A vida nos muros da cidade

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Foto: SONY DSC

A experiência urbana é caracterizada, acima de tudo, pelo seu frenesi. Lugares lotados, multidões amontoadas em metros, pessoas caminhando com pressa, horários e tabelas a serem preenchidas. Cada indivíduo preso em sua existência frenética, em seus próprios mundos de afazeres concretos, o que faz parecer que as cidades se tornam cada vez mais cinzas e prepotentes, longe de uma conexão real e emotiva. Em 2011, o artista Criolo traduziu essa sensação de isolamento na música “Não Existe Amor em SP”. A canção tornou-se extremamente popular e trouxe a atenção internacional para a cena do rap brasileiro. Essencialmente, ela trata sobre essa sensação de solidão vivida nas grandes metrópoles no mundo contemporâneo, quando Criolo diz que “Não existe amor em SP” ele traduz de forma lírica o fenômeno mundial da solidão urbana, causada por motivos enraizados que vão da estrutura da linguagem até o modo de produção e vivência capitalista neoliberal como aborda a música de Criolo:

“Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever”

Foto: Autor desconhecido

Por isso, para transcender a linguagem e suas dificuldades na conexão cotidiana, a arte se altera de acordo com seu contexto e necessidade, o que nas grandes metrópoles não foi diferente, revelando parte da necessidade de uma experiência sensível em um mundo cosmopolita. O grafite, diante de tal contexto, configurou-se como uma linguagem artística própria, sendo, em sua origem, uma inspiração visual para outras formas de manifestação artística e, logo depois, o próprio veículo de disseminação de mensagens sobre política, sociedade e cultura.  

Apesar de ser um conceito antigo, datado às inscrições de protesto encontradas em construções do Império Romano, a pichação, assim como o meio urbano, sofreu transformações ao longo do tempo. As letras coloridas e desenhos obscenos que conhecemos hoje como “grafite” e que estampam os prédios e muros das cidades, foram criadas pelos jovens do Bronx (distrito de Nova Iorque) que, como participantes do movimento de contracultura hip hop, ressignificaram o conceito romano por meio de tinta spray e de frases de questionamento.

Para entender a relevância do Grafite e da arte urbana, é necessário compreender sua década de surgimento, que foi marcada pelas grandes insatisfações políticas e pela força enorme do protagonismo dos jovens. As décadas de 1960 e 1970 foram moldadas pelo sentimento de engajamento social e político, dando lugar à acontecimentos como Woodstock, em 1969, e o estabelecimento do fim de um período conformista que logo se esgotou com os conflitos da Guerra do Vietnã, gerando um clima marcado pelo questionamento do patriotismo estadunidense proveniente da prosperidade econômica da década de 1950. 

No contexto do surgimento do grafite vieram grandes nomes, como o de Jean-Michel Basquiat, grafiteiro de Nova Iorque, que inicialmente expunha poemas e reflexões filosóficas pela cidade – e que, posteriormente, tornou-se conhecido pelos grafites neo-expressionistas, originando sua entrada no contexto alternativo artístico nova iorquino frequentado por pessoas como Andy Warhol e Keith Haring.

 Hollywood Africans, 1983 ( Jean-Michel Baquiat)

Como filho das grandes metrópoles e desse inconformismo, o grafite teve lugar na mesma época em Paris, acompanhando o movimento estudantil contra as formas de ensino retrógrados na França, conhecido como Maio de 68, juntamente também da indignação pelo fortalecimento das ditadura militares na América Latina e o apoio ao movimento pelos direitos civis no Estados Unidos. Os estudantes deixaram suas marcas de indignação pelos muros da capital francesa, inaugurando essa maneira de arte no continente europeu.

Tradução: “Como pensar livremente à sombra de uma capela?” (Grafite de Maio de 68)

As periferias de São Paulo logo incorporaram o Grafite como meio de expressão diante das imposições culturais sofridas pelo Brasil, chocando muitos na década de 1980. Isso popularizou uma polêmica travada até a atualidade: a acusação de que os grafites são apenas poluição visual e meras pichações. No entanto, as novas exposições ganharam, por outro lado, admiradores da elite intelectual, que passaram a enxergá-las como formas de arte e expressão, movidas pela revolta das ditaduras na América Latina, como a vivida no Brasil, implantada em 1964, e acabando apenas em 1985. Tal conjuntura política promoveu a necessidade de se expressar diante de tantas brutalidades e abusos de poder do governo autoritário, criando um cenário próprio em âmbito nacional e concebendo uma esfera fértil para a produção cultural grafiteira brasileira. 

Essa efervescência artística trouxe nomes como “Os Gêmeos”, que chegaram a ter painéis expostos em grandes galerias de arte do Reino Unido. Eles também possuem inúmeros painéis pela cidade de São Paulo, especialmente, em bairros como Liberdade. Recentemente, infelizmente, seus murais da Av. 23 de Maio  (considerada uma das maiores composições de grafite do mundo) foram apagados com tinta cinza. Além dele, Kobra, um artista brasileiro de extrema relevância no meio da arte urbana internacional, é também responsável pela exibição de painéis ao redor do globo, tendo formas do realismo com cores exacerbadas como sua marca. 

Grafite dos Gêmeos

O Grafite ainda ocupa um lugar de protesto nas grandes cidades e traz exatamente parte da necessidade escancarada de abordar a conexão e expressão nas grandes cidades. A cidade de São Paulo, como descreveu Criolo, transborda arte e cultura como um escudo para a frieza e individualização, criando uma forma quase inexata, porém eficiente de comunicação. Pois, em meio ao concreto, os muros ainda são capazes de abrigar fragmentos explosivos de cultura, cujos estilhaços, mais do que nunca, geram novos focos de criação e produzem, uma cidade um pouco mais colorida, crítica e menos tradicional ou opaca, dando graça ao que pode ser considerado banal à luz do dia-a-dia. O grafite, então, em meio ao caos da cidade, com que já estamos acostumados, consolida-se como uma ressignificação do espaço, vendo nele a possibilidade de um reencantamento do cotidiano por meio da arte, para lembrar a todos que existe sim amor em SP, ou em qualquer outra grande metrópole. 

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Inimputável

Conto por Victória Lopes

Seus olhos corriam rapidamente pelo cômodo tentando processar todas as informações. O sangue escorria pelas paredes que um dia foram brancas, assim como lágrimas escorriam pelo seu fino rosto. Ele estava atordoado e ofegante perante ao corpo sem vida estirado no chão do quarto. Não era difícil reconhecê-lo, sendo ele de seu irmão mais novo. Por breves minutos tudo que se conseguia escutar eram suas batidas de coração aceleradas e a chuva batendo ruidosamente na janela. Assim que Alec tentou se afastar, a cabeça começou a rodar e ele bateu com os joelhos no chão respirando fundo. A cabeça doía e ele sentia marteladas constantes e ritmadas de dentro para fora. 

O sangue agora jazia em suas mãos e roupas deixando o garoto sem saber o que fazer. Ele se ergueu novamente e girou pelo quarto procurando uma escapatória enquanto olhava para todos os cantos com a visão turva. O pobre coitado sentia o pânico crescer dentro de si e o consumir. As loucuras e insanidades que ele pensava podem ser consideradas grandes absurdos,mas ele não conseguia sair disso. Sentiu suas palmas já molhadas de sangue familiar começarem a suar e tremer, calafrios teimavam em subir pela espinha e parar no cérebro causando curto-circuito completo. A dor de cabeça aumentava a cada movimento e dessa vez ele precisou parar tudo que fazia combatendo o instinto de gritar.

Ainda rondando o quarto que nem louco em busca de uma solução, ele escutou o barulho que o fez enlouquecer de vez. Agora escutava passos, se vinham do andar debaixo, dos quartos ao lado ou do sótão ele não sabia. Também não estava muito afim de descobrir. A adrenalina marcou presença e ele parou. Parou de andar, de chorar e de tremer, focando apenas no som que ecoava pela casa. O andar pesado que ele escutava antes tinha cessado e, mais uma vez, tudo que ele escutava era a chuva se chocando contra a janela. 

Decidido de suas ações e sem emitir barulhos, ele foi até o banheiro e colocou tudo que antes tinha deixado em cima da pia nos bolsos: remédios, carteira e o telefone. Alec evitou ao máximo olhar no espelho e encarar o próprio rosto, não queria ver o sangue, nem as lágrimas, as olheiras ou o pânico nos olhos. Ao sentir pés rangendo com proximidade de onde estava, com toda a rapidez, correu para a janela de seu quarto, a escancarou e pulou do primeiro andar. 

O impacto de seu corpo nas moitas do jardim aliviou a queda, mas não o livrou da dor de um tornozelo machucado e cortes por toda pele nua causados pelas plantas. A imagem de seu irmão tombado e ensanguentado ao lado de um martelo insistia em aparecer cada vez que ele fechava os olhos, mesmo assim ele levantou mancando e tremendo. Mais uma vez ele saiu correndo ao ouvir a janela se escancarar.

Embora fosse uma noite chuvosa, ele corria que nem um maluco desesperado para despistar quem quer que estivesse em seu encalço, quem quer que tinha matado seu irmão. A tempestade teimava em chicotear as casas e carros, as árvores sacudiam com o vento e todas as luzes jaziam apagadas deixando a iluminação natural da lua dar um ar fantasmagórico ao ambiente. Todos os ruídos da noite eram dissipados, exceto um deles: os passos fortes no meio de pequenas poças d’água.

Os pulmões de Alec queimavam e já tinha se tornado mais difícil de respirar, mas aquelas pisadas ainda estavam em sua cola, logo atrás dele e o pobre rapaz se recusava a virar para encará-lo nos olhos. O medo subia pela espinha e a visão começava a borrar, ele ainda não conseguia processar todas as informações daquela noite e para ele tudo era uma mancha grande e escura. Imagens rápidas de todo aquele sangue esguichando pelas paredes e de seu irmão caindo no chão surgiam como um turbilhão em sua mente.

Ele estava extremamente cansado e a dor do tornozelo subia pela perna, ele se sentiu obrigado a parar. Correu até um beco e se escondeu atrás de uma lata de lixo, estava ofegante e dolorido, colocou a cabeça entre as mãos e esperou pelo pior. Tudo que o rapaz escutava agora era seu próprio coração, alto e rápido. Suor e chuva cobriam ele da cabeça aos pés, ele começou a tremer de frio mesmo com a temperatura corporal alta. Após alguns minutos tentando processar tudo, ele finalmente percebeu a ausência de passos, estava sozinho e tinha despistado quem o seguia. Ainda de estômago embrulhado, ele se levantou e olhou atentamente para os lados aliviado, o tornozelo ardia e os pulmões pareciam pegar fogo.

Foi quando ele se apoiou na parede para pegar fôlego que tudo veio à tona. Ele apalpou os bolsos da calça procurando os remédios, olhou os dias da semana e, para sua surpresa e desespero, os de hoje estavam completos. Era difícil para Alec manter a sanidade sem eles, desde pequeno sempre teve os mesmos problemas, perdi completa noção de espaço e tempo, tinha blackouts, perdia horas na memória e não se lembrava de coisas que fazia. Assim que ele passou a respirar mais facilmente ele se forçou a lembrar, queria lembrar da noite toda. Tinha que se lembrar da noite toda. Era difícil se concentrar com toda aquela chuva, cada segundo que passava parecia que ela ficava mais violenta e ele não aguentava mais ficar ali.

De súbito se lembrou de agarrar o martelo com as próprias mãos e acertar direto na cabeça de Peter, uma, duas, três e quatro vezes. Ele afundou o rosto nas mãos em puro desespero. Lembrou-se do sangue esguichando e escorrendo pelas paredes. Ele não conseguia lidar com a própria consciência, a dor no tornozelo voltou forte e ele sequer sabia em qual beco estava. Deviam ser quatro da manhã e ele nem se atreveu a olhar para o telefone, não sabia o que fazer. Será que os vizinhos tinham escutado? E se tivessem, tinham ligado para a polícia? Alec não tinha escapatória. Ele se escorou na parede enquanto soluçava violentamente. Era tudo culpa dele, de mais ninguém. E agora nem tinha mais o que fazer.

Filme “Rocketman” e a busca pela essência

Texto por Ana Badialle

Elton John e Taron Egerton na première do filme (Foto: Getty Images)

“Você deve matar a pessoa que nasceu para se tornar a pessoa que você quer ser?”, diz um artista conceituado do estilo jazz e soul ao jovem Reginald Dwight, que decide então seguir o conselho e passa a se apresentar como Elton John. Essa passagem consegue refletir o que o filme “Rocketman”, lançado no Brasil dia 30 de maio de 2019, transpassa com sua narrativa. 

Rocketman trata-se de musical longa-metragem sobre momentos de ascensão e queda do músico inglês Elton Hercules John. O longa baseia-se em uma visão honesta e bem intimista para contar sua história que tem seu ponto de partida em uma sessão de terapia. 

Elton, interpretado por Taron Egerton, confessa seus problemas como alcoolismo, bulimia, vícios e dificuldades emocionais, e conta como ele precisa de ajuda para superá-los, revelando-o como um ser humano, que atrás das fantasias e acessórios extravagantes possui suas fragilidades, cicatrizes e dificuldades.

Como uma biografia, Rocketman não busca ser totalmente verossímil e próximo à uma realidade documental e, sim, muito mais uma visão proporcionada pelas lembranças e impressões que o protagonista possui de si mesmo. Seus momentos de queda acompanhados pelo uso de drogas, que agravaram seu conflito emocional e suas relações com aqueles que acompanham sua carreira e sua vida, é revelado sem pudor ou suavização.

Dessa forma, é possível notar uma interpretação, por parte de Taron Egerton, emotiva e sincera que colabora com o tom épico, exagerado e conflituoso que a biografia traz. Em diversos momentos, é intensificado valores como a criatividade e a liberdade proporcionadas pelas composições repletas de lirismo de seu parceiro musical, como compositor de suas letras e amigo próximo, Bernie Taupin, interpretado por Jamie Bell. O mesmo demonstra carisma ao estar sempre ao lado de Elton o apoiando em seu sucesso e em seus momentos de desequilíbrio, dando ao filme uma dose de companheirismo e compreensão. 

Além da experiência fílmica e biográfica, Rocketman possui sua relevância social em relação à representatividade LGBTQ+. Elton é uma figura pioneira e relevante para a diversidade. Atualmente ele vive com seu marido, David Furnish, e seus dois filhos, mas ele chegou a assumir sua sexualidade na década de 1980, momento em que havia enorme preconceito e intolerância, juntamente do surto do vírus HIV, que acarretou uma bagagem de ignorância maior ainda para cima daqueles que fugiam do padrão normativo imposto.

Por isso, o fato de existir um filme de sucesso celebrando uma pessoa tão icônica na luta contra o preconceito é essencial na atualidade. A cinebiografia não diminui em nenhum momento o impacto da sexualidade de Elton na sua vida, especialmente, na relação com seus pais, que dificilmente lhe deram apoio e suporte para enfrentar a discriminação e a dificuldade encontrada na época para não ser alvo de comentários e ações de ódio da maior parte da sociedade. 

Com isso, a falta de aceitação por parte da família, a impossibilidade de se sentir completo e a solidão são fatores profundamente explorados na história. É comum indivíduos LGBTQ´s sentirem dificuldade de se aceitar ou simplesmente compartilhar algo tão básico de sua vida com pessoas próximas, levando a problemas mais profundos como depressão, uso de drogas e outras doenças psicológicas decorrentes. O fato de isso ser mostrado de maneira honesta no cinema traz conforto e identificação para muitas pessoas, sejam elas parte da geração que viveu nos anos apresentados pelo filme ou mais novas, jovens que precisam de representatividade correta, que os ajudem a se compreender de maneira mais aberta. 

Rocketman dessa maneira cumpre seu papel como um musical empolgante, mas ao mesmo tempo, como uma cinebiografia que procura a essência de seu protagonista ao passo que a história avança e o artista se desprende de suas alegorias para ser mais honesto consigo e com sua arte. Como o próprio músico canta em um de seus sucessos “I´m still standing”, ele ainda está seguindo e livrando-se de seus medos, vícios e disfarces, como qualquer outro indivíduo que precisou se perder muitas vezes para finalmente se estabilizar como a pessoa que nasceu para ser. Pode soar clichê e exagerado, mas assim como seu filme e suas músicas, é verdadeiro. 

A conexão política e social proporcionada pelas músicas de protesto

Texto por Ana Luiza Badialle e Isabella Gemignani

John Sebastian foi o primeiro músico a subir no palco do Woodstock
(Foto: Autor desconhecido)

Sob o mantra “Três dias de paz e música”, o festival de rock, Woodstock, está fazendo 50 anos neste ano. O movimento ocorreu em 1969 em uma fazenda na cidade de Bethel, que é uma cidadezinha no estado de Nova Iorque. O evento reuniu mais de 400 mil pessoas e durou três dias. Com um vínculo fortíssimo com o sentimento de contracultura e, o Movimento Hippie, Woodstock adquiriu uma magnitude que não se imaginava na época, principalmente, entre os jovens que foram grandes protagonistas das mudanças e movimentos sociais da década de 1960.

Com isso, em questão de música, houveram grandes nomes como Jim Morrison, Janis Joplin, Santana, Jimi Hendrix, Joe Cocker, The who, entre vários outros artistas que fizeram história na música. O Woodstock foi protagonizado essencialmente por uma geração jovem engajada em transformações sociais, em uma mudança para uma sociedade melhor, com menos conflitos e guerras.

Por isso, momentos como esse e toda mobilização devem ser lembrados e celebrados ainda nos dias de hoje, afinal a arte como instrumento de protesto e reivindicação é uma das maiores armas contra a ignorância e a alienação de uma população. Com isso, vamos homenagear essas músicas e artistas que se preocuparam, acima de tudo, em usar sua arte como forma de defesa de seus ideais. Então, segue uma lista de músicas relevantes que possuem uma mensagem questionadora e política.

MÚSICAS

1943
Bella Ciao

Popularmente reconhecida por sua versão entoada pelos personagens de La Casa de Papel em momentos-chave da trama, Bella Ciao tornou-se um símbolo da luta dos partigiani contra o fascismo de Benito Mussolini e suas tropas durante a Segunda Guerra Mundial. A música representa o combate ao pensamento fascista.

1973
Money – Pink Floyd

“Money” critica o papel do dinheiro, promovido pelo sistema capitalista, que vai além de uma folha de papel, tornando-se a força motriz da sociedade e um combustível da vida, sendo responsável por garantir uma vida confortável ou mesmo com algumas luxuosidades. Contudo, há, ainda, o questionamento do clichê que afirma que dinheiro não compra felicidade e a dificuldade do desprendimento dos bens materiais, fazendo com que persista uma certa ambiguidade: seria o dinheiro, afinal, bom ou ruim? Ele deve “get away ou get back”? Cabe à interpretação individual a resposta dessas pergunta.

1986
Química – Legião Urbana

“Não posso nem tentar me divertir
O tempo inteiro eu tenho que estudar
Fico só pensando se vou conseguir
Passar na p*rra do vestibular”

Sintetizando todos os pensamentos do típico adolescente vestibulando em frente às pressões morais de passar no vestibular e cumprir o seu papel social de “ser alguém na vida” por meio do estudo, “Química” é uma crítica à lei da selva da sociedade, na qual os mais “adaptados”, “sobrevivem”. Para “ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão, ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão”, afinal, é preciso reduzir outras ambições e fazer o quê? Passar no vestibular.

1988
Fuck Tha Police – N.W.A.

Apesar de ser conhecida por todos e cantada por vários, o real significado dessa composição passa, muitas vezes, despercebida por muitos. Diante da brutalidade policial enfrentada pelos negros, embasadas em estereótipos racistas e de discriminação racial, o grupo N.W.A retrata, em “Fuck Tha Police”, 20 anos antes do surgimento do movimento Black Lives Matter (que defende o fim da violência direcionada aos afro-americanos), sua experiência em frente às injustiças, advindas da desigualdade racial do sistema de justiça criminal dos Estados Unidos. O tribunal de Dr. Dre, que criticava a opressão sofrida pela juventude negra décadas atrás, se estende até os dias de hoje, já que, segundo Black Lives Matter, a importância da vida dos negros “não é um momento, é um movimento.”

1989
Meninos e Meninas – Legião Urbana

“Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas”

Apesar de não fazer um questionamento dos ideais heteronormativos, ou sequer fazer uma crítica à estes, “Meninos e Meninas” retrata, explicitamente, a bissexualidade, em tempos que o debate sobre sexualidade e questões LGBTQ+ ainda eram tabus nas casas brasileiras.

1989
Burguesia – Cazuza

A classe dominante e sua inércia à mudanças são alvos de satirização em na música. A Burguesia, segundo Cazuza, “não repara na dor da vendedora de chicletes”, e enfrenta a dura realidade alheia, visando, apenas, a preservação de seus privilégios, como “ir a New York fazer compras.” Embora algumas pessoas nessa classe sejam “boas”, o cantor ainda defende que a burguesia fede e, ele, sendo burguês, cheira mal também. No entanto, ao se posicionar do lado do povo, Cazuza se desvincula da alienação da burguesia e sua ambição de, cada vez mais, acumular capital.

2018
Boca do Lobo – Criolo

Buscando a reflexão e discussão sobre os problemas da sociedade e sua atual fragmentação, Criolo aborda em “Boca do Lobo” os recentes acontecimentos na história sociopolítica do Brasil. Em seus versos, ele relembra o caso de Rafael Braga, preso por estar com uma garrafa de Pinho Sol, relata a hipocrisia da classe média e alta, que posiciona-se contra crimes – e, todavia, os comete -, expõe o perigo de se ter uma opinião no país (aludindo ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes), a realidade do precário sistema público de saúde e do problema das drogas em São Paulo, entre outras pautas contemporâneas. Além disso, o clipe de “Boca do Lobo” é repleto de referências subliminares e críticas incisivas, retratando ocorrências como o desastre de Mariana, a corrupção no meio político e o incêndio no Museu Nacional.

2017
Picture that – Roger Waters

Roger Waters (ex-baixista e vocalista do Pink Floyd) sempre foi um grande crítico da sociedade em que vivemos e, sempre deixou isso muito claro na construção de suas músicas, álbuns e até mesmo, shows. Em Picture That são feitas observações ácidas sobre o momento em que vivemos, da forma como nos relacionamos e somos alienados às questões humanitárias atuais, que não recebem a devida atenção como outras questões que podem ser consideradas fúteis em comparação à realidade vivida em zonas de guerra, por exemplo.

Como ele coloca quando canta:
“Sigam me filmando no show
Em um telefone de um assento na primeira fila,
Sigam a Miss Universo pegando um bronzeado
Wish You Were Here em Guantanamo Bay”

Ele faz referências à Guantanamo, uma província cubana localizada uma base naval estadunidense, que funciona como uma prisão militar dos Estados Unidos para detentos considerados perigosos, como terroristas. Não se sabe muito bem o que ocorre em Guantanamo, mas há sérias críticas ao fato de ser um local que não obedece aos direitos humanos, com registros de terem ocorrido graves abusos de forças contra os presidiários. Roger critica intensamente as atividades estadunidenses em relação à sua imposição mundial.

2018
Etérea – Criolo

Contestando totalmente os valores binários e heteronormativos da sociedade, Criolo em sua música Etérea, propõe uma perspectiva questionadora aos padrões de sexualidade e gênero impostos socialmente. Com isso, a música Etérea, juntamente de seu clipe, traz visibilidade à pessoas, tradicionalmente postas na margem da sociedade, além de estabelecer uma bandeira contra a ignorância e preconceito em sua poesia.

“É necessário quebrar os padrões
É necessário abrir discussões
Alento pra alma, amar sem portões
Amores aceitos sem imposições
Singulares, plural
Se te dói em ouvir
Em mim dói no carnal
Mas se tem um jeito esse meu jeito de amar
Quem lhe dá o direito de vir me calar?
Eu sou todo amor, medo e dor se erradicar
Feito sol que ilumina a umidade suspensa do ar”

2018
Brasil Colônia – Oriente, part. Fábio Brazza, Sant, Sid e Gog

“Desde Dom Pedro Primeiro que o Brasil é terceiro mundo
Desde Dom Pedro Segundo que ainda somos controlados por terceiros”
“Mas ninguém se importa se na favela vai ter cultura
Hoje o rap salva mais que a viatura”

De teor fortemente político, a parceria entre Oriente, Fábio Brazza, Sant, Sid e Gorg põe o dedo na ferida social da sociedade brasileira, ressaltando a importância da música – em especial, do rap – na comunidade e criticando a negligência do sistema, o racismo estrutural, a influência eurocentrista em nossa cultura, brutalidade policial, e outros problemas que configuram o Brasil novamente como uma colônia, com problemas que aparentam ser coloniais.

BÔNUS

2015
Reis do Agronegócio – Chico Cesar

Simplesmente uma das músicas favoritas do Bruno Joaquim, “Reis do Agronegócio” teve que ser inserida nessa lista, visto que ela questiona as reais consequências do agronegócio e seu uso de agrotóxicos, apropriamento de terras indígenas e quilombolas por meios ilegais (e consequente concentração de propriedade) e difusão de mitos acerca de seus benefícios. Ela desconstrói o fato de “agro ser pop” ao revelar a desumanidade em relação ao próprio meio ambiente, mesmo que esse propicie os produtos desse grande sistema.

A música está presente em nossas ações

A música, por fim, é parte do cotidiano de quase a totalidade dos indivíduos em nosso planeta. Ela transcende o espaço, a  língua e o plano denotativo para infiltrar o indivíduo em si e sua subjetividade. Nos últimos cinquenta anos – nos quais a música foi massificada e tornada uma moeda cultural – em frente à formação de formas de ativismo contemporâneas, a música configurou-se, também, como uma maneira de resistência e reivindicação de direitos, tornando-se bandeira de movimentos sociais.

Por isso, é importante sempre relembrar e valorizar essas músicas, não apenas como uma forma de entretenimento, mas, também, como uma forma de liberdade de expressão e, acima de tudo, de luta.

A vida secreta de grandes artistas

Texto por Ana Badialle

Leonardo Da Vinci (Foto: Reprodução)

Talvez nós não tenhamos consciência de que artistas como Dalí, Da Vinci e Tarsila do Amaral possuem vários momentos excêntricos que fizeram parte de suas carreiras. Todos são sempre representados de maneira formal, sem comentar sobre momentos curiosos e singulares de suas vidas. Mas, para a nossa graça, muitas dessas fofocas e curiosidades foram salvas e registradas para podermos nos divertir com eles. Aqui vão excêntricos momentos e fatos sobre grandes nomes já conhecidos da arte, para trazer graça e leveza para o campo da discussão artística.

Da Vinci já precisou enfrentar o julgamento do tribunal florentino em 1476

Não é novidade que o nome de Leonardo sempre carregou, ao longo da história, inúmeros boatos sobre suas invenções, sua arte, seus mistérios, e, principalmente, sobre sua sexualidade. É fato que em 1476, o chamado Ufficiali di Notte (Oficiais da Noite) – tribunal florentino que reprimia a homossexualidade masculina – espalhava urnas por toda cidade, conhecidas como “buracos da verdade”, onde cidadãos anônimos depositavam suas denúncias. Assim, Leonardo foi acusado de sodomia, especificamente, com seu aprendiz, o jovem Jacopo Saltarelli que, possivelmente, foi modelo para o quadro “São João Batista” (1513-1516).

Como Leonardo era uma pessoa muito renomada e conhecida em Florença, para a sua sorte, ele conhecia muito bem o tribunal florentino. A acusação foi retirada e ele voltou normalmente para sua vida. A homossexualidade masculina, apesar de ser considerada oficialmente crime em diversas regiões onde seria hoje a Itália, era uma prática muito comum, principalmente, dentro do meio artístico.

“São João Batista” – Leonardo da Vinci (Foto: Reprodução)

Michelangelo defendia que a abstinência sexual prolongava a vida

Michelangelo era um artista temperamental e essencialmente excêntrico. Ao que parece, ele defendeu, em boa parte de sua vida, que a abstinência sexual era algo que prolongava e melhorava a qualidade de vida das pessoas. É muito provável que ele nunca tenha visto uma mulher nua em toda sua vida, especula-se que essa seja uma possível razão para a representação de seus corpos femininos possuírem traços e aspectos anatomicamente masculinos. Ele provavelmente não teve tantos relacionamentos e relações com outros homens também, sua vida era majoritariamente dedicado à suas obras. Michelangelo morreu aos 89 anos de idade, talvez tenha funcionado para ele.

“A Noite” de Michelangelo representada no túmulo de Giuliano Medici (1520-1534) (Foto: Reprodução)

Caravaggio viveu procurado por assassinato

Caravaggio (1571 – 1610), pintor conhecido por desenvolver a técnica tenebrista no estilo barroco, era conhecido também por estar sempre no meios de conflitos. Há relatos de que o artista sempre trazia consigo uma espada de esgrima e vivia em sérias confusões, até que, em uma delas, matou o mercenário Ranuccio Tomassoni. Esse assassinato levou Caravaggio a fugir, pois passou a ser procurado e a, inclusive, ter sua cabeça como recompensa. Esse fato explica a razão do artista ter migrado tanto em vida, chegando a viver Nápoles, Malta e, por fim, Sicília.

“Giuditta e Oloferne” – Caravaggio (Foto: Reprodução)

Manet desafiou um crítico para um duelo

Manet (1833 – 18830), artista célebre do Impressionismo francês, sentiu-se insultado por um crítico que havia desaprovado seu trabalho. Por isso, resolveu chamá-lo para um duelo de espadas. O mais curioso da situação é que há registros de que a principal preocupação de Manet em relação ao duelo era qual sapato seria o mais adequado para a situação. Pelo jeito, eles não possuíam muitas habilidades com a espada e a luta teve uma duração curta. O crítico ficou levemente ferido no peito e após uns golpes ambos desistiram, apertaram as mãos e seguiram com suas vidas.

“Almoço na Relva” – Manet (Foto: Reprodução)

Klimt odiava viajar para fora da áustria

Gustav Klimt, pintor simbolista austríaco, autor do famoso quadro “O beijo”, detestava viajar para fora de seu país e evitava a situação a todo custo. No entanto, uma vez ele teve de ir para Florença e, na volta para Áustria, combinou de encontrar com um amigo na estação de trem. Mas ocorreu o que de mais trágico poderia acontecer para Klimt. O artista e o amigo se desencontraram na estação e, quando seu companheiro o finalmente encontrou, Klimt estava em um canto da estação encolhido e abraçado com sua mala, tremendo de medo, desesperado para voltar para seu país.

Fotografia de Klimt (Foto: Reprodução)

Picasso foi interrogado como suspeito pelo roubo da Mona Lisa em 1911

Quando a Mona Lisa foi roubada em 1911, o artista espanhol cubista, Pablo Picasso (1881 – 1973), foi um dos primeiros suspeitos a serem interrogados pelo roubo da obra. Tudo isso porque alguns anos antes, um sujeito chamado Pierre Reverdy roubou duas esculturas pequenas do Louvre e deu para o escritor e crítico francês, Guillaume Apollinaire, que por sua vez presenteou Picasso com as obras. Essa história veio a conhecimento do museu e eles logo foram detidos como suspeitos. Mas, algumas horas depois a história foi esclarecida, e Picasso simplesmente devolveu as obras para o Louvre. Apenas dois anos depois, a Mona Lisa foi de fato encontrada, e a resolução do caso não tinha realmente nada a ver com Picasso e Apollinaire.

Fotografia de Picasso jovem (Foto: Reprodução)
Fotografia de Apollinaire (Foto: Reprodução)

Senhor Escher

Maurits Escher, artista gráfico holandês, recebeu na década de 1970 uma carta de Mick Jagger, vocalista da banda The Rolling Stones, na qual ele implorava para que o artista desenhasse a gravura da capa do álbum. No entanto, Escher nem chegou a considerar o pedido porque, segundo ele, teria ficado muito ofendido porque Mick Jagger o chamou pelo primeiro nome na carta, ao invés de “Senhor Escher”.

Fotografia do Senhor Escher (Foto: Artista desconhecido)

Salvador Dalí e suas excentricidades

Dalí, pintor surrealista espanhol, na década de 1950, foi dar uma palestra em Londres utilizando uma roupa de mergulho com capacete. Só que o artista não pensou que talvez ele fosse precisar de um tubo de oxigênio acoplado ao capacete e, por isso, começou a sufocar dentro do traje. Os espectadores acreditaram que a agonia representada por Dalí fazia parte de mais uma performance dele e demoraram para vir ajudá-lo. No fim, deu tudo certo e conseguiram retirar seu traje antes que Dalí desmaiasse.

Fotografia de Dalí em sua palestra (Foto: artista desconhecido)

Tarsila do Amaral já trabalhou como operária de construção

Durante a crise de 1929, a rica família de Tarsila do Amaral perdeu praticamente todos os bens e dinheiro que tinha. Por isso, ela vendeu alguns de seus quadros para viajar para a União Soviética com seu novo marido, o psiquiatra Osório César, que a influenciou a ter diferentes formas de pensamento político e social.

O casal viajou para muitos lugares e chegou, novamente, em Paris, onde Tarsila se sensibilizou com os problemas da classe operária. Sem dinheiro, a artista trabalhou como operária de construção, pintora de paredes e portas. Mas logo ela conseguiu o dinheiro necessário para voltar para o Brasil.

Fotografia de Tarsila do Amaral (Foto: Reprodução)

Um grito de esperança

Poesia por Ana Badialle

Que nesse novo dia que surge
possamos dar as mãos de um jeito terno,
único, repleto de sentimento.
Que não tenhamos medo dos que
bradam serem mais forte que nós,
porque eles não sabem da nossa força
acumulada de anos de história nas costas.

Que haja grande união e comunhão
entre todos os que acreditam no amanhã
afastado de obscuridade,
medo, calamidade.
Que as pessoas estejam prontas para ouvir,
escutar, refletir.
Mas que antes, desejemos
nos manter humanos,
que nos voltemos às palavras
e seus poderes transgressores.

Já sabemos que o que passou
foi marcado, truculentamente,
por desespero,
medo, luto,
pesadas perdas
de vozes que, apesar de tudo,
viraram sementes prontas para aflorar
e nos dar força em um amanhã que já parece nos marcar.

Abracemos os que precisam de
alguém que os diga “só mais esse”,
espalhemos confiança aos que
permanecem juntos,
que escrevamos palavras prontas para despertar,
amemos quem sentirmos que precisamos amar
e sejamos quem percebemos que devemos ser.
Não é hora de se esconder,
ou se isolar,
nem esquecer.
É momento de se fazer presente.
Porque juntos caminhamos com mais poesia,
com maior companhia
e sabemos que só assim
podemos colher o que surgiu daquelas sementes,
as quais se fizeram ausentes
só para aflorar de um jeito diferente.

O que é o Met Gala e qual sua relação com a arte?

Texto por Ana Badialle, Anita Scaff e Caio Gomes

Foto: Getty Images

No dia 6 de maio ocorreu o MET Gala 2019, um dos eventos mais aguardados para o mundo da moda. O baile, que se chama oficialmente, Metropolitan Museum of Art Costume Institute Benefit (ou, em português, “Evento Beneficente do Instituto de Vestuário do Museu de Arte Metropolitana”) reúne diversas celebridades e possui como objetivo arrecadar fundos voltados ao departamento de moda do museu.

Todo ano, o Costume Institute (Instituto do Vestuário do Metropolitan Museum), um departamento do museu de arte metropolitana, elege um tema para contemplar e definir o “código de vestimenta” do evento. O desse ano foi “Camp: notes on fashion”, uma homenagem ao ensaio “Notes on Camp” de Susan Sontag, de 1964, que busca definir a estética Camp e sua contextualização artística, afinal, moda é essencialmente arte. Mas por definição, o que é a estética Camp que levou tantas celebridades a se vestirem de forma extravagante no tapete rosa?

Bom, o Camp pode ser considerado uma forma de comportamento alternativo, baseado no exagero e extravagância. O curador da exposição apresentada no Met Gala, Andrew Bolton, afirma que Camp não consiste em uma ideia, e sim, em uma performance teatral que expressa a sensação de estranheza em sua estética. Ele inclusive cita momentos da história nos quais essa performance esteve presente, como os anos de 1960, com o contexto hippie e o gosto pelo vestuário artificial desenvolvido na década de 1980. Por fim, ele questiona, onde está esse conceito na moda e expressão atual?

Essa pergunta caminha junto não só de questões estéticas, mas políticas também. A palavra camp foi utilizada pela primeira vez como um substantivo em uma comédia satírica do dramaturgo francês, Molière, no século XVII, trazendo a ideia de uma fuga do sério e real. Dessa forma, o escritor Oscar Wilde foi influenciado pela ideia de extravagância e anarquia que o Camp poderia trazer, como algo que seja desconfortável e fora do comum.

Assim, muito pela influência das obras de Wilde, a palavra Camp tornou-se um adjetivo, muitas vezes utilizado como um insulto que trouxesse conotação de homossexualidade, como futuramente, seria definida a ideia “queer”. Uma palavra que teve sua origem próxima ao Camp, e era utilizada como uma ofensa para denotar alguém que não seguisse os conformes da expressão cis e heteronormativa. Dessa maneira, o Camp se estabeleceu como esse comportamento que foge da naturalidade, simplicidade, buscando sempre a ética em sua própria estética que tende a exalar uma performance como valorização do ousado e uma homenagem ao julgado esquisito.

Celebridades e o Statement de Lena Waithe

Lady Gaga foi uma das ‘co-hosts’ (anfitriãs) da edição do Met Gala deste ano – juntamente de Serena Williams e Harry Styles – e foi, possivelmente, a celebridade que mais chamou atenção no tapete rosa. A cantora chegou com um vestido bufante fúcsia do estilista Brandon Maxwell e com um grande laço amarrado em sua cabeça. Ela desfilou de maneira teatral, com exuberância e exagero, que são suas marcas registradas desde a era The Fame. No entanto, o que roubou a atenção de todos foi que Gaga realizou quatro trocas de roupa, até ficar somente de lingerie. É possível considerar que esta última peça foi a que exibiu a maior influência do Camp dentre todas as quatro.

As quatro trocas de roupa de Lady Gaga (Fotos: Getty Images)

Aquaria e Violet Chachki foram as primeiras drag queens a desfilarem pelo tapete rosa na história do Met Gala. Exercendo grande representatividade, não só para drag queens, assim como para a comunidade Queer como um todo, ambas apostaram em looks voltados para o preto e com simplicidade. Foram elogiadas sobretudo pela participação e destemor com o qual desfilaram na noite.

Aquaria e Violet Chachki no tapete rosa (Foto: Getty Images)

Janelle Monáe foi comparada ao Chapeleiro Maluco de Lewis Carroll e seus acessórios deram o tom especial que posicionou a cantora como uma das mais bem vestidas da noite. Com chapéus que desafiaram a gravidade e um vestido com um olho que piscava cobrindo seu peito, Janelle entrou no tapete rosa com um vestido de Christian Siriano, que dividia-se em uma metade preta e branca, e uma metade colorida. As cores contrastantes e a ousadia da cantora foram elogiados por muitos e seu look definitivamente entra como um dos destaques da noite.

Jannele Monáe no tapete rosa (Foto: Getty Images)

Billy Porter, ator de “Pose”, ficou conhecido por desafiar os padrões de vestimenta masculinos, sobretudo nos tapetes vermelhos das premiações do início deste ano. Porter chegou carregado por outros seis homens em uma carruagem estilo Cleópatra e sua entrada foi seguida pelo exibição de seu incrível look. Vestindo uma coroa dourada de 24 quilates e macacão repleto de adereços também dourados, idealizado pelos estilistas The Blonds, Porter surpreendeu a todos ao abrir asas de envergadura de três metros. “O Camp é frequentemente usado como algo pejorativo. O que eu amo do tema deste ano do Met Gala é que traz honra a uma palavra muitas vezes diminuída ou um movimento tipo como brega”, disse em entrevista à Vogue previamente a sua entrada no tapete rosa.

Billy Porter no tapete rosa (Foto: Dimitrios Kambouris/Getty Images)

Cardi B entrou nos destaques da noite e seu look veio como surpresa para muitos. A rapper que avassalou os charts ano passado é conhecida por ousar em tapetes vermelhos, mas não se esperava tamanha obediência ao tema vindo da mesma. Com um vestido que a cobria dos pés à cabeça, literalmente, junto de uma grande cauda que muitos compararam a um edredom, Cardi recebeu ótimas críticas por seu vestido do estilista Andrew Bolton.

Cardi B no MET Gala 2019 (Foto: Getty Images)

Lena Waithe, atriz e produtora de séries como “Cara Gente Branca”, já teve presença marcante no Met Gala do ano passado e esse ano não foi diferente. Acompanhada de seu estilista da noite, Kerby Jean-Raymond, em ternos listrados – cujas listras eram letras de músicas icônicas como I’m Coming Out e I Will Survive – Lena carregava bordado em suas costas “Drag queens negras inventaram o Camp”. Aclamada por muitos nas redes sociais, Waithe fez justiça à pessoas apagadas da história da moda (e da história geral também) ao fazer essa verdadeira homenagem. “Eu queria me certificar que meu look representasse as drag queens negras que começaram com essa coisa do Camp e de ser exagerado. Pessoas como RuPaul, todos esses pioneiros que começaram com toda essa coisa e eu queria fazer um tributo a eles”, disse a atriz e produtora em entrevista ao E! News.

Lena Waithe e Kerby Jean-Raymond, com seus trajes “Drag queens negras inventaram o Camp” (Foto: Getty Images)

Representatividade e relevância

Muito além de apenas trajes, exuberância e celebridades, por trás da moda há questões socialmente relevantes para serem trabalhadas. A inclusão de pessoas pertencentes a minorias, como as negras e LQBTQ+ precisam ser repensadas dentro da arte. Um evento notoriamente famoso, como o Met Gala 2019, traz peso e atenção para algo que precisa urgentemente ser incluído na dialética contemporânea da sociedade com suas expressões artísticas mais variadas.

Portanto, o Met Gala 2019 faz parte da atualidade e conquista da arte por pessoas que aos poucos, muito lentamente, conseguem ocupar seu espaço na sociedade como deve ser. A moda pode ser muito mais do que apenas estética, ela dialoga com a necessidade humana de expressão e inclusão.