A verdade!

Texto por Guilherme Penninck

Lil’Gurd, brasileiro de nascença, argelino de coração, é um poeta, filósofo, músico, pensador, anarquista e trapstar pós-moderno que utiliza seu tempo livre para criar músicas de gosto questionável, músicas essas que comumente não passam de 20 visualizações, mas ele insiste que vive da música e não do bolso de seus pais. Recentemente, tem atraído muita atenção por conta de seus polêmicos comentários sobre a Terra plana, a farsa do aquecimento global e, principalmente, sobre o complô internacional dos professores de geografia, afirmando, diversas vezes, que os formados em sociologia são os piores.

Primeiramente, gostaria de utilizar um pouco do espaço que me foi cedido para agradecer ao Fala JP por me dar a oportunidade de expressar minhas opiniões e pensamentos sobre o professor Bruno Joaquim neste sagrado jornal.


Fonte: Instagram

Recentemente, o professor de geografia do Colégio Jean Piaget Bruno dos Santos Joaquim, também conhecido como Joca, tocou uma música minha em sala. Não uma, mas duas vezes, e essa situação por si só já é engraçada, pois não me recordo de ter cedido meus direitos de imagem para ele, mas como se não bastasse, teve a audácia de me marcar em um stories em busca de seguidores, realmente desrespeitoso.

Após o incidente, vasculhei o perfil do professor em busca de qualquer vestígio de adoração pela cultura do trap. Depois de uma minuciosa análise, vendo e revendo fotos e mais fotos de um homem barbado feliz, mas nada, nenhuma menção sequer ao trap, aliás, fontes extremamentes confiáveis me disseram que Joca nem sequer sabe o que é o trap, uma verdadeira afronta ao movimento.

Fazendo esse texto me lembrei de um fato crucial que justifique todas as atitudes desrespeitosas do homem: ele é um professor de geografia. Apenas passando o olho em seu perfil do Instagram é possível ver claras mensagens subliminares ao complô que ele participa, visto que é um professor de geografia. A cada dia que passa, esses educadores infectam nossas crianças com ideias absurdas sobre o mundo, quantas vezes eu tive o desprazer de ouvir “não é pedra, é rocha!”, eu transbordava de ódio nessas horas, eu olhava para os lados e não via mais ninguém alterado, seria eu o único que estava percebendo que aquilo se tratava de uma manipulação hedionda? Rocha, percebe algo? Facilitarei para você, (R)ocha, sabe o que mais começa com a letra “R”? (R)edondo, e sabe o que esses conspiracionistas falam que é redondo? A Terra. 

É, meus fãs, não queria ter que ser a pessoa a abrir os seus olhos, mas acho que é necessário expor a verdade neste tão aclamado veículo de comunicação. A sociedade cada vez mais esconde de nós a verdade, todos os dias, mais e mais pessoas deixam de usar o termo (P)edra, consequentemente, mais e mais pessoas se cegam para a realidade e desacreditam da Terra (P)lana.

Fonte: Instagram

Fonte: Instagram

Fonte: Instagram

Provas retiradas diretamente do perfil do Joca, estão vendo a mesma coisa que eu? Exato! Mensagens subliminares. Enquanto todos os dias ele fala de rochas, o máximo de tempo possível, esse adorador do meio ambiente ainda insiste em colocar fotos de pedras em suas redes sociais, para que seus alunos fiquem pensando nessa repulsiva palavra.

Nada se compara à doutrinação que acontece em aula, não posso mensurar o quão desrespeitoso foi quando esse conspiracionista falou sobre aquecimento global. Um ambiente sagrado que deveria ser respeitado e protegido de ideias odiosas como essa, eu deveria ter gravado e colocado na Internet, aposto que seria cancelado pela 2ª vara do júri do Twitter brasileiro.

Fonte: Instagram

Por trás desse rosto jovem que passa segurança e confiança, esconde-se um verdadeiro perigo para a sociedade!

Por favor, não leve a sério nada que viu nesse texto, a não ser a parte do Complô Internacional dos Professores de Geografia. ABRA OS OLHOS, SOCIEDADE!

Dois mil seiscentos e sessenta e seis anos de solidão

Texto por Rafael Amin

Arte: Heloísa Dardaque

Faltam-nos palavras para descrever a América Latina, por isso, apropriamo-nos do fantástico. Essa é uma das teses defendidas por Gabriel Garcia Márquez, em seu discurso “a solidão da América Latina”, proferido na cidade de Estocolmo em ocasião do Prêmio Nobel de Literatura. Nele Gabo traça a história das representações pós-colonização da nossa América, colocando o fantástico como centro de todas elas. Dos mapas dos colonizadores, repletos de criaturas mitológicas, às lendas de terras paradisíacas, como a cidade lendária de El Dorado, tudo isso tem o mágico como elemento central, e, segundo Garcia Márquez, esse mágico tem relação direta com nossa solidão.

A solidão é o tema central de toda obra de Gabo, e ela se se encontra de duas maneiras. A primeira é a solidão política, a qual é fruto do processo de colonização da América Latina, que, segundo o autor, teria nos condenado ao esquecimento em prol na narrativa eurocêntrica. A segunda é uma solidão mais íntima, nostálgica, fruto de mudanças rápidas as quais fazem o passado recente parecer distante, no caso de Garcia Márquez, que, por sua vez, reflete um contexto geral da América Latina, esse segundo tipo se encontra na relação por vezes contraditória entre infância na zona rural e a atual vida urbana. Essas solidões se mesclam de maneira brilhante em seu romance mais importante, “Cem anos de solidão”.

O livro conta a história da cidade de Macondo, do seu nascimento ao seu fim. Nos habitantes dessa típica cidade cidade de interior latina conseguimos encontrar a solidão individual, e seus vícios, crenças, personalidades e sofrimentos são imagens muito vivas no consciente coletivo latino, por mais que eles sejam de uma realidade já perdida. A solidão política está presente na própria história da cidade, por contar a sua formação, seus conflitos de classe e o inevitável final apocalíptico de Macondo. Gabo aponta que todas as relações entre os países da América Latina com os do chamado “primeiro mundo” foram desiguais, com as demandas latinas rapidamente caindo em esquecimento. Entretanto, a mensagem política de “Cem anos de solidão” não necessariamente é uma pessimista, e isso se dá pelo uso do realismo fantástico.

O filósofo Ludwig Wittgenstein conclui, em seu livro “Tractatus logico philosophicus”, que os limites do mundo são os limites da linguagem do observador, assim, a linguagem do fantástico seria muito mais que apenas linguagem, seria uma condição epistemológica. O fantástico é a linguagem do mito, é a linguagem da “Odisseia”, da “Eneida”, da “Jornada ao Oeste” e da “Divina Comédia”, ou seja, é tipo de linguagem que funda uma nação. O realismo fantástico é apenas a evolução natural, em um contexto cada vez mais secular, desse tipo de linguagem, desse modo, “Cem anos de solidão” seria um novo tipo de mito fundador, aquele específico para o contexto pós-colonial, e nesse mito estaria a esperança da obra. Se toda nossa história fora contada pelos nossos colonizadores, se nossa visão de mundo e estética são influência direta deles, Gabo, criando um novo mito fundador, convida-nos a olhar a realidade de uma nova, uma forma nossa, latina, fantástica, para, assim, dar “as estirpes condenadas a cem anos de solidão uma segunda oportunidade sobre a terra”.

Mas a modernidade falhou com a América Latina.

Ditaduras militares, narcotráfico, violência urbana, massacres de campesinos a mando de latifundiários e grande desigualdade social. Nesse contexto, a linguagem fantástica parece imprópria para entender a realidade, e isso fica claro em outro romance de García Márquez, “O outono do patriarca”. O livro propõe contar a história de um típico ditador latino, solidário e impotente sem apoio do império ianque. Gabo falou em diversas entrevistas que esse ditador era uma metáfora para sua própria condição como escritor, desse modo, ele propõe uma leitura apoiada na solidão individual e ela funciona, mas, deixando a metáfora de lado, a leitura política do livro é bem fraca. A linguagem fantástica, repleta de lirismo, desmerece a violência do romance, ela funciona como um paliativo para um assunto cruel e pesado. Em tempos de violência e de opressão, a realidade perde seu aspecto fantástico, tornando-se visceral.


O realismo visceral é um movimento literário fictício criado pelo escritor chileno Roberto Bolaño no seu romance “Os detetives selvagens”. O livro trata sobre sobre jovens poetas (justamente o grupo dos realistas viscerais) lidando com a realidade mexicana, e em momento algum descreve o que seria essa estética, mas entende-se que o próprio romance tenha sido escrito com ela em mente. Assim, com base na estrutura e no conteúdo do livro, poderíamos entender o realismo visceral como, formalmente, o pesadelo, diversas vozes que juntas criam um labirinto angustiante de subjetividade, e seu conteúdo é o poder, principalmente nas formas do sexo e da violência (termos que no romance muitas vezes se misturam). Mas se o realismo visceral é apresentado em “Os detetives selvagens”, essa estética realmente atinge seu ápice no livro mais importante de Bolaño, “2666”.

“2666” são cinco romances que juntos criam um todo. O primeiro deles, “A parte dos críticos”, apresenta um grupo de intelectuais europeus que, procurando um escritor alemão desaparecido, acabam visitando a (fictícia) cidade mexicana Santa Teresa. Essa cidade é o palco de todo horror da obra, e este se apresenta de duas formas. A primeira é, talvez em um diálogo com a solidão individual de Gabo, a do horror subjetivo, aquele fruto da paranoia e da incerteza de viver na realidade latina. Esse tipo está presente no segundo romance, “A parte de Amalfitano”, e no terceiro, “A parte de Fate”, ambas partes que tratam da relação direta entre os personagens que nomeiam os livros e o meio no qual eles estão inseridos.
Já o segundo horror é um horror político. Diferentemente da solidão política de Gabriel Garcia Márquez, o horror político de Bolaño não se sustenta no esquecimento, mas sim na indiferença.

A quarta parte de “2666”, “A parte dos crimes”, narra uma série de assassinatos de mulheres que ocorreram em Santa Teresa, e é nessa parte que se encontra a grande tese do livro. Entretanto, antes de abordarmos essa tese, precisamos, novamente, falar sobre linguagem.

A quinta e última parte do romance trata justamente do escritor alemão desaparecido mencionado no primeiro romance, e ela é a única parte que não se passa em Santa Teresa. Com isso, Bolaño coloca o escritor, aqui sinônimo de poesia, alheio à realidade latina, e esse é o significado do realismo visceral. O lirismo é exterior, estrangeiro, nossa realidade é suja e precisamos lidar com ela todos os dias, reconhecer isso é reconhecer um novo tipo de linguagem, e é esse novo tipo de linguagem que torna a quarta parte genial.


São cerca de 300 mulheres mortas, algumas abusadas antes, e cada caso é detalhadamente narrado. Tanto detalhamento, entretanto, cria uma sensação estranha de banalidade, e se ficamos chocados no primeiro assassinato, acostumamo-nos no décimo, e no centésimo já estamos indiferentes. Isso é doentio. O livro, por meio do realismo visceral, desumaniza-nos, torna o sofrimento, a angústia e a morte do outro uma coisa banal, e a genialidade de Bolaño é nos fazer perceber que isso não acontece apenas na ficção. O capitalismo imperialista criou, no assim chamado terceiro mundo, uma sociedade doente, uma na qual a própria morte é tão comum que não nos choca mais, uma na qual autoridades acham normal falar coisas como “alguns vão morrer, lamento, é a vida”. Isso não pode ser normal, e o diferencial de “2666”, e do realismo visceral como um todo, não é apenas falar isso, é nos fazer sentir, por meio da linguagem, todo o absurdo da realidade.

Assim sendo, o realismo visceral é convite a um novo pensar epistemológico para a realidade latina, um que precisa o quanto antes ser aceito para então ser superado. Se o fantástico, linguagem de Gabo e de tantos outros escritores do Boom latino americano, é um paliativo para a realidade, Bolaño, com suas obras, tenta mostrar a doença tal como ela de fato é, afinal, parodiando uma frase de “Os detetives selvagens”, toda a realidade que se vende como fantástica na América Latina acaba como visceral.

2020: o que esperar do inesperado?

Texto por Enrico Zanetti

2020, e só de falar assusta! Um ano que iniciou no caos, porém não tínhamos noção disso, pois na China começou uma endemia chamada de covid-19. Pois é, pra mim é estranho pensar que há 7 meses a minha maior preocupação era estar entrando no meu último ano de ensino médio, e qual a melhor maneira de finalizar do que entrando para um fato histórico?

O ano começou com ameaças de guerra mundial, com o bombardeio estadunidense ao aeroporto de Bagdá em 2 de janeiro, que matou Qassem Soleimani, um Major-General do Irã, fazendo o país, em reação, disparar 22 mísseis contra duas bases aéreas estadunidenses. Isso gerou uma grande tensão, criando a hipótese de uma guerra mundial, mas como sabemos, não chegou a esse ponto, e se aquietou com o Trump em um discurso promovendo a paz.

Além da quase terceira guerra mundial, a Austrália sofreu com a pior temporada de incêndios já vista no país, trazendo mortes e milhares de hectares de florestas devastados.

Ademais, mortes de jovens pretos no Brasil, uma patroa que “acidentalmente” contribui para a morte de uma criança, humilhação de um jovem preto por um morador de condomínio, uma realidade da sociedade brasileira, na qual virou banal a morte de uma criança por bala perdida, pois é.

Em março, entra em nossas realidades o grande protagonista do ano, o vírus covid-19, o qual trouxe um novo normal à sociedade. Entramos em distanciamento social, tendo que ficar longe das pessoas que amamos além de nossas famílias, também ele trouxe as aulas a distância que estamos presenciando nos dias atuais, mostrando o maior problema da sociedade brasileira: a desigualdade social. Para mim é muito fácil falar “Vou estudar por ead”, óbvio, tenho internet e um computador só meu, mas e quem não tem? E quem não tem um lugar próprio para estudar, pois necessita cuidar dos irmãos, ou na mesma casa moram 12 pessoas? E quem precisou deixar de estudar para trabalhar porque os pais perderam o emprego? E aqueles que dependiam do lanche da escola pública para se alimentar? Bom, se a concorrência para vestibulares era desigual já pela diferença da qualidade e acesso ao ensino, agora, então, é o cúmulo, e tem gente que acha cota injusta, pois é… Você que está conseguindo estudar, não se sinta mal por isso, mas tente fazer a diferença por meio deste privilégio.

Infelizmente, o vírus levou ídolos, lendas e entes queridos, ele marcou esse ano, trazendo junto uma nova realidade. A doença fez com que ligas esportivas milionárias paralisassem, como a NBA e a Champions League. Ela acabou com a economia mundial.

No entanto, esse ano decidimos prestar mais atenção. O movimento “black lives matter”, que ganhou força nos EUA com o assassinato de George Floyd por asfixia, mesmo dizendo ao policial, “não consigo respirar, por favor pare!”, foi a faísca que o barril cheio de pólvora necessitava para explodir, com denúncias de 7 tiros de advertência nas costas, como no caso de Jacob Blake, no dia 23 de agosto.

Esse movimento contra o abuso policial voltou às ruas com tanta força e chegou ao nosso país, fazendo os ignorantes perceberem que o racismo é uma realidade muito presente na sociedade, sendo dever da sociedade sumir com ele. Isso foi o que muitos pensaram que os movimentos geram, mas não, nos EUA, durante os protestos, enfrentaram abuso policial e os próprios movimentos de supremacistas brancos. Essas manifestações incentivaram a população brasileira, que decidiu sair à rua, e aqui enfrentamos realmente o abuso policial, e os supremacistas brancos decidiram realizar manifestações contra o movimento antirracista, trazendo discursos fascistas e símbolos como a suástica.

Nos EUA, o caos estabeleceu-se, protestos na frente da Casa Branca, carros pegando fogo, e para contribuição aos manifestantes, o grupo de hackers anônimos decidiu entrar no show, revelando desde dados da conta do Bolsonaro a informações sobre o assassinato de George Floyd, além disso, pela primeira vez em anos, o grupo hackeou a própria Casa Branca e apagou todas as luzes, algo realmente marcante.

Todavia, para falar de racismo no Brasil, não caberia em um texto. Ele está enraizado de uma forma na qual existem pessoas que acham que essa discriminação nem existe, para você ter ideia de como é comum dentro da sociedade brasileira.

E neste ano até nevou no Brasil, pois é, o que mais esperar de 2020?

Eu sei, este texto está deprimente, só abordei tragédias, mas, infelizmente, necessitamos discutir assuntos como esses, em 2020 ainda existe discurso de ódio, por conta do sexo da pessoa, da cor de pele, por conta de sua religião, por conta de sua orientação sexual, e se você não enxerga isso, eduque-se, e o mesmo vale a você que acha isso correto, eduque-se, porque já basta uma doença para gerar mortes na sociedade, não precisamos da doença da ignorância que mata mais.
Mas, mesmo assim, ainda existe bondade no mundo. O ator americano John Krasinski, em seu canal no Youtube, criou um quadro chamado “Some good news”, em português “Algumas notícias boas”, o qual traz acontecimentos positivos na sociedade, atos de empatia, mostrando que ainda existe bondade entre as pessoas. Inspirado nele, vou tentar trazer algumas notícias boas para o Fala JP. Com o isolamento social, tivemos que aprender a viver novamente, nunca valorizamos tanto a cultura, a arte, os nossos educadores, a tecnologia.

Mesmo com toda a desgraça presenciada, muitas vezes, foi trazido o melhor de nós, com diversos atos de empatia e de amor, que chegam a emocionar, por nos dar esperança de dias melhores, que estão por vir.

Na minha visão, o que essa pandemia nos trouxe de mais importante é a volta do entendimento de que somos frágeis, como o dia de amanhã é uma dádiva e, principalmente, como o tempo é importante. Em uma sociedade onde tudo é acelerado, em que tudo acontece e no mesmo segundo todos já sabemos, tornamo-nos impacientes, acelerados e ansiosos. A pandemia nos fez desacelerarmos.

Eu percebi como o “essencial é invisível aos olhos”, à luz de Exupéry, como o maior presente que se pode dar para alguém é o seu tempo, sua atenção. Percebi que todas aquelas declarações gigantescas não eram do coração, como aquela mensagem de “ei, ta bem?” vale muito mais. Por isso, não perca tempo, diga que ama, diga que sente saudades e viva, mesmo que dentro de casa, passe tempo com quem ama, ligue para quem sente falta, e deixe claro, e a todos esses que você gosta, de seu tempo a eles, pois não sabemos o dia do amanhã. Mas o que eu sei, sou apenas um jovem de 17 anos.

Avatar: o tesouro perdido

Texto por Guilherme Penninck

Quem nunca sonhou em ter superpoderes? Se você nunca pensou nisso, infelizmente, não podemos mais ser amigos. Piadas à parte, “Avatar: a Lenda de Aang” é uma das melhores, se não a melhor animação já feita na história. Ao mesmo tempo que possui uma pegada leve e descontraída sobre a aventura do Avatar, o ser mais poderoso daquele magnífico universo, a obra mostra, de maneira realista, os impactos da influência que exercemos sobre os outros e como cada atitude conta.


O início da jornada tem um tom bem infantil,principalmente, pelo fato de o grupo principal ser constituído por crianças, enganando a maior parte dos telespectadores, entretanto, conforme a série avança, mais e mais nos vemos angustiados pelas decisões que nossos protagonistas devem ter, pois sabemos o impacto de cada escolha e como isso pode mudar totalmente o rumo daquele mundo que, apesar de mágico, foi tomado pelas sombras das chamas.


É impossível não se apegar a Aang, o Avatar. Tudo que ele mais sonhava era ser um garoto normal, com amigos normais, vivendo uma vida normal, infelizmente, seu sonho se tornou tornou-se impraticável após ele descobrir que era o Avatar. Sabendo agora que o mundo estava em suas mãos, sua única escolha foi abraçar a causa e experienciar um amadurecimento sintético, ou seja, ele não amadureceu com o tempo e com suas experiências, e sim se forçando a agir como um adulto.


Com uma direção impecável e um ritmo que se mantém impressionantemente bem durante toda a série,além de uma trilha sonora cativante, o programa ainda apresenta um majestoso desenvolvimento de todos os personagens, fazendo com que, e ao se chegar ao clímax da aventura, quem está assistindo tenha um sentimento profundo de nostalgia e saudades de quando tudo na vida do Avatar era mais simples.


Em suma, “ Avatar: A Lenda de Aang” é um ótimo passatempo, ainda mais nos tempos em que estamos vivendo. Caso queira experienciar uma épica jornada com destaque nos personagens e seus motivos, com magias incríveis e músicas extraordinárias, Avatar é para você. Garanto que você não será o mesmo após terminar.

É isto, acabou

Texto por Rafael Amin

Nostalgia machuca. Digo, em tese, ela machuca, afinal, o que seria a nostalgia se não a lembrança da perda? O dicionário Oxford define-a como “melancolia profunda”, “saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter” e “desejo não realizado”. Mas, na prática, gostamos de nostalgia, no mínimo, estamos sempre a buscando. Basta ver o sucesso de séries como “Stranger Things” e dos remakes das animações clássicas da Disney. Talvez seja uma forma de catarse moderna, não queremos lidar com o fenômeno da memória repentina – quando, do nada, lembramos de algo perdido e o próprio peso da memória se torna insuportável – então, buscamos um fenômeno controlado, seja em séries, filmes ou músicas, que criam a mesma sensação, mas em menor intensidade. Ou, talvez, busquemos a nostalgia como um analgésico para ela mesma, agarramo-nos à lembrança para negar a perda real, e é por isso que falamos tanto de coisas que “marcaram nossa infância”, porque enquanto falamos parece que, por um instante, conseguimos recuperar o perdido. Quero experimentar essa segunda possibilidade, então, permitam-me falar da minha geração, mais especificamente da minha geração de desenhos animados.

Houve, em 2010, uma renovação dos desenhos animados infantojuvenis, tudo graças à “Hora de Aventura”. Esse desenho trouxe muito da estética da animação japonesa para os desenhos ocidentais, e também foi importante para acabar com a hegemonia da narrativa episódica. Enquanto muitas animações clássicas, como “Meninas Superpoderosas”, “O Laboratório de Dexter”, “Johnny Bravo” e “Scooby Doo”, tinham em cada episódio uma história fechada, “Hora de Aventura” apresentou uma grande história, cheia de mistérios que foram revelados lentamente durante os oitos anos em que a série ficou em ar. Outras séries, algumas mais do que outras, seguiram esse caminho narrativo, como “Apenas um Show”, “Star versus as forças do mal”, “Gravity falls”, “O Incrível Mundo de Gumball” e “Steven Universo”, por isso, muitos consideram que os anos 10 representaram uma nova geração de desenhos animados, comparada, às vezes, com o que foi a produção de Hanna-Barbera. Em 2020, com o fim de “Steven Universo”, todas essas séries terminaram, e com isso minha geração de desenhos acabou.

Foi estranho quando eu me dei conta disso. Era uma noite em branco, quando, sem nada para fazer, deixei a tv ligada no Cartoon Network até pegar no sono, que não veio, então, por curiosidade, fui pesquisar sobre alguns desenhos que assistia bastante e vi: Gumball encerrando 2019, Star também; “Hora de aventura” em 2018; e meu favorito, Steven, encerrado há pouco tempo, em 2020 mesmo. Desnecessário dizer que fiquei nostálgico. Lembro de, quando criança, ler em blogs de pessoas mais velhas sobre o que era chegar da escola o mais rápido possível para ver o novo episódio de Dexter ou “Meninas Superpoderosas”, e é estranho pensar que crianças em breve vão ler coisas parecidas, mas sobre os desenhos que eu cresci assistindo. É, fiquei bem nostálgico, e com o tipo ruim de nostalgia, aquela que é a lembrança de algo perdido – no caso, todas as tardes simples e descompromissadas quando apenas um episódio fofo de um desenho era o suficiente para fazer meu dia. Para tentar suprir esse sentimento de perda decidi reassistir aos que eram os meus dois favoritos: “O incrível mundo de Gumball” e “Steven Universo”. Surpreendi-me bastante quando vi que esses dois, talvez mais do que todos os outros, conseguiram quase perfeitamente capturar as contradições do espírito do tempo(Zeitgeist) de toda uma geração.

Começando por Gumball. É estranho ver o quanto essa série é apática, e se você acha que “apático” não deveria ser um adjetivo para um desenho animado focado em agradar um público infantil você provavelmente está certo, mas, mesmo assim, Gumball funciona. A apatia da série reflete a nossa própria apatia, principalmente aquela intensificada pelas redes sociais. Parece que todos os personagens, mesmo cercados de pessoas, não conseguem criar conexões honestas, eles estão presos em um ciclo de sarcasmo e ironia que não os permite amar e ser amados. Essa apatia vem junto com um niilismo assustador, em Gumball, os personagens cantam, literalmente, sobre como o aquecimento global vai acabar com o mundo, como as indústrias exploram os trabalhadores, como o andar do tempo esmaga cada um de nós, com uma indiferença enorme, como se não pudessem fazer nada em relação a estas coisas. Gumball pega nosso individualismo egocêntrico e nossa ansiedade em relação ao mundo capitalista e os transforma em desenho.

Já Steven parece ser o oposto de Gumball, às vezes, chegando a ser tão otimista que se torna difícil de assistir. A série foi uma das primeiras a trazer debates atuais sobre performance de gênero e orientação sexual para crianças, tudo isso em uma história repleta de aventuras espaciais. No otimismo de Steven encontramos outra faceta do espírito de nosso tempo, aquela que está disposta a furar bolha do nosso próprio ego e aceitar o outro, amar o outro, e assim se amar também. É outra forma de individualismo, uma muito mais bela, na qual desconstruimos nossas noções historicamente construídas do“normal”, abrindo-nos, assim, para um mundo de novas individualidades.


Desnecessário dizer, após esses dois parágrafos, que eu continuei nostálgico mesmo tendo reassistido a essas séries. Afinal, não consegui vê-las com os olhos de uma criança e assim sentir de novo a magia de uma tarde descompromissada repleta de desenhos, não, uma criança não pensaria no conceito da filosofia alemã de Zeitgeist, nem na apatia proveniente das redes sociais ou em questões de performance de gênero ao assistir a um desenho animado. Mas teve um momento, no episódio final de Steven, que eu ainda não tinha visto, quando minha personagem favorita reaparece depois de muito tempo fora do desenho, em que eu não parei de sorrir e gritar de felicidade, por esse momento, esqueci de tudo e senti o gostinho da boba e maravilhosa felicidade infantil – aquela de ir para banca pegar o novo almanaque da Mônica; de abrir um pacote de cartinhas de Pokémon e encontrar uma rara; e, é claro, de assistir a um bom desenho. Depois, caiu a realidade e percebi o quão raros serão esses momentos, não que não existam outras formas de êxtase artística, algumas até, como conseguir desbravar um romance moderno ou assistir a um filme surrealista, que como criança não conseguiria sentir, mas esta específica, a infantil e simples, praticamente, perdeu-se no tempo e na memória. É, nostalgia machuca.

Entrevista com Dayane Santos Araujo

Texto por Rafael Amin e Enrico Zanetti

Nome: Dayane Santos Araujo

Data de Nascimento: 24/04/1987

Signo: Touro ♉

Função: Professora de História

FJP.: O que te fez se interessar por História?

D.: Sempre tive excelentes professoras de História na escola que sempre me inspiraram por ter uma abordagem crítica e sensível sobre os fatos e eu conseguia “viajar” no tempo graças a elas, Leda Tavares e Lurdinha. Aos 10 anos, eu falava que já tinha escolhido o que queria ser quando crescer: professora de História e aqui estou muito feliz!

FJP.: Você vê alguma dificuldade em ensinar, em geral, e mais especificamente História, no Brasil?

D.: Ser professor é muito difícil! Existe uma cultura de desvalorização da carreira docente no Brasil. A História, assim como as ciências humanas no geral, é uma disciplina poderosa porque nos traz senso crítico capaz de transformar uma realidade e, por isso, muitos professores de História “incomodam”. Hoje, as ciências humanas, no Brasil, passam por um momento muito delicado e é ainda mais desafiador trabalhar com a História em sala de aula. 

FJP.: Ano passado você dava aula para os segundos anos, agora está nos primeiros. Existe alguma diferença além do conteúdo?

Sim! A minha maior preocupação é que o aluno do 1º ano tenha afinidade e estabeleça uma conexão com a disciplina. Ele precisa, primeiro, gostar de estudar História e percebê-la para além dos fatos.

FJP.: Como está sendo dar aula para os terceiros anos pela primeira vez?

Uma experiência incrível e muito rica! Fui muito bem acolhida por todos os alunos! Eles foram meus alunos no ano passado e o fato de ter tido este contato facilita muito a aprendizagem! 

FJP.: Como as mudanças do novo Ensino Médio mexeram no seu modo de dar aula?

A grande mudança está no 1º ano do Ensino Médio. A disciplina de Itinerário Formativo “História, Pesquisa e Conhecimento Científico” foi implantada neste ano na grade curricular e permite tratar de temas mais atuais, então, por exemplo, é possível falar dos Hebreus e direcionar uma discussão sobre os negacionistas do Holocausto. Além disso, as aulas valorizam o engajamento e o protagonismo dos alunos diante de diversas atividades voltadas para a pesquisa científica e o processo de criação, a partir de situações-problema. 

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O que podemos aprender com Chiquititas

Texto por Guilherme Penninck

7 anos atrás, a emissora SBT propôs-se a fazer uma refilmagem da série argentina Chiquititas. Nessa quarentena, eu me propus a assistir a esse programa e dele tirei alguns ensinamentos para a vida.

Bem no começo, são apresentados três garotos de rua: Mosca, Binho e Rafa. No desenrolar da história, eles passam a viver no orfanato que, inicialmente, era só para garotas resultando em uma certa rivalidade entre meninas e meninos, algo comum dada a idade das personagens, entre 8 e 14 anos. Entretanto, esse embate demonstra ao público como o machismo é estrutural em nossa sociedade, pois mesmo os garotos não tendo pais, e vivendo nas ruas desde que se entendem por gente, todos proferem bordões machistas, como que lavar a louça é coisa de menininha, entre outros. Ou seja, eles aprenderam tais ensinamentos com a sociedade, ninguém disse para eles diretamente o que era coisa de menino e o que era de menina, essa visão misógina foi passada pela sociedade em si, eles apenas imitaram comportamentos comuns que viam no seu cotidiano

A série possui um bom desenvolvimento de personagem, até porque são 545 episódios. É bem satisfatório olhar um personagem no final do programa e comparar com sua primeira aparição. Ao longo da estadia dos meninos no orfanato, cada vez mais, os garotos aprendem a lidar com seus sentimentos e a superar sua masculinidade frágil.

A figura materna, desempenhada por Carol, uma das funcionárias do orfanato, também é fundamental para o crescimento individual de cada um, pois ela está sempre disposta a ensinar e até mesmo repreender, se necessário, atitudes que não se encaixam mais no contexto social que vivemos. Durante toda a série, mostrou-se alguém competente e independente, sempre dando seu jeito sozinha, até mesmo quando injustiçada, ela foi demitida por ser mulher, por exemplo, mas não se deixou abalar e deu a volta por cima, um verdadeiro exemplo de empoderamento feminino.

Outro fator muito importante na caminhada dos meninos para abandonar seus velhos hábitos e, consequentemente, a masculinidade tóxica, é o cozinheiro do orfanato, Chico, este que tem um papel fundamental como figura paterna, um homem na terceira idade o qual, em sua longa caminhada, entendeu seus erros e pôde convertê-los, sendo, constantemente, retratado como uma pessoa sábia que claramente já passou por uma desconstrução tentando, de todas as formas possíveis, passar tal sabedoria para os garotos.

Chiquititas, apesar de ser uma série voltada para crianças, traz consigo importantes ensinamentos e lições de vida, passando uma mensagem positiva sobre a desconstrução do machismo e do que é ser homem. A série mostra que nós, homens, temos muito a aprender com as mulheres.

O mito de Peanuts

Texto por Rafael Amin

Foto: Filme “Um garoto chamado Charlie Brown”, retirada do site Crosswalk.com

Estampados em camisas, cadernos, lancheiras, sapatos e até mesmo em cafés, parece que o Snoopy, o Charlie Brown e os outros personagens de Peanuts são hoje muito mais reconhecidos pela marca que eles se tornaram do que pelo trabalho artístico de seu criador Charles Schulz. Enquanto a Mafalda é conhecida pela sua carga política, Calvin e Haroldo pelo seu forte teor imaginativo, pouco se fala sobre a tirinha de Schultz, o que é uma pena, pois vários temas interessantes podem ser encontrados em Peanuts, principalmente, quando falamos sobre o absurdo.

O absurdo é um dos conceitos fundamentais do filósofo franco-argelino Albert Camus. Segundo Camus, o absurdo seria uma eterna contradição entre o ser humano e o mundo que o cerca, um divórcio entre nossa vontade de encontrar algum sentido no universo e o universo em si, que é desprovido de sentido. Tomando consciência do absurdo, Camus, em seu livro “O mito de Sísifo”, explicita o que ele considerava a questão fundamental de toda a filosofia: por que deveríamos continuar vivendo? Afinal, se o universo é sem sentido, se o desejo fundamental de plenitude dos seres humanos é insaciável, se em uma escala cósmica daqui a poucos anos ninguém lembrará de nós, por que deveríamos continuar a existir? Pode parecer uma pergunta pessimista, mas a resposta que Camus dá em seu livro, a qual eu acredito que Schultz representa artisticamente em sua tirinha, é o total oposto disso.

Voltando a Peanuts, o absurdo da tira encontra-se nos próprios personagens, que, segundo o escritor Umberto Eco, “são as monstruosas reduções infantis de todas as neuroses de um moderno cidadão da civilização industrial”. Cada criança (e cachorro) tem seus vícios emocionais, cada uma menos o Charlie Brown, mas voltaremos para ele mais tarde, que são tratados de maneira cômica na tirinha, mas quando paramos para pensar, revelam-se como bastante problemáticos. O Linus é o exemplo mais claro disso, a criança não funciona sem seu cobertor, sem ele o menino surta. Sua irmã Lucy também não é muito melhor, visto que ela não consegue criar relações honestas e só encontra felicidade no barulho das moedas. Schrodinger dedica sua vida a tocar Beethoven em seu piano infantil, sem conseguir se relacionar direito com as outras crianças. E o Snoopy passa o dia todo sonhando com coisas impossíveis. Todos esses são exemplos do que Camus chama de “suicídio filosófico”.

O suicídio filosófico seria, para Camus, uma resposta simples para a pergunta do por que continuar vivendo. Segundo ele, a pessoa que segue esse caminho nega o absurdo da vida e busca alguma forma transcendência, algum vício que o ajude em suportar a existência, seja na arte, no poder, em posses, no amor, nos sonhos etc. O caminho que Camus sugere é o de aceitar o absurdo e, em um ato de revolta contra o universo, continuar vivendo mesmo assim. A pessoa que faz isso se torna um “herói do absurdo”, e para explicar isso, Camus usa o exemplo de Sísifo.

Sísifo, na mitologia grega, teria sido condenado pelos deuses a levar uma rocha até o topo de uma montanha, apenas para a rocha rolar de volta para a base da montanha. Esse mito ilustraria o absurdo da vida, uma tarefa árdua que resulta em nada, mas Camus destaca a atitude de Sísifo em relação a sua punição. Sísifo, mesmo vendo a rocha rolando inúmeras vezes, mesmo percebendo que sua tarefa é fútil, não escolhe tentar dar um sentido transcendental a ela, isso seria suicídio filosófico, no entanto, opta por aceitar o absurdo de sua vida e desce para levantar a rocha mais uma vez, sabendo que ela vai voltar para a base da montanha, assim, tornando-se um “herói absurdo”. Camus conclui seu ensaio falando que Sísifo nos ensina uma espécie de “felicidade superior”, que aceita o absurdo e assim constrói, com “cada grão mineral de uma montanha cheia de noite”, seu próprio mundo. Curiosamente, o Charlie Brown ensina-nos a mesma coisa.

Charlie Brown é espécie de Sísifo infantil. Ele é condenado por forças além de seu controle, no caso seu próprio criador, o artista por trás da tirinha, a nunca ser bem sucedido. Schultz poderia ter escrito uma tirinha na qual ele consegue empinar a pipa ou chutar a bola de futebol americano, mas ele, deliberadamente, faz o Charlie Brown falhar. Contudo, ao contrário dos outros personagens, Charlie não tem nenhum “vício”, mesmo sendo ele quem mais sofre em todo Peanuts. Não, como Sísifo ele aceita o absurdo e assim se torna uma miniatura de um “herói de  absurdo”. Em momento nenhum isso fica mais claro do que no longa-metragem de Peanuts produzido por Schultz.

“Um garoto chamado Charlie Brown” começa e termina da mesma forma: Charlie correndo para chutar a bola de futebol americano, apenas para Lucy tirá-la no último momento, fazendo o garoto errar o chute e cair. Mas essas duas cenas têm sentidos totalmente diferentes. A primeira é tratada como uma piada, já a segunda como uma aceitação da vida. Todo o filme trata sobre fracassos, mas, ao contrário de outros filmes infantis nos quais o protagonista supera o fracasso e é bem sucedido, o fracasso é entendido no filme de Peanuts como um fato inerente à vida, portanto, não pode ser superado, mas sim deve ser reinterpretado. Isso fica claro no fim do filme, quando Charlie Brown está deprimido por ter perdido uma competição importante, porém entende, com a ajuda de Linus, que mesmo fracassado o mundo continua, em outras palavras, ele entende o absurdo, a indiferença do mundo em relação aos seus acertos e também aos seus fracassos, e assim se abre para erros futuros. Por isso, na corrida final, em direção à bola, ele encarna Sísifo, para de pensar sobre o possível fracasso de errar o chute e abraça o momento, a simples alegria da corrida. Dessa forma, a resposta de Schultz, assim como a de Camus, para a pergunta, sobre o porquê continuar vivendo é simples: porque apesar dos fracassos e do absurdo, a vida pode ser divertida.

O racismo estrutural de Lovecraft

Texto por Guilherme Penninck

H.P Lovecraft, o pai do horror cósmico, um dos maiores gênios do terror. Não é de hoje que ele é um dos meus autores favoritos, seus contos sempre me prenderam como se eu estivesse enfeitiçado. Suas criações são tão incríveis que podem ser encontradas por todo o “mundo Pop”, em especial o Ctulhu, sua mais famosa criatura. Entretanto, Lovecraft é uma figura problemática, principalmente, ao entrar no antro social.

Não é nenhuma novidade que Lovecraft era racista e xenofóbico, estes ideais estão presentes em diversos dos seus textos, por exemplo, no poema “On the Creation of Niggers”.

“Quando, há muito tempo, os deuses criaram a Terra

À bela imagem de Jove, o homem foi moldado ao nascer.

Os animais para partes menores foram projetados em seguida;

No entanto, eles estavam muito distantes da humanidade.

Para preencher a lacuna, e juntar o resto ao Homem,

O anfitrião olímpico concebeu um plano inteligente.

Um animal que eles fizeram, em figura semi-humana,

Encheu-o de vício e chamou a coisa de Negro.”

A problematização do autor teve o ápice de suas forças em 2010, quando Nnedi Okorafor, a primeira pessoa negra,  recebeu o prêmio World Fantasy Award. Nesta competição, o vencedor recebia uma estatueta com o busto de Lovecraft, iniciando, assim, um debate caloroso sobre se o autor deveria ser ou não utilizado como a face do concurso. Apesar de suas obras maravilhosas, era cada vez mais difícil aceitar que a estátua de alguém que deliberada e publicamente afirmava que os negros eram inferiores aos brancos fosse dada como premiação. Felizmente, em 2016, o prêmio foi remodelado e não exibe mais as feições de Lovecraft.

Entender o racismo e a xenofobia de Lovecraft pode nos ajudar a entender o racismo e a xenofobia na atualidade. Ainda hoje, estas visões deturpadas da realidade têm a mesma origem. Em um dado momento de sua vida, o autor morou em Brooklyn, bem perto de comunidades de imigrantes, e isso foi traumatizante para ele, já que, em sua cabeça, ele possuía uma linhagem nobre e como ele veio de uma juventude confortável, seus sentimentos de vergonha, inveja e medo do futuro culminaram nos seus ideais racistas. Compreendendo isso, conseguimos entender o porquê do racismo e da xenofobia ainda terem forças em nossa sociedade.

As pessoas têm certas ideias de que, no passado, as coisas eram diferentes, talvez até melhores, então, seu medo do futuro e sua inabilidade de processar o que está acontecendo no presente se tornam esses sentimentos odiosos, e nós temos que entender a motivação, porque só dessa forma podemos combater e mudar a estrutura social.

Erigindo vínculos – Os ignotos (Parte 1)

Poema por Juliana Soares Vicente

Os médicos dirigem-se à taverna mais limítrofe,

após um extenuante expediente.

Todos aparentando estar em um estado epítrofe,

mas essa utopia

só tinha serventia

para o agrado do gerente.

Quais assumiram a forma da próxima vespa-joia?

Quais os riscos de ser a pessoa mais simplória?

Qualquer um poderia ser visto como suspeito.

Até o imaculado poderia cometer o mais horrendo dos feitos.

No primórdio de suas carreiras,

não há o conceito de livre expressão.

Ou morrer afogado na baía costeira,

ou sujeitar-se a desposar o carpo da mão.

Ao invés de simplesmente conviver com a face alheia,

um beneplácito alvoreceu um veredito e uma deliberação.

Há poucos instantes

chegara a hora de enjeitar a empáfia

que com emancipação vagueia.

Com esforços abundantes,

formaremos firmes ráfias,

perante a ameaça que por perto passeia.

Tal medida é compulsória,

uma vez que no futuro vejo

diversas e extensas dedicatórias

ao extinto e massacrado vilarejo.

Somos, agora, uma comunidade a se formar.

Deslealdade suspenderá o convívio.

Sabemos muito bem, que se sozinhos,

pisaríamos um no outro, como inimigos.