando suas esperanças. Algo caiu ao lado do homem, ao se abaixar para apanhar aquilo, seu pavor se tornou quase palpável, tremia enquanto olhava, fixamente, para odiosa descoberta, uma mão decepada. Não sabia ao certo de quem era, sabia apenas que tal imagem jamais sairia dos confins de sua mente, aquela pele gelada em contato com a sua fazia todos os seus pelos se arrepiarem, a sensação não passou mesmo após soltar aquele pedaço de carne.

– Eu sou o que escolhe quem habita o mundo carnal e quem visitará seus entes queridos, sou algo maior que a morte, sou seu emissário. Junto dos Grandes antigos trarei o inferno à terra, causarei o maior pandemônio já visto pela humanidade – sussurrou a voz, enquanto uma sombra tomava forma na escuridão, uma luz prateada resplandecia de sua mão, lentamente, assumindo a configuração de uma lâmina. – Tornar-nos-emos um! Em breve – completou a voz entre gargalhadas.

Nada se viu, pouco se ouviu, novamente, o silêncio pôs-se a reinar naquela sombria noite, o casal nunca saíra daquela casa. A polícia, finalmente, havia chegado e rapidamente adentrou a casa. Então, uma voz foi ouvida por todos no recinto.

– Vocês também querem participar da minha obra-prima?

O agressor assobiava a mesma sombria canção de cinco anos atrás enquanto os oficiais eram massacrados sem nenhuma piedade. O sangue dos corpos mortos a facadas formou um mar agonizantemente vermelho, causando espanto em quem o visse. Os acontecimentos dessa amaldiçoada noite passaram a assombrar aquela calma vizinhança, ninguém nunca soube ao certo o que aconteceu, mas uma coisa eu posso afirmar com certeza. Algo maior está por vir. 

Pela primeira vez, de novo

Texto por Rafael Amin

Esse é o segundo ano do FalaJP! e esse também é o primeiro ano do FalaJP! Parece contraditório, mas acredite, é apenas biológico. Bem, biológico, mas com uma pitadinha de filosofia. Pense em um corpo humano, com suas células se regenerando e morrendo, chega um ponto em que todas as células já são diferentes das originais, mas a pessoa ainda é a mesma. Ou pense em uma vassoura, composta de um cabo e de uma cabeça, se você trocar a cabeça, ainda é a mesma vassoura? E se depois você trocar o cabo? Não sei se a vassoura é a mesma, mas sua função continua igual. Aconteceu a mesma coisa com o FalaJP, algumas – a maioria – pessoas que escreveram no primeiro ano do jornal saíram, mas a função e o objetivo dele continuam iguais.

Acho que agora seria uma boa hora para explicar esse objetivo, mas eu não sei direito qual é ele. Fiquei o primeiro ano passado inteiro procurando. É essa mania estranha dos seres humanos de buscar um porquê das coisas. Um porquê das terças à tarde, uma finalidade para aquelas três horas gastas todas as semanas. Acho que, finalmente, entendi esse porquê com um texto que o Joca escreveu pro próprio jornal: Era uma tarde de terça-feira. Recomendo muito a leitura para quem ainda não chegou a ler. Mas o próprio título vem carregado de um peso enorme: “era”. Era afinal, não vai ser mais, essa “finalidade” acabou junto com 2019. O que vai ser agora eu ainda não sei, mas acho que isso pode ser uma coisa interessante.

Por mais que eu não saiba qual é o objetivo do jornal, sei qual é sua função. O segundo primeiro ano do FalaJP! é como uma vassoura, uma vassoura simples, sem nenhum adorno, mas com uma função bem clara. Essa é de dar voz às pessoas que escrevem para ele, e assim, com cada texto novo, de cada aluno, a vassoura vai ganhando seus enfeites.

Mas, afinal, o que é “dar voz”’? Ano passado, quando eu escrevi um texto parecido com esse para a segunda edição do jornal, eu entendia “dar voz” como processo de abrir espaço para o contato com o outro. Assim, o FalaJP! daria voz às pessoas que escrevem nele por funcionar como um espaço onde o texto encontra o seu leitor. Talvez isso seja verdade em blogs ou redes pessoais, mas agora eu penso que o jornal dá voz de uma maneira diferente, penso que esse processo envolve apenas uma pessoa: aquela que escreve o texto. Deixa eu explicar.

O escritor russo Vladimir Nabokov, em um ensaio sobre Liev Tolstoi, escreveu: todas as pessoas são o palco de duas forças: a ânsia de privacidade e o desejo de sair pelo mundo. É nesse sentido que o FalaJP! dá voz, quando a pessoa, ao escrever, consegue encontrar uma balança entre essas duas forças. Somos jovens em formação, ainda estamos nos descobrindo e descobrindo nossos gostos, sendo assim, nossa voz é dada quando conseguimos canalizar essas forças e escrever um texto que ao mesmo é pessoal e interessante para o outro. Então, talvez a expressão correta não seja “dar voz” e sim “achar voz”, achar estilo, achar forma e balança. A graça do FalaJP! não necessariamente está em saber que alguém gostou do seu texto, mas, simplesmente, olhar para ele e pensar: eu acho que escrevi um bom texto. (Infelizmente isso nem sempre acontece, mas aí já é outra história rs). 

Por isso, acredito que todo novo ano do FalaJP! vai ser também o primeiro ano do FalaJP!. Sempre que novos adolescentes em processo de formação decidirem, em pleno ensino médio, gastar um tempinho escrevendo, expondo-se,  achando sua própria voz, então, a vassoura do FalaJP! vai ser enfeitada de maneira diferente. Eu sinto falta daquelas tardes de terça do texto do Joaquim, das desculpas, das piadas internas, das brigas por canudos e capitães da areia. Mas também estou curioso para saber como vão ser as novas tardes de terça, como a vassoura vai ser adornada dessa vez; o que vai ser desse novo FalaJP!

Amizade de corredor

Conto por Rafael Amin

Imagem: reprodução da internet

Batia o sinal.


Começava, então, o mesmo ritual de todos os intervalos, e ritual repetido é rotina. O garoto calmamente levantava de sua cadeira, observando os quatro cantos da sala: o azul pastel, que beirava o cinza, das paredes; o verde escuro, como uma floresta morta, da lousa;  observava seus colegas conversando, cada um com seu grupinho fechado nos quais ele nunca conseguiu entrar. Mas nada disso o incomodava, ele sabia que não era na sala onde deveria estar, assim, com um sorriso no rosto – um sorriso tímido que ele mesmo nunca chegou a perceber – descia.

Descia aquilo que Borges um dia chamou de paraíso: a biblioteca, onde todos os frutos de Babel estão imortalizados em papel e tinta. Mas não, o paraíso agora não se encontrava nos livros; encontrava-se em algo muito maior, e infinitamente mais complexo, que todo o tempo perdido de Proust e que o dia repleto de tempos passados e futuros de Joyce: paraíso ali, era no outro.

Os dois sempre se encontravam na biblioteca. O menino do primeiro ano; a menina, do terceiro. Havia menos de um ano que se conheceram, por coincidência, nos corredores da escola, e os dois, que sempre andavam com algum livro debaixo do braço, passaram a conversar. Conversa de corredor é assim: começa pequenina, dificilmente cresce. Ela enfrenta o pior muro de todos, aquele que corta todas as conversas, deixando fios soltos que nunca se resolverão: o tempo. Afinal, uma conversa de corredor vai sempre contra o relógio; quando o elevador para, quando o ônibus chega no seu destino, quando, depois de quinze minutos, bate o sinal, anunciando o fim do intervalo, então, a conversa precisa acabar, com cada um indo pro seu canto e, eventualmente, esquecendo da conversa.

Mas quando cresce… Aí nem o tempo, a distância ou o acaso; nada consegue segurar. Os Querubins abrem os portões do Éden, tornado o inferno de Sartre paraíso. Quando cresce, a conversa toma vida por si mesma, vira o alfa e o ômega, o princípio e o fim, ela passa a existir apenas por existir enquanto conversa. Quando cresce, até o silêncio se torna agradável. Quando a conversa cresce, aí vira amizade. Foi isso que aconteceu entre os dois alunos. Um dia, a conversa simplesmente cresceu e, então, o garoto do primeiro ano, ainda achando tudo isso de ensino médio muito novo e estranho, e a menina do terceiro, aterrorizada pelo desconhecido que a aguardava no próximo ano, passaram a se encontrar sempre na biblioteca. Um ritual estudantil, bobo e tipicamente adolescente, mas nem por isso menos belo: assim que batia o sinal, os dois desciam, encontravam-se fingindo que por coincidência, e rapidamente passavam a conversar. 

O intervalo já estava perto de acabar e os dois continuavam nessa dança de palavras. Dessa vez, a conversava não tinha nenhum tema específico, era tão abrangente e ao mesmo tempo tão pessoal que se alguém um dia viesse a narrá-la, teria de usar apenas a voz do narrador, pois seria impossível retratar, de maneira fidedigna, a naturalidade daquele diálogo com travessões e aspas, frases previamente pensadas antes de ir ao papel. O garoto perguntava uma coisa, a menina respondia, e respondia também a próxima pergunta antes mesmo dela ser feita. A conversa mudava a cada de frase de assunto e os dois só aceitavam. Ninguém a ditava, ninguém a dominava, ela apenas fluía e eles seguiam a correnteza. Haviam esquecido do tempo, das próximas aulas, das atividades, das lições que tinham de acabar, dos outros alunos na biblioteca; naqueles quinze minutos de intervalo existiam apenas em relação à conversa. Então, bateu o sinal.

O som alto, estridente, do sinal tornava o ambiente pesado. O fim de um intervalo, por melhor que tenha sido, vem carregado de um gosto amargo e melancólico. Afinal, todo fim de intervalo representava um dia a menos dessa rotina que já parecia intrínseca à vida deles. Os dois sabiam disso, mas fugiam dessa ideia, tentavam ao máximo não pensar nesse futuro tão próximo, no qual a relação entre eles existiria apenas entre likes, fotos e pequenas conversas ocasionais. O menino não conseguia imaginar seus próximos dois anos de ensino médio, em que iria à biblioteca apenas para pegar livros. A menina via-se no garoto quando ela era do primeiro ano, por isso, não queria perder essas conversas, elas a lembravam de tudo que já tinha feito nessa escola, de cada armário que ajudou a quebrar e cada conquista que realizou, de um pequeno mundo privado que ajudou a mudar, mas que em menos de um ano fecharia as portas para ela. Sem pensar nisso, os dois subiam as escadas, cada um em direção a sua classe, concluindo a conversa e despedindo-se. Era um intervalo a menos.

Batia o sinal. O professor resolvera usar esses quinze minutos para arrumar umas pastas na biblioteca. Não conseguiu. Distraiu-se tentando, com o canto do ouvido, escutar uma conversa entre seus alunos. Uma garota do primeiro e um menino do terceiro falavam sem parar sobre os mais diversos assuntos. A música nunca fora de tom que compunham com suas palavras, a dança sincronizada de seus gestos, o jeito que os dois pareciam não se importar com os outros alunos, tudo aquilo instigava o professor, como se seu inconsciente estivesse tentando lembrar de algo já há muito enterrado na memória. Então, enquanto subia as escadas, junto com dezenas de adolescentes voltando do intervalo, até a sala onde daria sua próxima aula, as memórias vieram como se fosse uma epifania. Lembrou de todas as suas descidas à biblioteca; todas as conversas que o transportavam a outra realidade; de quando aprendeu a dançar com palavras; de um tempo mais simples, quando, por quinze minutos, o paraíso perdido era recuperado. O professor lembrou também do Drummond e, com um sorriso tímido, sussurrou – tão baixinho que sua voz se perdeu em meio aos gritos dos alunos subindo as escadas – “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” 

Ao farol da pandemia

Texto por Rafael Amin

Um farol é um objeto sólido, fixo em determinado espaço. Ele existe para guiar, mostrar o caminho quando a visão está embaçada. Um farol também existe entre parênteses, cercado de mar, cercado de vida, mas condenado à solidão. Virginia Woolf, em seu livro “Ao farol”, usa esse símbolo para escrever uma das mais bonitas elegias sobre a perda, a solidão e o tempo. Assim como um farol o livro pode nos ajudar a ver um pouco de luz em tempos de pandemia.

“Ao farol” foi escrito um pouco depois da primeira guerra e trata das perdas e mudanças que esse evento trouxe na vida de uma família. É um daqueles livros em que os personagens são reativos, no qual não há uma história cheia de reviravoltas e consequências, a beleza da obra está na sua forma, descrita pela a autora como duas salas unidas por um corredor.

(primeiro esboço de “Ao farol”)

A primeira sala, o começo do livro, retrata a vida antes da guerra, ou, no nosso caso, antes da pandemia. Ela narra um dia na vida de uma família, que, dependendo do clima, pretende ir ao farol. Cada membro tem seus desejos, sonhos e planos. Planos esses que parecem reais, como se o futuro já fosse concreto, porque é assim que a gente pensa as coisas, marcamos eventos com meses de antecedência imaginando que tudo continuará igual até lá. Mas aí surge uma pandemia, mas aí o tempo passa.

A segunda parte, o corredor, é um artifício literário, existe para narrar o inenarrável. O tempo passa, mas é impossível narrar o passar do tempo enquanto ele ocorre, porque o passar do tempo é, e se narra o que foi. Virginia, em uma posição de já ter saído da primeira guerra, usa, nessa parte do livro, a imagem de uma casa se deteriorando para descrever os horrores desse evento. Não temos esse privilégio de tempo, ainda não vemos a pandemia como algo que aconteceu, não, ela está acontecendo bem a nossa volta.

O passado nunca pareceu tão distante para minha geração, nem o futuro tão incerto. Na data da publicação deste texto nem faz três meses que iniciou o isolamento social, mas, mesmo assim, temos a impressão de que a vida antiga, a vida de escola, contatos, cafés e saídas, já parece relíquia da memória, e os planos de 2020 já tiveram que ser mudados. Mas nem o passado nem o futuro conseguem ser tão assustadores quanto o presente.

“Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”, pego essa frase de Adorno, tiro-a de contexto, e  expando-a: acho que comer, sorrir, dormir, “buscar leveza”; viver, após Auschwitz, após Rwanda, após as ditaduras empresariais-militares, e agora durante a pandemia, é um ato bárbaro. No momento em que escrevo esse texto têm milhares de pessoas morrendo ao redor do mundo, famílias nem podendo ir para o enterro de seus parentes, e, no meio de tudo isso, eu estou aqui, com papel e caneta, escrevendo sobre Virginia Woolf. Isso é desumano, mas, talvez, também seja a coisa mais humana possível: continuar vivendo, continuar buscando  esperança em um agora tão desesperançoso. Uma forma de encontrar essa esperança pode ser por olhar para exemplos passados, e existe um caso interessante de arte em tempos de pandemia.

O pintor Edvard Munch, mais conhecido pelo seu quadro “O grito”, pegou gripe espanhola em 1917. A gripe matou mais gente que a primeira guerra, mas ela não está tão marcada em nosso consciente coletivo como a guerra está. Felizmente, Munch sobreviveu, e o que é mais interessante ainda é ele ter feito dois autorretratos nesse período. O primeiro quando ele ainda estava com a gripe, o segundo depois que ele se curou.

(autorretrato com gripe espanhola)
(autorretrato depois da gripe espanhola)

A primeira pintura é tão distante, ele se pinta sem olhos, sem rosto; sem alma. Imagino que nesse momento Munch já não tivesse muitas esperanças em relação ao futuro e a sua condição. Mas, depois que se recupera, ele já se pinta com olhos, com um rosto, tem até uma janela por onde entra luz e vida. Essa segunda pintura é a terceira parte do livro de Virginia, é onde ainda não estamos, onde os sofrimentos do agora já são o passado do futuro. E é nessa relação com o tempo que se encontra a beleza da obra de Woolf.

Na terceira parte do livro vemos os personagens indo até o farol, símbolo de um passado perdido pelo tempo, um passado de memórias lindas de uma mãe brincando com filho e de um pai com sua filha. Memórias essas que não são mais possíveis, a guerra levou o filho e a doença, a filha. Mas os personagens vivem, mesmo depois de um passar tão cruel do tempo eles continuam andando em direção ao farol, aprendendo a viver com o peso memória.

Às vezes, imagino que o sonho modernista, aquele de Proust, Joyce, Borges e, principalmente, da Virgínia, fosse de um tempo memorial, no qual apenas a lembrança de um momento passado era suficiente para atingir a plenitude. O pesadelo, entretanto, também; um tempo no qual só a lembrança de momentos de crise são suficientes para levar alguém à loucura, onde apenas a ideia de voltar a ter uma baixa foi o suficiente para fazer Virginia afundar no oceano. Felizmente (ou infelizmente), nosso tempo é apenas o agora, o que quer dizer que temos de lidar com todas as suas complicações e incertezas, mas também garante uma coisa: que o agora vai ser melhor. Não necessariamente o agora futuro, mas tudo que estamos presenciando , quando virar memória e história ,será, no mínimo, um pouco menos confuso.

Quanto ao agora futuro, posso apenas esperar que não optemos pela barbárie e pelo esquecimento, que não transformemos todas as vidas perdidas em apenas números, que consigamos seguir em frente no caminho que aponta o farol da nossa humanidade: aquela que sente empatia pela morte e sofrimento de pessoas, não pela “morte” de CNPJS.

Essa nova proposta é o cantinho do Fala JP! que você protagoniza. O CollabJP é um projeto que oportuniza aos alunos o envio de suas obras, entre elas: Cartaz, Pintura, Desenho, Fotografia, Vídeo e Música. Mande sua obra em bit.ly/collabfalajp.

Nesta última edição confira os últimos envios até a publicação 🙂

Carta ao bom velhinho

Enviado por Rafael Pinto

Ô mãe, 
fiz uma carta 
Lê ai e ve se não descarta
É tipo aquelas de natal 
Não sei se fui bom menino 
Mas sabe como é

Todos querem o presente no final
O problema é que ninguém muda o presente 
E esse aqui só desagrada parece de grego
Eu sei eu sei 
Cavalo dado não se olha os dente 
Mas depois de Tróia isso foi só desapego 

Ô mãe, ta vendo? 
To pedindo pra ele não vir de vermelho 
Ouvi dizer que não gostam muito dessa cor 
To com medo de matarem o velho
E acabarem com toda a alegria, todo o frescor
Toda a leveza, tudo que sobrou 
E deixar só coisa ruim tipo bolsa de cocô 
Tipo uns hambúrguer e óleo 

Ô mãe, 
Manda isso aí eu imploro 
Por favor
Porque ultimamente o perigo tá eminente
Eu to sentindo que o fim tá próximo 

Carta para as próximas gerações

Texto por Isabella Gemignani e Carolina Sousa

Como tudo nessa vida, o ano está chegando ao fim e está na hora de nós darmos nossos adeus à todos esses 365 dias, repletos de emoções e aventuras, que vivemos. E, para nós, a turma formanda do Jean Piaget, as despedidas são muito maiores dessa vez. Estamos dizendo adeus não só ao Jean Piaget e às nossas amizades, mas também à todos os projetos e conquistas das quais fizemos parte e que tornaram esse terceiro ano único e, acima de tudo, nosso. Em retrospectiva, é possível relembrar de todos esses momentos, construídos pela turma de 2019, com um carinho muito especial.

É mais do que justo nos autonomear como uma turma pioneira, desde a fundação do Clube do Voluntariado – juntamente com as centenas de brigadeiros já vendidos por nós – até a constituição da equipe do primeiro ano do Fala JP e a única turma privilegiada que teve que vender Charlie Brownies e Cookies em prol da Geometria. Nessas pequenas ações, que, falando assim, não parecem ser muito, colocamos uma dose de amor, juntamente com cada gota de suor e esforço em todas as atividades extracurriculares que participamos. 

Mentiríamos ao dizer que nada disso nos fará falta. Ao longo desse ano, nos tornamos uma família, nos apoiando uns nos outros em nossos tempos ruins e dividindo as alegrias dos  tempos bons (e, compartilhando, sempre, uma classe por mais horas do que jamais poderemos contar). Criamos, mesmo, nossos quase rituais. O do brigadeiro – o mais esperado pelas meninas da comunicação -, que começava na arrecadação de fundos e marketing pelo grupo do Bernardo, da Anna e da Mari, ao Matheus Lopes e Rafael Pinto, que compravam os ingredientes – e as diversas discussões que isso já gerou – até a etapa de produção (fazer e enrolar os brigadeiro) que contava comigo, Carol dos Brigadeiros, e um grupo de meninas, que sempre mudava mas que eram um anjos, que, por fim, resultava na etapa de vendas, com Thomas, Gabriela Craveiro, Caio, Anita, Carolina Maiteh, Juliana Monteiro, Maria Eduarda, Elisa, Ananda, Isabella, Flávia e os outros comovidos honorários hahah. 

Porém, além de minhas emoções implorarem por um texto melancólico e nostálgico, eu sei que esses só interessariam a nós que presenciamos isso e a nós que temos essas memórias guardadas em nossos corações. Tampouco quero tornar essa matéria um slide de fotos de nossos momentos, porque já chorei com dois desses e não gostaria de fazê-lo de novo antes das colação. Então, como parte da turma formanda, é nosso dever deixar nossas vivências como conselhos para aqueles que ainda virão. E relaxa, não estamos falando apenas do CARPE DIEM – apesar de que, eu curtiria muito bem o dia no lugar de vocês… 

Como nós, Carol e Isa, não conseguimos sequer imaginar aconselhamentos suficientes que sintetizem todos os nossos anos de experiência no Ensino Médio, fizemos deste texto o primeiro hiper-colaborativo do jornal, não só para provar que não estamos de brincadeira ao nos dizermos pioneiros, mas também para deixar, aos anos seguintes, por meio desses recados, o aviso de que estivemos no lugar que vocês agora ocupam antes. Brincadeira. Ou não. Enfim, aqui estão as lembranças, conselhos e o carinho dos formandos do Fala JP à vocês.

“O terceiro ano vai ser intenso e pedir muito de vocês. Por isso, fiquem perto das pessoas e das coisas que os façam bem.  E sim, não vai ser simples e a pressão em algum momento vai parecer demais, mas eu acredito que vocês conseguem lidar, pensem nisso também, tudo aos poucos. Confiem em vocês, em passos pequenos, em momentos calmos, mas significativos, que gradualmente, tudo se encaixa de alguma maneira. Esse ano não precisa definir a vida de vocês, acreditem que são muito novos com muito para conhecer ainda. Vocês não serão o número de aprovações, muito menos, suas notas da escola, vocês serão muito mais que qualquer número ou impossibilidade. Tem uma música da Legião Urbana que fala “A humanidade é desumana / Mas ainda temos chance / O sol nasce pra todos / Só não sabe quem não quer”. Encontrem o sol de vocês nesse ano, e esperem ele nascer quando a noite estiver longa demais, que tudo vai ficar bem. E participem do FalaJP! haha” – Ana Badialle

“Tanto pra dizer… Mas serei breve. Sentirei falta de ser JP. Por toda minha vida fui rodeada por amigos, professores e funcionários incríveis e só tenho a agradecer. O JP fez quem sou hoje, não só na formação acadêmica, mas também como pessoa. Do fundo de meu coração, deixo o mais genuíno obrigada.” – Gabi Craveiro

“O tempo passa. Às vezes ele parece passar mais devagar naquelas aulas de Química logo depois do almoço, mas ele passou muito mais rápido nesses três anos do que eu jamais pude imaginar. É clichê dizer isso, mas eu realmente não preciso me colocar no lugar das turmas do segundo e primeiro ano porque, para mim, eu era dessas turmas fazem tipo alguns meses. Então, meu conselho é que vocês aproveitem o tempo, especialmente o que vocês passam na escola – que não será pouco, especialmente no terceiro ano. Participem das atividades que vocês se interessam sem medo, faltem algumas aulas para dormir mais, fiquem amigos dos funcionários e professores da escola, sejam curiosos, não levem as coisas tão a sério, e tentem transformar a obrigação de ir pra escola em algo que possa se tornar, no futuro, memórias felizes e além dos estudos :)” – Isabella

“Tentem fazer do próximo ano o melhor ano das suas vidas, não porque você curtiu todos os momentos ou foi feliz em todos eles, mas porque você deu o seu melhor e cresceu como pessoa. O mais legal dessa experiência é reconhecer tudo isso no fim. Vai valer a pena, não desistam e tenham um ano incrível!”- Melissa

“Gente, eu sei que todo mundo fala a mesma coisa sempre mas vou falar de novo por que realmente é importante: Estudem e não deixem as coisas pra última hora – eu sei que vai dar vontade de desistir várias vezes porém é um ano só e todo o esforço vai valer a pena no final. Se ajudem!!!! Sempre tem alguém que você pode ajudar e no futuro você também pode precisar de uma ajuda pra alguma matéria. E por último: Aproveitem essas férias (principalmente o pessoal do 2o ano) porque ano que vem vai ser puxado! Mas eu acredito em vocês 🙂 Bom fim de ano pra todos” – Noah Mendes

E assim encerramos a nossa última edição do Fala JP – do ano para os que ficarão na escola, e talvez da vida para nós que vamos embora, como eu, Isabella, e a Carol. Aqui, nesse jornal, fomos quem queríamos ser de propósito. Colocamos para fora o que sentíamos dentro, e vimos que a poesia, a criatividade a autenticidade estavam em nós, tanto quanto grupo quanto indivíduos. Mesmo sendo pessoas completamente diferentes, aprendemos uns com os outros, viramos amigos e, juntos, criamos no mundo, às 5 horas de terças-feiras, um espaço feito de conversas paralelas, risadas, provocações, muitas fugidas de tema e, acima de tudo, feito de ideias. Em nossas edições contadas, criamos um infinito, deixando, de palavra em palavra, de texto em texto, um pedacinho de nós.

Obrigada por participarem desse nosso universo de doze edições. E, como turma pioneira, esperamos encontrar o seu universo e o das próximas gerações nas edições que vem. 

—  Ana Luiza Badialle, Anita, Bia Freitas, Bernardo, Carolina, Gabi Craveiro, Isabella, Larissa, Melissa e Noah.

A primeira vez a gente nunca esquece!

Texto por Aline Nicolau

“E é sério esse bilhete”. Lembro-me, como se fosse ontem, da primeira vez que vi os rostinhos desta turma que agora se despede do JP. Era 2017. Carinhas ainda infantis e assustadas com o Ensino Médio, mas cheias de energia de vida, de gás para enfrentar o novo ciclo. Eram atentos, questionadores, perspicazes e acima de tudo gentis. Foram delicados com quem estava chegando (euzinha, no caso), eram amigos e empáticos uns com os outros e isso é lindo de ver quando estamos diante de um grupo tão diverso. Mostravam-se adolescentes prontos para encarar a vida adulta.

Nosso segundo ano de convivência foi ainda mais agradável, já tínhamos certa intimidade, eu errava menos os nomes (não perdi o hábito, faço isso até hoje) e desevolvemos um bom trabalho acadêmico (creio!). Neste 2019, os encontros foram de corredor, mas sempre com o mesmo carinho. De vez em quando vinha um “Aline, tirei X na redação, to arrasando” e meu peito se enchia de orgulho. Às vésperas do Enem também teve: “Qual será o tema da redação, Aline? Qual é o seu palpite?” E foi gostoso vê-los querendo minha opinião, mesmo não sendo mais meus alunos. Senti-me honrada com a calorosa recepção na última reunião de pauta do Fala JP. Vocês são realmente muito especiais. Eu estava certa desde o primeiro encontro.

Somente pessoas incríveis abdicariam de parte do precioso tempo, dentro de um terceiro ano, para se dedicarem a um jornal virtual que serviria para ajudar todos os alunos da escola. O Fala JP mudou o assunto nos corredores e era uma delícia parar, ler o que cada um produziu naquela edição e constatar que vocês se tornaram escritores maduros, engajados e responsáveis.

Agora, no entanto, é hora de passar o bastão. E estejam certos de que farão isso de forma brilhante. Vocês já fizeram história e certamente plantaram a sementinha da arte de pensar, escrever e publicar, nas próximas turmas que assumirão o Fala JP. Podem ir tranquilos e em paz!

Desejo que a nova etapa seja gloriosa. Não será 100% o que desejam, e tudo bem! Xuxa passou um grande ensinamento atemporal pra minha geração. Dizia ela nas gincanas de um programa de auditório: “se cair, levanta e continua”. 

 Guardem essa dica da tia Aline!!! Os percalços, meus queridos, podem aparecer, mas desejo que vocês tenham serenidade para sair de qualquer situação desagradável.

Estejam sempre entre vocês, entre amigos e CUIDEM-SE!
Mantenham sempre esse Coração de Estudante pulsando no peito e lembrem-se do mestre Milton Nascimento “Há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”.

“Qualquer dia, queridos, a gente vai se encontrar!”
Um abraço carinhoso e fraternal em cada um de vocês, da profa. Aline.

7 dicas para irritar o LF

Todo mundo já teve aula com o LF e sabe que ele tem toque com algumas coisas. Nós fomos a fundo no assunto e criamos esse tutorial para te ensinar como irritá-lo! 

1- Pergunte como está o mapa astral dele, ele odeia signos, mas a propósito ele é de touro.

2- Suje o vidro da TV de giz antes dele dar aula, eu aposto que ele vai buscar um papel molhado para limpar kkkkk

3- Fale sobre homeopatia e não antibiótico, ele acha que é água e não remédio.

4- Quando o Santos perder chegue na sala e fale sobre o assunto. Para ele, o Santos FC está em 1º lugar.

5- Suma com a balança de pesar café, ele fica desnorteado.

6- Defenda a liberdade de Hong Kong.

7- Não ria quando ele faz sotaque de gaúcho ou carioca, mermão! Ele fica bravo bá tchê.

Obs: LF não fique “BRAVIO” com a gente!

Conto de suspense: Onze corpos

Conto por Victória Lopes

Foto: Divulgação

O casal brindou as taças de cristal enquanto sorria, Eduardo estendeu a mão para ela por cima da mesa, a aliança fina de ouro reluzindo com a luz vinda das lâmpadas. Ele e Carolina entrelaçaram os dedos, nenhum dos dois conseguia focar em algo que não fossem eles mesmos. Exatamente um ano atrás os dois assinaram os papéis no cartório, eram um casal jovem, ambos com seus vinte e dois anos e começaram a namorar quando ainda tinham quinze anos. Se conheceram no ensino médio e nunca mais desgrudaram, decidiram lá naquela época passar a vida toda juntos.

Eles eram tão diferentes e mesmo assim tão parecidos, a ruiva era mais atlética, acordava cedo para correr, ia na academia de noite e sempre que podia marcava partidas de vôlei na praia com seus amigos da faculdade. Já ele era um bicho-grilo, gostava de ver filmes antigos, de ficar em casa, às vezes ia no cinema sozinho apenas para aproveitar um bom filme dos anos 70/80. Diferente dela, que cursava direito, ele não ia para a faculdade, trabalhava dentro do apartamento, comandava o setor financeiro da empresa de seu pai e adorava o que fazia. 

De qualquer maneira, a moça nunca precisou arrastar o namorado para fora de casa, Eduardo sempre gostou de sair com ela para onde quer que fosse, ocasionalmente eles passavam o fim de semana fora, só para escapar um pouquinho e ter tempo só para os dois, é tudo que ambos mais desejam e gostam, de ficar na companhia um do outro e isolados do resto.

[…]

Carolina se sentou dentro do táxi para recuperar o fôlego, estava saindo da academia uma hora mais cedo e ainda sim eram dez horas da noite. Já esperava encontrar o marido dormindo no sofá, ela riu sozinha com o pensamento. O motorista a deixou na porta do prédio, a mesma passou pelo porteiro, entrou no elevador e chegou no sexto andar. O prédio era bem antigo, não tinha câmeras e só um apartamento por andar. A garota também não ficou surpresa quando algumas luzes do corredor estavam piscando, o que dava um ar macabro para o ambiente. Entrou em casa e via apenas iluminação vindo da cozinha.

Edu ainda estava acordado, ela sorriu, deixou a bolsa na poltrona e foi até o cômodo aceso. Abriu a boca na intenção de falar algo, mas perdeu as palavras assim que entrou no recinto. Sangue escorria pela bancada e pingava no chão já coberto do mesmo líquido, instrumentos ensanguentados estavam na pia e não havia ninguém lá. Seu coração batia tão forte que a caixa toráxica doía, milhares de coisas preocupantes passaram por sua cabeça, mas todas cessaram assim que uma figura entrou na cozinha. 

Um grito quase escapou de sua garganta, até que ela viu o marido parado na outra porta. As barras da calça preta estavam dobradas até o meio da canela e ele estava descalço, tinha luvas de borracha nas mãos, segurava um balde de limpeza e estava ensopado de sangue. O moreno ficou surpreso ao ver a esposa ali mas agiu como se nada tivesse acontecido.

– Carol, você voltou cedo. – Sorriu de leve e esperou um minuto completo por uma resposta, sem conseguir nenhuma continuou falando. – Como foi o treino? Hm acho melhor você tomar um banho, não se preocupe, vou limpar as coisas aqui e já vou. – Eduardo se abaixou e voltou a limpar.

Com muita dificuldade a mulher se retirou, seu tênis com solado ensanguentado fazia barulhos grotescos e deixava um rastro por onde ela passava. Entrou no chuveiro e deixou a água quente escorrer pelas costas, Carolina não conseguia processar nada, se secou, colocou o pijama e se deitou no mais puro silêncio. Escutava barulhos na cozinha e se arrepiava com cada um deles, aquilo parou por um tempo, logo ouvia Eduardo no banho e quando o mesmo saiu ela fingiu que dormia. Ele deitou ao seu lado e a abraçou, a ruiva respirava com dificuldade e estava totalmente tensa, embora tivesse tentado, não conseguia dormir de jeito nenhum. 

[…]

Fazia uma semana do ocorrido e não tinham trocado uma palavra sobre. Ela permanecia tensa mas tentava ignorar os fatos, ambos conversavam normalmente, porém a curiosidade corroia Carolina por dentro e ela precisava saber. Resolveu então que não iria na academia, combinaram de fazer uma noite de filmes, mas não era só isso que ela planejava. O casal sentou no sofá já com um enorme balde de pipoca e um copo de refrigerante, prestes a dar o play Eduardo foi interrompido:

– Eduardo, a gente precisa conversar.
– É sobre semana passada?
– Aham.. Edu… O que foi aquilo?
– Eu… – Diferente daquela noite, ele parecia mais envergonhado, relutante. – Eu matei alguém. Não foi um só. – Ele baixou o olhar.
– Quando começou?
– Faz três anos, eu acho, a primeira vez foi um acidente, ele veio me assaltar, eu tinha um canivete, eu gostei! – O moreno se animou enquanto falava, ignorando a expressão contorcida da esposa. – Não faço muito, em geral uma pessoa a cada três meses, para despistar. 
– Eduardo?! Meu Deus? Isso dá pelo menos doze pessoas!
– Eu sei, meu amor, mas você não tem que se preocupar, eles nunca vão me achar.
– E as vítimas? – Engoliu em seco.
– Pessoas sozinhas em becos escuros e vazios, me livro dos telefones e quanto aos documentos, estão em uma caixa debaixo da cama, são onze. – Carol e Edu trocaram olhares. – Você não tem que ter medo de nada, eu sei que é errado e eu vou tentar me controlar, tudo bem? – Ele sorriu e beijou seus lábios de leve, a outra apenas assentiu em silêncio. – Vamos ver o filme?

[…]

A culpa e o pavor lhe consumiam por completo. Carolina não aguentava saber de tudo aquilo e ficar quieta, tinha medo de chegar em casa e presenciar todo aquele banho de sangue ou algo pior. Ela não conseguia dormir direito, às vezes nem dormia, a ruiva perdeu total foco e em tudo e todos. Tinha parado de se exercitar, mas de alguma forma arranjava algum motivo para sair de casa e se manter longe. Todas as vezes que chegava e via as luzes apagadas seu coração batia rápido e a língua secava, até encontrar o marido dormindo. “Você não vai contar? Vai?” Mesmo depois de ficar sabendo, ela não conseguia parar de amá-lo.

Se preocupava com ele, queria vê-lo bem, às vezes ela se esquecia dos feitos de Eduardo, passavam horas juntos, riam, saiam para jantar, viajavam, ele continuava o mesmo. Porém, quando deitavam juntos, ela temia por sua própria vida. A culpa seguiu martelando sua cabeça e em três meses aquilo explodiu. Carolina sentia que iria acontecer de novo, pensou no sangue escorrendo no chão da cozinha e ensopando as roupas do moreno, os pelos da nuca se arrepiaram e o desespero pesou. 

A mesma esperou a saída do amado para revirar suas coisas, debaixo da cama achou tal caixa, tinham exatamente onze documentos, do jeito que ele disse. Lágrimas rolavam pelo seu rosto conforme lia cada um deles, ela temia por sua vida e a daqueles inocentes. Colocou tudo de volta, pegou as facas e coisas afiadas da cozinha e colocou tudo juntos, pegou o carro e seguiu caminho até a delegacia de coração apertado. Chegou lá e contou tudo que sabia. 

Falou daquela noite, mostrou as facas, identidades, tudo. Explicou que não sabia dos detalhes, não sabia dos corpos e nem dos métodos que ele tinha para escolher, não sabia de datas e disse exatamente o que Edu tinha te contado. Por meia hora ficou em uma sala na estação de polícia em prantos, não conseguia parar de chorar, suas mãos tremiam, ela estava nervosa e não conseguia pensar em mais nada. Assim que o policial abriu a porta ela arregalou os olhos, não sabia o que esperar, mas quando o tal lhe disse que haviam prendido seu marido ela conseguiu se acalmar.

Por três dias seguidos ela não dormiu, ainda não tinha falado com Eduardo e estava preocupada, não sabia de nada, apenas o que estava no jornal, televisão, em todo lugar. E então não resistiu mais, teve que vê-lo:

– Edu! – Ela disse assim que o viu pelo outro lado do vidro. 
– Carol… Eu senti sua falta. – Ele deu um sorriso mas logo baixou o olhar parecendo sentido e magoado. – Você contou?
– O que?
– Carolina. – Estava sério e tinha preocupação nos olhos. – Foi você?
– Aham, me desculpa. Eu não aguentei, eu sinto muito… – Uma lágrima solitária caiu por sua bochecha.
– Não queria que ficássemos juntos?
– Queria! É claro que eu quero!
– Como pôde?
– Eu… – A ruiva tentou falar mas logo foi interrompida.
– Carol, é melhor você ir torcendo para que eu morra aqui mesmo. Porque se eu sobreviver, você é a próxima. – Era de costume do moreno ficar sempre calmo, o que deixava a cena ainda mais assustadora, e então se retirou. 

Carolina saiu do presídio completamente desesperada, seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar, seu corpo estava trêmulo e sua cabeça doía. Entrou no carro e posicionou as mãos no volante, encarou a estrada antes de dar a marcha, precisava ir embora e precisava fugir, o mais rápido possível.