Tatuagem: um mapa para o nosso interior

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Foto: Autor desconhecido

Como forma de expressão, tanto corporal quanto individual, por meio da arte, o hábito de colocar tintas permanentes na pele subsiste ao tempo, consolidando-se como uma das formas de elaboração artística mais antigas e onipresentes na humanidade. A prática foi datada há 5300 anos com a descoberta de 61 tatuagens em uma múmia encontrada nos Alpes italianos. Contudo, ela sofreu mudanças ao longo do tempo, a despeito de seu caráter universal e do mantimento de sua tradição ao longo dos séculos, devido aos contextos e culturas na qual a arte se inseriu e se insere, caracterizando-a pela sua volatilidade conforme a conjuntura identitária. 

Historicamente, para os nativo-americanos, as tatuagens simbolizavam o fenômeno de transmissão de princípios por meio do processo tatuador, no qual o som dos pedaços de osso e madeira contra a pele evocava os ancestrais e permitia a concretização do ritual, que ilustrava fenômenos importantes na vida do indivíduo, como seu amadurecimento, poder espiritual e sua associação à grupos e posições perante a sociedade. No entanto, diante da chegada dos colonizadores britânicos em tribos norte-americanas, como na Ilha de Taiti, as tattows (termo em taitiano que significa tatuagem adotado mundialmente) passaram a perdurar contra um projeto eurocentrista, que visava o apagamento da tradição indígena, visto que, assim, os nativos seriam mais facilmente subjugados aos ideais ocidentais, quebrando, portanto, os modelos nativos e suas crenças locais. 

Giolo foi um príncipe filipino que foi escravizado e trazido à Europa como atração comercial por suas tatuagens detalhadas. ( John Savage, Princípe Giolo, 1691)

Já no Japão, a tatuagem era utilizada como forma de punição aos criminosos. Foi apenas no século XVII, por conta do aumento das tatuagens decorativas e com o crescimento do emprego para mascarar as punições permanentes, a tatuagem penal foi abolida. Dessa maneira, houve no país uma abertura para a popularização da técnica. Em 1827, os heróis e bandidos lendários cobertos de tatuagens, retratados por um artista de xilogravuras da época, inspiraram a população a adotar a estética: alguns tatuavam os próprios personagens acreditando que assumiriam suas características. Porém, a disseminação dessa arte levou o governo japonês, na Era Meiji (século XIX), a criminalizá-la, fazendo com que esse legado passasse a ser, novamente, associado à marginalização e criminalidade. Esse legado evoluiu enraizadamente às tatuagens ao longo das gerações e propiciou, também, a associação de tais à máfia japonesa, como a Yakuza. 

Por outro lado, nos Estados Unidos, os pigmentos corporais representavam aspectos de honra e bravura. Originalmente, quem as possuía eram os marinheiros, que, analogamente às tatuagens tribais, marcavam suas identidades e conquistas como marujos. As tatuagens de andorinhas, por exemplo, significavam que o marinheiro navegou 5000 milhas náuticas, enquanto as âncoras, conquistadas após uma jornada completa ao Oceano Atlântico, exprimiam ideais de estabilidade e fé inabalável diante dos desafios marítimos, sendo atreladas também à nomes (“mãe” e “pai”) para homenagear pessoas as quais eram motivos para voltar da viagem. 

Adeptos da arte, os marinheiros foram responsáveis pelo desenvolvimento da tatuagem à máquina, que era mais rápida e transformou o método e o processo de tatuar em si. Além disso, dita facilitação culminou em obras maiores e mais detalhadas, que passaram a ser apresentadas, posteriormente, nos circos que, por sua vez, disseminaram a cultura da tatuagem e o interesse à esta em localidades mais conservadoras do país, como a região Centro-Oeste e o interior estadunidense. 

Foto: Autor desconhecido

Atualmente, é notável o sincretismo entre todas as estéticas antigas, evidenciando o fato da tatuagem contemporânea ser produto do processo histórico de repressão, popularização e inovação da arte. Além disso, a democratização da mídia por meio do acesso à redes sociais permitiu a difusão de novos estilos e traços. Mesmo o ato de fazer uma tatuagem foi propulsionado por elas, visto que, segundo pesquisas, desde o início do uso do Instagram, o número de americanos tatuados quase dobrou. Contudo, isso não significou uma maior aceitação das obras, visto que as tinturas na pele ainda são proibidas nos Emirados Árabes, Coreia do Norte e na Dinamarca (quando localizadas nas mãos, rosto e pescoço), e são censuradas quando expostas na televisão na China.

De qualquer forma, o fenômeno das tatuagens nos dias atuais revelam a vontade que temos, nós, seres humanos, de registrar o que somos e o que sentimos de uma maneira radical. Mas esse registro não é feito sobre um elemento material qualquer, talvez de vida curta, como o papel, e sim realizado sobre a pele do corpo. É como se o corpo pudesse transmitir por meio da tatuagem o que sentimos, lembramos, pensamos e a nossa própria estética. 

A tatuagem como uma forma de arte ultrapassou diversos limites e significados, na contemporaneidade, com o aumento da individualidade, ela pode ser analisada como um símbolo de particularidade capaz de destacar e diferenciar os indivíduos. Além disso, as tatuagens não são apenas arte, cicatrizes de tinta, reflexo de nossas angústias ou insatisfações, rituais de inclusão de grupo – elas podem, também, representar apenas uma reprodução estética de algo que gostamos ou achamos belo em nosso corpo: mesmo que não haja uma grande história ou atribuição pessoal por trás, esses tipos de tatuagens adquirem, todavia, um grande significado, pois o que apreciamos revela muito de quem somos. Na verdade, no fundo, talvez, seja um pouco de tudo. 

Nós somos sempre pouco preparados para lidar com os períodos de mudança que a vida nos submete e acabamos, assim, tentando resistir às intempéries da existência que, de maneira inevitável, sempre nos deixarão marcados. Marcas na pele, na personalidade que devem ser carregadas, como canta Chico Buarque em sua música “Tatuagem”: 

“Quero ficar no teu corpo feito tatuagem 
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem”. 

Talvez as tatuagens falem muito mais do que imaginamos sobre nós mesmos e a imagem que criamos dos outros. Afinal, quem sabe não sejam elas, uma janela para uma versão mais honesta de nós mesmos?

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Arte como inconsciente

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Arte: Autor desconhecido

A arte é, acima de tudo, uma experiência sensível e subjetiva, intermediada pelo consumo, apreciação e questionamento cotidianos por indivíduos inseridos em um mundo em transformação. Tão frequente é tal fenômeno que nos tornamos alheios ao próprio processo de interiorização das criações artísticas, as quais são interpretadas e reinterpretadas pelo nosso subconsciente, desde o reconhecimento de formas e cores das obras até a sua significação. Mesmo uma atração superficial a um determinado trabalho é instigada de modo inconsciente, pelo nosso cérebro e sua cognição, em relação a o que está sendo observado. 

Por outro lado, em uma união entre a ciência e a subjetividade, a Psicanálise, definida como a “teoria da alma”, é um método clínico de investigação da psique humana desenvolvido por Sigmund Freud. Sua origem está vinculada à busca do tratamento de neuroses e distúrbios mentais por meio do entendimento da mente humana. Por isso, seu objeto de estudo está em torno da relação dos desejos inconscientes e o comportamento humano expresso pelas pessoas, já que, de acordo com Freud, grande parte dos processos psíquicos da mente humana estão em estado de inconsciência. 

A Tragédia e a expressão artística

A Psicanálise pode ser considerada fruto da medicina (estudos neurológicos) e da literatura. Dessa forma, ela encontra no campo da construção ficcional da Tragédia – como o gênero teatral, inventado pelos gregos – uma forma de instrumento de análise. Para Freud, o ponto principal da expressão artística é o fato de que ela oferece uma representação privilegiada do que é posto, em uma Psicanálise: a relação do desejo com a castração. Pode soar estranho no começo, mas a angústia da Castração foi uma das primeiras teorias desenvolvidas por Freud. Ele explica por meio de uma análise da sexualidade infantil, a censura da libido, isto é, do desejo sexual e como isso permeia nossos traumas, fetiches, comportamentos e uma série de aspectos do nosso inconsciente. 

Mas, voltando à comparação da tragédia e psicanálise, Freud afirma ocorrer o mesmo com as artes plásticas, como por exemplo, a pintura. Para o psicanalista, a tela em branco funciona para o inconsciente humano da mesma forma como uma cena onírica – que não pertence ao real representando as fantasias, alucinações e os sonhos. A tela, assim como um sonho, representa um objeto ou uma situação ausente que, censurados pelo nosso consciente, só aparecem por meio de seus representantes simbólicos.

Como em uma fantasia, a tela é pensada como algo visto de forma individual que revela parte de nossos impulsos. Por isso, ao tentar compreender uma pintura por meio de uma explicação, com palavras organizadas, o significado dela é rapidamente conduzido para um âmbito racional, ou seja, para o espaço da racionalidade, rasgando o véu das representações sob o qual essa significação se ocultava. 

A obra, enquanto construção muda e visível, situa-se no espaço de realização imaginária do desejo. E é nisto que reside a função da arte, conforme aparece no ensaio Escritores criativos e devaneio (1908), quando Freud distingue dois componentes do prazer estético: um prazer propriamente libidinal que provém do conteúdo da obra à medida que esta nos permite realizar nosso desejo e um prazer proporcionado pela forma ou posição da obra que se oferece à percepção não como um objeto real, mas como uma espécie de brinquedo, de objeto intermediário, a propósito do qual são permitidos pensamentos e condutas com os quais o espectador pode se deleitar sem auto-acusações, nem vergonha ou censura. 

Além do que, considerando que o interesse de Freud pela arte relaciona-se à leitura dos significados reprimidos e inconscientes, a expressão artística é entendida como uma algo sublimado de desejos proibidos. O artista, nessa medida, é concebido como um indivíduo talentoso o suficiente para transformar os impulsos primitivos e sexuais, em formas simbólicas e culturais. Como os sonhos, o trabalho artístico facilita o reconhecimento e a elaboração de sentimentos reprimidos, tanto para os artistas quanto  para os espectadores que, por sua vez, compartilham com os primeiros a mesma insatisfação com as renúncias exigidas pela realidade e, por intermédio da obra, a experiência estética. Assim, o vínculo entre a psique e a arte pode chegar a ser concebido de um modo tão direto ou imediato que a singularidade da obra é perdida de vista, ao mesmo tempo em que o inconsciente passa a ser simplesmente ilustrado pela obra.

A neuroestética 

Diante de uma produção artística, a primeira significação dada, feita pelo cérebro, ocorre em relação ao seu aspecto mais chamativo: as cores. Embora seus efeitos sejam universais, baseados na absorção e reflexão da luz pelos objetos, sua identificação e assimilação à significados é um processo individual. Isso ocorre por conta da capacidade inata da raça humana de organizar o que está sendo visto em formas e padrões – que, logo, faz com que os tons sejam reconhecidos pelo cérebro como fontes de sensações e emoções. Desse modo, a pigmentação em si é uma importante parte na nossa percepção visual e na interpretação da arte, visto que ela influencia nossa consciência sobre o mundo.

Tal fato é evidenciado, principalmente, pela psicologia das cores. Por conta da física da ótica e da reflexão dos objetos (na qual mais luz, ao ser refletida por cores brilhantes, resulta em um excessivo estímulo aos olhos), as cores passam a ter efeitos biológicos: o vermelho, por exemplo, aumenta a pressão sanguínea, a respiração, e as batidas do coração, propiciando em um aumento da intensidade e atividade; o amarelo estimula, energiza, e incita a concentração por ser a primeira cor que o olho humano vê; o azul, representa a calma e aumenta a criatividade. Assim, o próprio meio da arte, a tela, torna-se um veículo para atribuir sentidos além de estéticos. Isso faz, também, com que as tonalidades sejam incorporadas em esferas como a do marketing, onde a paleta de cores é escolhida a fim de causar determinado efeito no consumidor. O McDonalds, por exemplo, utiliza o vermelho e o amarelo visando criar apetite e um senso de urgência, ao passo que o Starbucks incorpora o verde e o marrom para promover um senso de relaxamento e harmonia, para que o cliente visite a loja para retirar o stress diário.

Quase meio século antes de a concepção de arte ser transformada com as vanguardas, em especial, como a tese de Duchamp – “são os espectadores que realizam as obras” –, Freud dá seus próprios passos na linha da estética da recepção. Com isso, a Psicanálise, que, talvez assim como seu inventor, entre dignamente no campo da crítica contemporânea, oferecendo às obras um modo de pensar que, como a arte, busca transcender a familiaridade das formas culturais já acostumadas aos nossos olhos. 

Desconstruindo Van Gogh: o homem por trás do mito

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Arte: Isabella Gemignani

Ora narrada em 1890, ora relatada em 2019, a história de Vincent Van Gogh foi, assim como a percepção social a respeito do artista, transformando-se ao longo dos anos. Vítima de um processo de especulações, sua trajetória sofreu com constantes mistificações, idealizações e reinvenções. À medida em que o pintor foi  se tornando um dos nomes mais influentes na história da arte ocidental, tendo sua arte massificada comercialmente na atual cultura e, seu nome, apesar de ter sido considerado, em vida, um fracasso, reconhecido, tanto no âmbito artístico quanto cotidiano. Seu legado volátil, no entanto, contribui para a difusão de mitos acerca de sua jornada como pintor. Afinal, quem foi, verdadeiramente, Van Gogh?

A ORELHA CORTADA

Van Gogh, Autorretrato com orelha enfaixada, 1889

Exatamente 131 anos atrás, em uma casa amarela no Sul da França, que abrigou a inspiração para a obra “O Quarto em Arles”, Van Gogh cortou um pedaço de sua orelha sob circunstâncias misteriosas. Imortalizado em sua pintura “Autorretrato com a orelha cortada”, tal ato configurou um dos acontecimentos mais icônicos de sua vida, fazendo com que o pintor fosse, mesmo, reconhecido posteriormente pela estória de seu lóbulo ausente. 

Embora não se saiba ao certo o motivo de fazê-lo, há teorias quanto a sua motivação: alguns supõem que Paul Gauguin, amigo de Van Gogh (que morava com ele na época), foi responsável pela infame ocorrência e, para protegê-lo da polícia, Vincent teria assumido a responsabilidade do acidente. Por outro lado, acredita-se que a ocorrência tenha sido seja advinda de uma briga com Gauguin: durante sua estadia, Van Gogh supostamente teria tido um surto psicótico e, após ameaçar o companheiro com uma faca, ele teria mutilado sua própria orelha e, depois, presenteado-a à uma prostituta em um bordel próximo. Esta, por sua vez, o denunciou à polícia, que foi responsável pela internação do pintor em um hospital psiquiátrico em Arles.

UM PINTOR FRACASSADO?

Apesar de contemporaneamente ser considerado um artista extraordinário, não é desconhecido o fato de que, em vida, Van Gogh se considerava um fracasso. Mesmo o seu quadro mais famoso, “A Noite Estrelada”, foi considerada um insucesso pelo pintor. Após lidar com uma série de desventuras, achou, tardiamente, sua verdadeira vocação na pintura. Seus anos dedicados à arte foram caracterizados pela ridicularização sofrida, a qual fazia-o ansiar, apenas, pelo “saber de como é que posso ser útil ao mundo”, conforme relatou em uma carta à seu irmão mais novo, Theo Van Gogh. Além disso, Vincent considerava-se um ônus familiar e, principalmente, econômico, à Theo: este financiou praticamente toda a vida artística do pintor, visto que, dentre suas quase 900 pinturas produzidas em menos de dez anos de carreira, apenas uma foi vendida em vida: o Vinhedo Vermelho. 

TELAS SOBRE TELAS 

Van Gogh, Pedaço de Grama, 1887.
Van Gogh, Pedaço de Grama, 1887, e sua obra escondida.

Sob a camada de tinta das centenas pinturas de Van Gogh, encontram-se mais dezenas de obras não vistas. Diante da pobreza e da dificuldade de manter seu ofício, o pintor compunha telas sobre telas para sustentar sua paixão, literalmente. Utilizando aceleradores de partículas, cientistas descobriram que aproximadamente um terço das obras expostas no museu Kröller-Müller, que conta com o segundo maior acervo de obras de Vincent do mundo, foram pintadas em cima de trabalhos prévios. Tal prática de reutilização de telas, embora inusitada, era bastante comum entre artistas, sendo utilizada, inclusive, por Picasso e Rembrandt. 

TINTA AMARELA: A DIETA PARA A FELICIDADE?

No ano passado, o Van Gogh Museum, em Amsterdam, na Holanda, respondeu pacientemente dúvidas e mitos frequentes sobre Van Gogh. Entre elas estava a questão levantada pela internet, relacionada à fantasia de que o artista ingeria tinta amarela pensando que o levaria à felicidade.  O mito culminou em reflexões genéricas e inconsequentes, como a pergunta que se popularizou por conta dessa história, “quem é sua tinta amarela?”, como se fosse um questionamento profundo ao interlocutor, sendo que, na verdade, isso só parte de diversas generalizações preguiçosas e narrativas simplistas.

Em primeiro lugar, o Museu esclareceu que, quando Van Gogh foi internado, ele ingeriu sim, tinta – sem especificação nenhuma de cor – e aguarrás (solvente de tinta), com o objetivo claro de se machucar e intoxicar. Com isso a invenção e romantização da tinta amarela como algo que forjaria uma felicidade momentânea, mas a longo prazo causaria mal, é imprudente e desrespeitosa, além de se basear totalmente em um senso comum que busca idealizar e culpabilizar as pessoas por seus transtornos psicológicos.

Considerando que o mito da tinta amarela afirma que havia chumbo em sua composição, o que causaria – sem base nenhuma – a depressão, é concebida outra idéia errônea, pois Van Gogh nunca teve um diagnóstico específico. No entanto, caso esse diagnóstico fosse depressão, já foi comprovado cientificamente que a causa dessa doença não é apenas um fator ou um elemento como insistem algumas pessoas, e sim, um conjunto de causas, que podem variar de outras doenças (como cardiovasculares), de fatores e fenômenos emocionais da vida de um indivíduo ou até mesmo uma predisposição genética combinada à outros acontecimentos.

A propósito, a intoxicação por chumbo, também conhecida como saturnismo, segundo artigo publicado no jornal de medicina da Universidade de Oxford, tem como sintomas: cólicas abdominais, dores e câimbras musculares, paralisia, perda de peso, palidez, marcas nas gengivas e um odor característico. Depressão não faz parte do quadro de sintomas. 

VAN GOGH: FLORESCENDO EM REINTERPRETAÇÕES

Gogh-van-Cruijff, Uriginal, 2013. O autorretrato de Van Gogh adorna a parede de tijolo, ao lado do jogador Johan Crujiff.

Mesmo 129 anos após seu falecimento, a inserção das obras de Van Gogh na indústria cultural popular possibilitou que seu legado fosse mantido vivo com o passar das gerações, embora em diferentes pinceladas e formas. Reproduzido fielmente em pinturas como de Myung Su Ham e de Vitali Komarov, ou em vieses modernos, como uma noite estrelada retratada por meio de itens descartados por Jane Perkins, sua influência ainda é notável na esfera artística, atingindo, também, o meio da arte urbana contemporânea, na qual seus autorretratos estampam a urbe e a esfera de produção massificados, com acervos não apenas de imitações de seus quadros, como também de mercadorias. Além disso, a sinestesia van goghiana transcende, na contemporaneidade, a tela, podendo ser experienciada por meio de projeções e objetos cenográficos na exposição Paisagens de Van Gogh, no Pátio Higienópolis, em São Paulo, até dia 15 de setembro.

Em 2019, assim como no século XIX, ainda não se sabe ao certo quem foi Vincent Van Gogh. Descrito por aqueles que o conheceram como “louco” e por outros como “gênio”, Van Gogh, mesmo após as desconstruções modernas, permanece misterioso, mas é possível compreender, ao estudar sua trajetória, que ele foi, acima de tudo, um homem excessivamente sensível em contraste com a frieza do mundo, tendo seus momentos  de criação como os momentos especiais da sua vida, baseada em sensibilidade e contemplação. Cabe às suas expressivas obras deixadas o papel de contar sua história ao mundo, agora que este, mais do que nunca, quer tanto ouvi-lo.

A vida nos muros da cidade

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Foto: SONY DSC

A experiência urbana é caracterizada, acima de tudo, pelo seu frenesi. Lugares lotados, multidões amontoadas em metros, pessoas caminhando com pressa, horários e tabelas a serem preenchidas. Cada indivíduo preso em sua existência frenética, em seus próprios mundos de afazeres concretos, o que faz parecer que as cidades se tornam cada vez mais cinzas e prepotentes, longe de uma conexão real e emotiva. Em 2011, o artista Criolo traduziu essa sensação de isolamento na música “Não Existe Amor em SP”. A canção tornou-se extremamente popular e trouxe a atenção internacional para a cena do rap brasileiro. Essencialmente, ela trata sobre essa sensação de solidão vivida nas grandes metrópoles no mundo contemporâneo, quando Criolo diz que “Não existe amor em SP” ele traduz de forma lírica o fenômeno mundial da solidão urbana, causada por motivos enraizados que vão da estrutura da linguagem até o modo de produção e vivência capitalista neoliberal como aborda a música de Criolo:

“Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever”

Foto: Autor desconhecido

Por isso, para transcender a linguagem e suas dificuldades na conexão cotidiana, a arte se altera de acordo com seu contexto e necessidade, o que nas grandes metrópoles não foi diferente, revelando parte da necessidade de uma experiência sensível em um mundo cosmopolita. O grafite, diante de tal contexto, configurou-se como uma linguagem artística própria, sendo, em sua origem, uma inspiração visual para outras formas de manifestação artística e, logo depois, o próprio veículo de disseminação de mensagens sobre política, sociedade e cultura.  

Apesar de ser um conceito antigo, datado às inscrições de protesto encontradas em construções do Império Romano, a pichação, assim como o meio urbano, sofreu transformações ao longo do tempo. As letras coloridas e desenhos obscenos que conhecemos hoje como “grafite” e que estampam os prédios e muros das cidades, foram criadas pelos jovens do Bronx (distrito de Nova Iorque) que, como participantes do movimento de contracultura hip hop, ressignificaram o conceito romano por meio de tinta spray e de frases de questionamento.

Para entender a relevância do Grafite e da arte urbana, é necessário compreender sua década de surgimento, que foi marcada pelas grandes insatisfações políticas e pela força enorme do protagonismo dos jovens. As décadas de 1960 e 1970 foram moldadas pelo sentimento de engajamento social e político, dando lugar à acontecimentos como Woodstock, em 1969, e o estabelecimento do fim de um período conformista que logo se esgotou com os conflitos da Guerra do Vietnã, gerando um clima marcado pelo questionamento do patriotismo estadunidense proveniente da prosperidade econômica da década de 1950. 

No contexto do surgimento do grafite vieram grandes nomes, como o de Jean-Michel Basquiat, grafiteiro de Nova Iorque, que inicialmente expunha poemas e reflexões filosóficas pela cidade – e que, posteriormente, tornou-se conhecido pelos grafites neo-expressionistas, originando sua entrada no contexto alternativo artístico nova iorquino frequentado por pessoas como Andy Warhol e Keith Haring.

 Hollywood Africans, 1983 ( Jean-Michel Baquiat)

Como filho das grandes metrópoles e desse inconformismo, o grafite teve lugar na mesma época em Paris, acompanhando o movimento estudantil contra as formas de ensino retrógrados na França, conhecido como Maio de 68, juntamente também da indignação pelo fortalecimento das ditadura militares na América Latina e o apoio ao movimento pelos direitos civis no Estados Unidos. Os estudantes deixaram suas marcas de indignação pelos muros da capital francesa, inaugurando essa maneira de arte no continente europeu.

Tradução: “Como pensar livremente à sombra de uma capela?” (Grafite de Maio de 68)

As periferias de São Paulo logo incorporaram o Grafite como meio de expressão diante das imposições culturais sofridas pelo Brasil, chocando muitos na década de 1980. Isso popularizou uma polêmica travada até a atualidade: a acusação de que os grafites são apenas poluição visual e meras pichações. No entanto, as novas exposições ganharam, por outro lado, admiradores da elite intelectual, que passaram a enxergá-las como formas de arte e expressão, movidas pela revolta das ditaduras na América Latina, como a vivida no Brasil, implantada em 1964, e acabando apenas em 1985. Tal conjuntura política promoveu a necessidade de se expressar diante de tantas brutalidades e abusos de poder do governo autoritário, criando um cenário próprio em âmbito nacional e concebendo uma esfera fértil para a produção cultural grafiteira brasileira. 

Essa efervescência artística trouxe nomes como “Os Gêmeos”, que chegaram a ter painéis expostos em grandes galerias de arte do Reino Unido. Eles também possuem inúmeros painéis pela cidade de São Paulo, especialmente, em bairros como Liberdade. Recentemente, infelizmente, seus murais da Av. 23 de Maio  (considerada uma das maiores composições de grafite do mundo) foram apagados com tinta cinza. Além dele, Kobra, um artista brasileiro de extrema relevância no meio da arte urbana internacional, é também responsável pela exibição de painéis ao redor do globo, tendo formas do realismo com cores exacerbadas como sua marca. 

Grafite dos Gêmeos

O Grafite ainda ocupa um lugar de protesto nas grandes cidades e traz exatamente parte da necessidade escancarada de abordar a conexão e expressão nas grandes cidades. A cidade de São Paulo, como descreveu Criolo, transborda arte e cultura como um escudo para a frieza e individualização, criando uma forma quase inexata, porém eficiente de comunicação. Pois, em meio ao concreto, os muros ainda são capazes de abrigar fragmentos explosivos de cultura, cujos estilhaços, mais do que nunca, geram novos focos de criação e produzem, uma cidade um pouco mais colorida, crítica e menos tradicional ou opaca, dando graça ao que pode ser considerado banal à luz do dia-a-dia. O grafite, então, em meio ao caos da cidade, com que já estamos acostumados, consolida-se como uma ressignificação do espaço, vendo nele a possibilidade de um reencantamento do cotidiano por meio da arte, para lembrar a todos que existe sim amor em SP, ou em qualquer outra grande metrópole. 

Inimputável

Conto por Victória Lopes

Seus olhos corriam rapidamente pelo cômodo tentando processar todas as informações. O sangue escorria pelas paredes que um dia foram brancas, assim como lágrimas escorriam pelo seu fino rosto. Ele estava atordoado e ofegante perante ao corpo sem vida estirado no chão do quarto. Não era difícil reconhecê-lo, sendo ele de seu irmão mais novo. Por breves minutos tudo que se conseguia escutar eram suas batidas de coração aceleradas e a chuva batendo ruidosamente na janela. Assim que Alec tentou se afastar, a cabeça começou a rodar e ele bateu com os joelhos no chão respirando fundo. A cabeça doía e ele sentia marteladas constantes e ritmadas de dentro para fora. 

O sangue agora jazia em suas mãos e roupas deixando o garoto sem saber o que fazer. Ele se ergueu novamente e girou pelo quarto procurando uma escapatória enquanto olhava para todos os cantos com a visão turva. O pobre coitado sentia o pânico crescer dentro de si e o consumir. As loucuras e insanidades que ele pensava podem ser consideradas grandes absurdos,mas ele não conseguia sair disso. Sentiu suas palmas já molhadas de sangue familiar começarem a suar e tremer, calafrios teimavam em subir pela espinha e parar no cérebro causando curto-circuito completo. A dor de cabeça aumentava a cada movimento e dessa vez ele precisou parar tudo que fazia combatendo o instinto de gritar.

Ainda rondando o quarto que nem louco em busca de uma solução, ele escutou o barulho que o fez enlouquecer de vez. Agora escutava passos, se vinham do andar debaixo, dos quartos ao lado ou do sótão ele não sabia. Também não estava muito afim de descobrir. A adrenalina marcou presença e ele parou. Parou de andar, de chorar e de tremer, focando apenas no som que ecoava pela casa. O andar pesado que ele escutava antes tinha cessado e, mais uma vez, tudo que ele escutava era a chuva se chocando contra a janela. 

Decidido de suas ações e sem emitir barulhos, ele foi até o banheiro e colocou tudo que antes tinha deixado em cima da pia nos bolsos: remédios, carteira e o telefone. Alec evitou ao máximo olhar no espelho e encarar o próprio rosto, não queria ver o sangue, nem as lágrimas, as olheiras ou o pânico nos olhos. Ao sentir pés rangendo com proximidade de onde estava, com toda a rapidez, correu para a janela de seu quarto, a escancarou e pulou do primeiro andar. 

O impacto de seu corpo nas moitas do jardim aliviou a queda, mas não o livrou da dor de um tornozelo machucado e cortes por toda pele nua causados pelas plantas. A imagem de seu irmão tombado e ensanguentado ao lado de um martelo insistia em aparecer cada vez que ele fechava os olhos, mesmo assim ele levantou mancando e tremendo. Mais uma vez ele saiu correndo ao ouvir a janela se escancarar.

Embora fosse uma noite chuvosa, ele corria que nem um maluco desesperado para despistar quem quer que estivesse em seu encalço, quem quer que tinha matado seu irmão. A tempestade teimava em chicotear as casas e carros, as árvores sacudiam com o vento e todas as luzes jaziam apagadas deixando a iluminação natural da lua dar um ar fantasmagórico ao ambiente. Todos os ruídos da noite eram dissipados, exceto um deles: os passos fortes no meio de pequenas poças d’água.

Os pulmões de Alec queimavam e já tinha se tornado mais difícil de respirar, mas aquelas pisadas ainda estavam em sua cola, logo atrás dele e o pobre rapaz se recusava a virar para encará-lo nos olhos. O medo subia pela espinha e a visão começava a borrar, ele ainda não conseguia processar todas as informações daquela noite e para ele tudo era uma mancha grande e escura. Imagens rápidas de todo aquele sangue esguichando pelas paredes e de seu irmão caindo no chão surgiam como um turbilhão em sua mente.

Ele estava extremamente cansado e a dor do tornozelo subia pela perna, ele se sentiu obrigado a parar. Correu até um beco e se escondeu atrás de uma lata de lixo, estava ofegante e dolorido, colocou a cabeça entre as mãos e esperou pelo pior. Tudo que o rapaz escutava agora era seu próprio coração, alto e rápido. Suor e chuva cobriam ele da cabeça aos pés, ele começou a tremer de frio mesmo com a temperatura corporal alta. Após alguns minutos tentando processar tudo, ele finalmente percebeu a ausência de passos, estava sozinho e tinha despistado quem o seguia. Ainda de estômago embrulhado, ele se levantou e olhou atentamente para os lados aliviado, o tornozelo ardia e os pulmões pareciam pegar fogo.

Foi quando ele se apoiou na parede para pegar fôlego que tudo veio à tona. Ele apalpou os bolsos da calça procurando os remédios, olhou os dias da semana e, para sua surpresa e desespero, os de hoje estavam completos. Era difícil para Alec manter a sanidade sem eles, desde pequeno sempre teve os mesmos problemas, perdi completa noção de espaço e tempo, tinha blackouts, perdia horas na memória e não se lembrava de coisas que fazia. Assim que ele passou a respirar mais facilmente ele se forçou a lembrar, queria lembrar da noite toda. Tinha que se lembrar da noite toda. Era difícil se concentrar com toda aquela chuva, cada segundo que passava parecia que ela ficava mais violenta e ele não aguentava mais ficar ali.

De súbito se lembrou de agarrar o martelo com as próprias mãos e acertar direto na cabeça de Peter, uma, duas, três e quatro vezes. Ele afundou o rosto nas mãos em puro desespero. Lembrou-se do sangue esguichando e escorrendo pelas paredes. Ele não conseguia lidar com a própria consciência, a dor no tornozelo voltou forte e ele sequer sabia em qual beco estava. Deviam ser quatro da manhã e ele nem se atreveu a olhar para o telefone, não sabia o que fazer. Será que os vizinhos tinham escutado? E se tivessem, tinham ligado para a polícia? Alec não tinha escapatória. Ele se escorou na parede enquanto soluçava violentamente. Era tudo culpa dele, de mais ninguém. E agora nem tinha mais o que fazer.

Filme “Rocketman” e a busca pela essência

Texto por Ana Badialle

Elton John e Taron Egerton na première do filme (Foto: Getty Images)

“Você deve matar a pessoa que nasceu para se tornar a pessoa que você quer ser?”, diz um artista conceituado do estilo jazz e soul ao jovem Reginald Dwight, que decide então seguir o conselho e passa a se apresentar como Elton John. Essa passagem consegue refletir o que o filme “Rocketman”, lançado no Brasil dia 30 de maio de 2019, transpassa com sua narrativa. 

Rocketman trata-se de musical longa-metragem sobre momentos de ascensão e queda do músico inglês Elton Hercules John. O longa baseia-se em uma visão honesta e bem intimista para contar sua história que tem seu ponto de partida em uma sessão de terapia. 

Elton, interpretado por Taron Egerton, confessa seus problemas como alcoolismo, bulimia, vícios e dificuldades emocionais, e conta como ele precisa de ajuda para superá-los, revelando-o como um ser humano, que atrás das fantasias e acessórios extravagantes possui suas fragilidades, cicatrizes e dificuldades.

Como uma biografia, Rocketman não busca ser totalmente verossímil e próximo à uma realidade documental e, sim, muito mais uma visão proporcionada pelas lembranças e impressões que o protagonista possui de si mesmo. Seus momentos de queda acompanhados pelo uso de drogas, que agravaram seu conflito emocional e suas relações com aqueles que acompanham sua carreira e sua vida, é revelado sem pudor ou suavização.

Dessa forma, é possível notar uma interpretação, por parte de Taron Egerton, emotiva e sincera que colabora com o tom épico, exagerado e conflituoso que a biografia traz. Em diversos momentos, é intensificado valores como a criatividade e a liberdade proporcionadas pelas composições repletas de lirismo de seu parceiro musical, como compositor de suas letras e amigo próximo, Bernie Taupin, interpretado por Jamie Bell. O mesmo demonstra carisma ao estar sempre ao lado de Elton o apoiando em seu sucesso e em seus momentos de desequilíbrio, dando ao filme uma dose de companheirismo e compreensão. 

Além da experiência fílmica e biográfica, Rocketman possui sua relevância social em relação à representatividade LGBTQ+. Elton é uma figura pioneira e relevante para a diversidade. Atualmente ele vive com seu marido, David Furnish, e seus dois filhos, mas ele chegou a assumir sua sexualidade na década de 1980, momento em que havia enorme preconceito e intolerância, juntamente do surto do vírus HIV, que acarretou uma bagagem de ignorância maior ainda para cima daqueles que fugiam do padrão normativo imposto.

Por isso, o fato de existir um filme de sucesso celebrando uma pessoa tão icônica na luta contra o preconceito é essencial na atualidade. A cinebiografia não diminui em nenhum momento o impacto da sexualidade de Elton na sua vida, especialmente, na relação com seus pais, que dificilmente lhe deram apoio e suporte para enfrentar a discriminação e a dificuldade encontrada na época para não ser alvo de comentários e ações de ódio da maior parte da sociedade. 

Com isso, a falta de aceitação por parte da família, a impossibilidade de se sentir completo e a solidão são fatores profundamente explorados na história. É comum indivíduos LGBTQ´s sentirem dificuldade de se aceitar ou simplesmente compartilhar algo tão básico de sua vida com pessoas próximas, levando a problemas mais profundos como depressão, uso de drogas e outras doenças psicológicas decorrentes. O fato de isso ser mostrado de maneira honesta no cinema traz conforto e identificação para muitas pessoas, sejam elas parte da geração que viveu nos anos apresentados pelo filme ou mais novas, jovens que precisam de representatividade correta, que os ajudem a se compreender de maneira mais aberta. 

Rocketman dessa maneira cumpre seu papel como um musical empolgante, mas ao mesmo tempo, como uma cinebiografia que procura a essência de seu protagonista ao passo que a história avança e o artista se desprende de suas alegorias para ser mais honesto consigo e com sua arte. Como o próprio músico canta em um de seus sucessos “I´m still standing”, ele ainda está seguindo e livrando-se de seus medos, vícios e disfarces, como qualquer outro indivíduo que precisou se perder muitas vezes para finalmente se estabilizar como a pessoa que nasceu para ser. Pode soar clichê e exagerado, mas assim como seu filme e suas músicas, é verdadeiro. 

A conexão política e social proporcionada pelas músicas de protesto

Texto por Ana Luiza Badialle e Isabella Gemignani

John Sebastian foi o primeiro músico a subir no palco do Woodstock
(Foto: Autor desconhecido)

Sob o mantra “Três dias de paz e música”, o festival de rock, Woodstock, está fazendo 50 anos neste ano. O movimento ocorreu em 1969 em uma fazenda na cidade de Bethel, que é uma cidadezinha no estado de Nova Iorque. O evento reuniu mais de 400 mil pessoas e durou três dias. Com um vínculo fortíssimo com o sentimento de contracultura e, o Movimento Hippie, Woodstock adquiriu uma magnitude que não se imaginava na época, principalmente, entre os jovens que foram grandes protagonistas das mudanças e movimentos sociais da década de 1960.

Com isso, em questão de música, houveram grandes nomes como Jim Morrison, Janis Joplin, Santana, Jimi Hendrix, Joe Cocker, The who, entre vários outros artistas que fizeram história na música. O Woodstock foi protagonizado essencialmente por uma geração jovem engajada em transformações sociais, em uma mudança para uma sociedade melhor, com menos conflitos e guerras.

Por isso, momentos como esse e toda mobilização devem ser lembrados e celebrados ainda nos dias de hoje, afinal a arte como instrumento de protesto e reivindicação é uma das maiores armas contra a ignorância e a alienação de uma população. Com isso, vamos homenagear essas músicas e artistas que se preocuparam, acima de tudo, em usar sua arte como forma de defesa de seus ideais. Então, segue uma lista de músicas relevantes que possuem uma mensagem questionadora e política.

MÚSICAS

1943
Bella Ciao

Popularmente reconhecida por sua versão entoada pelos personagens de La Casa de Papel em momentos-chave da trama, Bella Ciao tornou-se um símbolo da luta dos partigiani contra o fascismo de Benito Mussolini e suas tropas durante a Segunda Guerra Mundial. A música representa o combate ao pensamento fascista.

1973
Money – Pink Floyd

“Money” critica o papel do dinheiro, promovido pelo sistema capitalista, que vai além de uma folha de papel, tornando-se a força motriz da sociedade e um combustível da vida, sendo responsável por garantir uma vida confortável ou mesmo com algumas luxuosidades. Contudo, há, ainda, o questionamento do clichê que afirma que dinheiro não compra felicidade e a dificuldade do desprendimento dos bens materiais, fazendo com que persista uma certa ambiguidade: seria o dinheiro, afinal, bom ou ruim? Ele deve “get away ou get back”? Cabe à interpretação individual a resposta dessas pergunta.

1986
Química – Legião Urbana

“Não posso nem tentar me divertir
O tempo inteiro eu tenho que estudar
Fico só pensando se vou conseguir
Passar na p*rra do vestibular”

Sintetizando todos os pensamentos do típico adolescente vestibulando em frente às pressões morais de passar no vestibular e cumprir o seu papel social de “ser alguém na vida” por meio do estudo, “Química” é uma crítica à lei da selva da sociedade, na qual os mais “adaptados”, “sobrevivem”. Para “ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão, ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão”, afinal, é preciso reduzir outras ambições e fazer o quê? Passar no vestibular.

1988
Fuck Tha Police – N.W.A.

Apesar de ser conhecida por todos e cantada por vários, o real significado dessa composição passa, muitas vezes, despercebida por muitos. Diante da brutalidade policial enfrentada pelos negros, embasadas em estereótipos racistas e de discriminação racial, o grupo N.W.A retrata, em “Fuck Tha Police”, 20 anos antes do surgimento do movimento Black Lives Matter (que defende o fim da violência direcionada aos afro-americanos), sua experiência em frente às injustiças, advindas da desigualdade racial do sistema de justiça criminal dos Estados Unidos. O tribunal de Dr. Dre, que criticava a opressão sofrida pela juventude negra décadas atrás, se estende até os dias de hoje, já que, segundo Black Lives Matter, a importância da vida dos negros “não é um momento, é um movimento.”

1989
Meninos e Meninas – Legião Urbana

“Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas”

Apesar de não fazer um questionamento dos ideais heteronormativos, ou sequer fazer uma crítica à estes, “Meninos e Meninas” retrata, explicitamente, a bissexualidade, em tempos que o debate sobre sexualidade e questões LGBTQ+ ainda eram tabus nas casas brasileiras.

1989
Burguesia – Cazuza

A classe dominante e sua inércia à mudanças são alvos de satirização em na música. A Burguesia, segundo Cazuza, “não repara na dor da vendedora de chicletes”, e enfrenta a dura realidade alheia, visando, apenas, a preservação de seus privilégios, como “ir a New York fazer compras.” Embora algumas pessoas nessa classe sejam “boas”, o cantor ainda defende que a burguesia fede e, ele, sendo burguês, cheira mal também. No entanto, ao se posicionar do lado do povo, Cazuza se desvincula da alienação da burguesia e sua ambição de, cada vez mais, acumular capital.

2018
Boca do Lobo – Criolo

Buscando a reflexão e discussão sobre os problemas da sociedade e sua atual fragmentação, Criolo aborda em “Boca do Lobo” os recentes acontecimentos na história sociopolítica do Brasil. Em seus versos, ele relembra o caso de Rafael Braga, preso por estar com uma garrafa de Pinho Sol, relata a hipocrisia da classe média e alta, que posiciona-se contra crimes – e, todavia, os comete -, expõe o perigo de se ter uma opinião no país (aludindo ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes), a realidade do precário sistema público de saúde e do problema das drogas em São Paulo, entre outras pautas contemporâneas. Além disso, o clipe de “Boca do Lobo” é repleto de referências subliminares e críticas incisivas, retratando ocorrências como o desastre de Mariana, a corrupção no meio político e o incêndio no Museu Nacional.

2017
Picture that – Roger Waters

Roger Waters (ex-baixista e vocalista do Pink Floyd) sempre foi um grande crítico da sociedade em que vivemos e, sempre deixou isso muito claro na construção de suas músicas, álbuns e até mesmo, shows. Em Picture That são feitas observações ácidas sobre o momento em que vivemos, da forma como nos relacionamos e somos alienados às questões humanitárias atuais, que não recebem a devida atenção como outras questões que podem ser consideradas fúteis em comparação à realidade vivida em zonas de guerra, por exemplo.

Como ele coloca quando canta:
“Sigam me filmando no show
Em um telefone de um assento na primeira fila,
Sigam a Miss Universo pegando um bronzeado
Wish You Were Here em Guantanamo Bay”

Ele faz referências à Guantanamo, uma província cubana localizada uma base naval estadunidense, que funciona como uma prisão militar dos Estados Unidos para detentos considerados perigosos, como terroristas. Não se sabe muito bem o que ocorre em Guantanamo, mas há sérias críticas ao fato de ser um local que não obedece aos direitos humanos, com registros de terem ocorrido graves abusos de forças contra os presidiários. Roger critica intensamente as atividades estadunidenses em relação à sua imposição mundial.

2018
Etérea – Criolo

Contestando totalmente os valores binários e heteronormativos da sociedade, Criolo em sua música Etérea, propõe uma perspectiva questionadora aos padrões de sexualidade e gênero impostos socialmente. Com isso, a música Etérea, juntamente de seu clipe, traz visibilidade à pessoas, tradicionalmente postas na margem da sociedade, além de estabelecer uma bandeira contra a ignorância e preconceito em sua poesia.

“É necessário quebrar os padrões
É necessário abrir discussões
Alento pra alma, amar sem portões
Amores aceitos sem imposições
Singulares, plural
Se te dói em ouvir
Em mim dói no carnal
Mas se tem um jeito esse meu jeito de amar
Quem lhe dá o direito de vir me calar?
Eu sou todo amor, medo e dor se erradicar
Feito sol que ilumina a umidade suspensa do ar”

2018
Brasil Colônia – Oriente, part. Fábio Brazza, Sant, Sid e Gog

“Desde Dom Pedro Primeiro que o Brasil é terceiro mundo
Desde Dom Pedro Segundo que ainda somos controlados por terceiros”
“Mas ninguém se importa se na favela vai ter cultura
Hoje o rap salva mais que a viatura”

De teor fortemente político, a parceria entre Oriente, Fábio Brazza, Sant, Sid e Gorg põe o dedo na ferida social da sociedade brasileira, ressaltando a importância da música – em especial, do rap – na comunidade e criticando a negligência do sistema, o racismo estrutural, a influência eurocentrista em nossa cultura, brutalidade policial, e outros problemas que configuram o Brasil novamente como uma colônia, com problemas que aparentam ser coloniais.

BÔNUS

2015
Reis do Agronegócio – Chico Cesar

Simplesmente uma das músicas favoritas do Bruno Joaquim, “Reis do Agronegócio” teve que ser inserida nessa lista, visto que ela questiona as reais consequências do agronegócio e seu uso de agrotóxicos, apropriamento de terras indígenas e quilombolas por meios ilegais (e consequente concentração de propriedade) e difusão de mitos acerca de seus benefícios. Ela desconstrói o fato de “agro ser pop” ao revelar a desumanidade em relação ao próprio meio ambiente, mesmo que esse propicie os produtos desse grande sistema.

A música está presente em nossas ações

A música, por fim, é parte do cotidiano de quase a totalidade dos indivíduos em nosso planeta. Ela transcende o espaço, a  língua e o plano denotativo para infiltrar o indivíduo em si e sua subjetividade. Nos últimos cinquenta anos – nos quais a música foi massificada e tornada uma moeda cultural – em frente à formação de formas de ativismo contemporâneas, a música configurou-se, também, como uma maneira de resistência e reivindicação de direitos, tornando-se bandeira de movimentos sociais.

Por isso, é importante sempre relembrar e valorizar essas músicas, não apenas como uma forma de entretenimento, mas, também, como uma forma de liberdade de expressão e, acima de tudo, de luta.