Conheça a história da ativista sueca que está mudando o mundo

Texto por Maria Theresa Velloso

Foto: AP Photo/David Keyton

O nome da ativista climática sueca, Greta Thunberg,  de apenas 16 anos, vem ficando cada dia mais conhecido. Na última sexta-feira, dia 20 de setembro, com mais de 4 milhões de adeptos à sua greve pelo clima, Greta e sua causa tornaram-se um dos assuntos mais globalmente aclamados, criticados e debatidos. Mas quem é Greta Thunberg? Qual o impacto dela no mundo?

Greta nasceu dia 3 de janeiro de 2003 na Suécia. Aos 8 anos de idade, em sua escola, onde sempre sentava-se quieta (diferentemente de hoje em dia), a garota foi introduzida ao assunto do aquecimento global.

Enquanto todos os seus colegas se preocuparam com o tema durante o filme passado em sala, e depois seguiram com suas vidas normalmente, Greta não conseguiu parar de pensar no que havia assistido. Ficou marcada para sempre pelo pânico e impotência que tomaram conta da criança quando descobriu que seu futuro e seus sonhos corriam o risco de jamais se tornarem realidade. Isso aconteceria simplesmente porque nada era feito em relação ao fim iminente da raça humana e do planeta Terra como o conhecemos.

Três anos depois, aos 11 anos de idade, o assunto persistia em perturbar a cabeça da menina diariamente, dando início a uma depressão que chegou ao ponto da jovem parar de ir à escola. Ela conta que não se sentia motivada, pois não acreditava que existiria um futuro para ela e sua geração.

Tudo fez sentido para pequena sueca ao ser diagnosticada com a Síndrome de Asperger (forma leve de autismo), principalmente sua preocupação além do normal com as mudanças climáticas, uma vez que os portadores têm uma maior tendência a ansiedade e a criar uma obsessão por um tema específico.

Thunberg abraçou seu diagnóstico e diz que a síndrome é seu “super poder”. Nós todos lemos incessantemente sobre guerras, injustiças sociais, animais em extinção, mas muitas vezes nada parece nos sensibilizar o suficiente para fazermos algo além de compartilhar a notícia no Instagram. Ter Asperger fez com que Greta não parasse de pensar na crise climática até prometer a si mesma que iria fazer absolutamente tudo que ela pudesse para salvar o planeta. 

Ao se abrir com os pais sobre sua depressão  e contar que temia pelo seu futuro, a filha conseguiu com que eles começassem uma dieta vegana e que a mãe (famosa cantora de ópera) parasse de viajar de avião frequentemente diminuindo a emissão de carbono da família.

Ver o impacto que teve ao conversar sobre as mudanças climáticas com os pais mudou a perspectiva pela qual a garota via o mundo. Ela sentiu pela primeira vez que poderia fazer a diferença e, então, viu uma luz no fim do túnel. Ela notou que o mundo que julgava estar condenado a um fim inevitável, poderia ter uma salvação: ela mesma.

Greta ganhou uma competição de redação sobre o clima, criado por um jornal sueco. Os vencedores da competição foram convocados para pensar em maneiras de conscientizar a população sobre o aquecimento global. Nessa reunião a ideia de fazer uma greve escolar (skolstrejk) foi vetada, mas não impediu Thunberg de colocá-la em prática, mesmo que sozinha. 

Foi o que ela fez no dia 20 de agosto de 2018 quando acordou as 8 da manhã e, ao invés de ir para a escola, dirigiu-se até o Parlamento Sueco segurando um cartaz com as três palavras que iniciaram um dos maiores movimentos atuais, formado por jovens que se recusam a perder seu futuro para mudanças climáticas. Essas três palavras eram “skolstrejk för klimatet”  que significa “greve escolar pelo clima”.

Foto: Janek SKARZYNSKI

No dia seguinte, ela foi até o Parlamento novamente, mas dessa vez acompanhada de várias outras pessoas que deram início a 21 dias de protesto, que duraram até as eleições suecas.

Sua vontade era que pudesse protestar até alcançar seu objetivo, mas sua mãe não estava disposta a deixar a filha abandonar a escola. Elas entraram em um acordo no qual Greta poderia faltar as aulas de sexta feira. Com isso, a estudante tornou-se a pequena faísca necessária para acender a luz do ativismo climático por todos os cantos do globo. Os protestos de sexta-feira para salvar o mundo se tornaram uma febre mais quente que o planeta e as hashtags #SchoolStrike4Climate e #FridaysForFuture (#GreveEscolarPeloClima e #SextasPeloFuturo) ficaram em evidência.

A ativista climática apenas pede que os países reduzam a emissão de gases de efeito estufa, que são os provenientes da queima combustíveis fósseis, como petróleo e carvão.

Em todos os seus discursos, Greta sempre fala implícita ou explicitamente o quanto é importante que os governos parem de restringirem suas boas ações ao meio ambiente no campo da teoria e comecem a realmente praticar a mudança no mundo. A presença do Asperger faz com que a garota identifique as mentiras com mais facilidade, ela mesma conta. Por isso ela continuará lutando até ver que os países estão verdadeiramente determinados a salvar o planeta.

Também já mostrou sua revolta diversas vezes contando que queria e deveria estar na escola, como uma criança normal. Mas, ao invés disso, precisou ir para as ruas e para o outro lado do oceano porque os governos não estavam cumprindo o seu papel em garantir-lhe o seu direito básico à vida.

Junto de 15 outros jovens ativistas, Thunberg processará cinco signatários do Tratado de Paris: Alemanha, Argentina, Brasil, França e Turquia, que através de emissões descontroladas de CO2 na atmosfera, estão infringindo os direitos das crianças à vida, paz e saúde, garantidos pela Convenção dos Direitos da Infância.

Alvo de crítica dos mal informados, o processo já foi considerado tendencioso ao deixar a China de fora, sendo este o maior emissor de carbono do mundo. O fato é que os dois maiores emissores de dióxido de carbono, China e EUA, infelizmente não podem ser processados, uma vez que o país americano não ratificou a Convenção e o país asiático não faz parte do Tratado de Paris.

Na Cúpula do Clima, 23 de setembro de 2019, em seu discurso conhecido como “How dare you?” (Como vocês se atrevem?) dado na sede da Organização das Nações Unidas, a ativista mostra que por dentro também é uma pequena menina assustada, ao perguntar com a voz trêmula como os governantes se atreviam a trocar o futuro da nova geração por “uma fantasia de eterno crescimento econômico” e deixar os jovens herdarem todos os desastres naturais que serão causados se o aquecimento global não for revertido imediatamente.

Ao longo do discurso deixou sua profunda decepção transparecer em sua voz, mesmo assim a garota fez questão de verbalizar o desapontamento, com a fala “os jovens estão começando a entender sua traição […] e se vocês escolherem falhar com a nossa geração, nunca iremos te perdoar

O maior empecilho é bem explicado pelo famoso cartaz em protestos pelo clima: “vocês vão morrer de velhice, eu vou morrer de mudanças climáticas”. Isso quer dizer que os governos continuarão fazendo negócios e políticas que os favorecem economicamente, mesmo que essas ações destruam o mundo, pois a consequências não serão para a geração deles, mas para a nossa.

Foto: Divulgação

Não pense que o governo é o único culpado nessa história. Ela pede para cada um de nós (inclusive você mesmo, leitor do Falajp) colaboremos para garantir nosso próprio futuro.

Portanto, enquanto ela vai para a ONU discursar, demandar mudanças, resultados, processar países, ser um exemplo para pessoas de todas as idades e julgar Donald Trump com seu olhar…

Foto: Reprodução

… Aqui tem uma breve lista do que você pode fazer para ajudar o planeta a se recuperar:

1- Proteger a natureza
2- Restaurar: A natureza pode ser regenerada, e você pode e deve ajudá-la.
3- Financiar: parar de financiar o que destrói a natureza, e investir o que preserva ela.
4- Votar em que defende a natureza
5- Falar sobre o tema
6- Participar de manifestações

Afinal, o próprio título do livro escrito por Greta já diz: Ninguém é  pequeno demais para fazer a diferença.

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Crianças morrem vítimas de balas perdidas, até quando?

Texto por Enrico Zanetti

Foto: Divulgação TVT

No dia 20 de setembro, uma tragédia acometeu o Complexo do Alemão no Rio de Janeiro. A menina Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, foi atingida nas costas por uma bala perdida e acabou não resistindo aos ferimentos, falecendo na madrugada do dia 21. Ágatha é vista agora como mais um número já que ela é a quinta criança a morrer por conta de violência, em 2019, na cidade do Rio de Janeiro. 

Após o fato, o Rio foi invadido por discursos de indignação e de insatisfação. Protestos contra a morte de Ágatha atingiram o solo carioca, convocados por vários movimentos sociais. Frases como “Parem de nos matar” preenchiam o céu cinza de um dia de luto no Brasil. Várias pessoas, em sinal de protesto, carregavam balões amarelos, uma referência a menina que foi fotografada com um mesmo balão. No Aterro do Flamengo, foram colocadas 57 cruzes e cada uma continha o nome de crianças que foram vítimas de balas perdidas.

A Organização não Governamental (ONG) Rio da Paz, que tem um trabalho de combate a violência por meio da defesa dos direitos humanos, apresenta uma estatística de mortes aterrorizadora no Rio de Janeiro:  2007, foram três; em 2008, duas; 2010, uma; 2011, duas; 2012, duas; 2013, três; 2014, duas; 2015, sete; 2016, 10; 2017, 10 e 2018, 10, e por enquanto em 2019, cinco. Ela que organizou a manifestação das 57 cruzes no Aterro do Flamengo.

Já a ONG Justiça Global, junto com o Movimento de Favelas do Rio, apresentaram à ONU uma denúncia contra o estado brasileiro e o governador do Rio de Janeiro, pela execução de Ágatha. Existem muitas críticas à Política de Segurança Pública carioca, parte delas surgem quando o Chefe do Estado, em suas falas, estabelece uma espécie de “Lei de Talião” como estímulo ao combate ao crime – olho por olho, dente por dente.   

O ano de 2019, além de Ágatha, outras quatro mortes foram geradas por bala perdida. Em fevereiro, Jenifer Cilene Gomez, uma garota de 11 anos, foi atingida por uma troca de tiros na Zona Norte do Rio de Janeiro e morreu antes de de ser socorrida. Kauan Peixoto, de 12 anos, morreu baleado em uma operação policial na comunidade da Chatuba enquanto tentava comprar um lanche. Foi o mesmo destino de Kauan Rozario de 11 anos. Todos com uma história em comum, uma bala perdida que achou uma vítima do Estado.

Ágatha não veio de Temiscira, onde é o lar das Amazonas, ela não tinha um bracelete a prova de fogo e nem o laço da verdade. Ela podia não ser a Mulher Maravilha, mas carregava consigo a inocência de uma criança e sonhava com uma vida melhor, mesmo sendo negra e pobre.

Ela podia não ser a Mulher Maravilha, mas agora ela é uma heroína e que nos tempos futuros escutemos esse nome como o nome de uma lei, de um acordo ou nos livros de história, e lembremos dela. Balas perdidas não trazem perdas apenas para familiares e amigos, mas para nação como um todo, onde perdemos jovens que poderiam construir um futuro melhor.

Foto: Arquivo pessoal

E como diz na música feita por MC’s, ADL, Choice & Negra Li Feat. Djonga & Menor do Chapa, “Favela vive 3”:

“Mais uma mãe revoltada, 
uma pergunta sem resposta. 
Como o policial não viu o uniforme da escola? 
Vinicius é atingido com a mochila nas costas
como vou gritar que a favela vive agora”

Uma referência a morte de Marcos Vinicius, 14 anos, outra vítima de bala perdida na cidade.

Todo herói é um herói

Texto por Ana Badialle e Enrico Zanetti

Em
Foto: Divulgação

No dia 5 de setembro, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, determinou que a história dos quadrinhos “Vingadores: A Cruzada das Crianças”, da Marvel, fosse recolhida da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, realizada no Riocentro. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito disse que a HQ de super-heróis tem “conteúdo sexual para menores”. Tudo isso porque dois dos personagens da saga são namorados e aparecem se beijando em uma das ilustrações do livro.

A ação do Prefeito do Rio de Janeiro fez com que o Ministro dia Toffoli, presidente do STF, se pronunciasse a respeito. “O regime democrático pressupõe um ambiente de livre trânsito de ideias”, explicou. Isso assegurou que o Prefeito não pudesse mais apreender livros que ele julgasse impróprios na Bienal. Na mesma seara o Ministro do mesmo STF, Celso de Mello, já havia enviado um duro recado a Crivella, em nota à jornalista Mônica Bergamo da Folha de S. Paulo. “Sob o signo do retrocesso, cuja inspiração resulta das trevas que dominam o poder do Estado, um novo e sombrio tempo se anuncia, da intolerância, da repressão ao pensamento, da interdição ostensiva ao pluralismo de ideias e do repúdio ao princípio democrático.”

“Vingadores: A cruzada das crianças” é o 66º volume da Coleção Oficial de Graphic Novels da Marvel, lançado no Brasil em 2016 pela editora Salvat, em parceria com a Panini Comics, que republica gibis no chamado “formato de luxo”. A história da HQ citada pelo prefeito do Rio envolve dezenas de heróis da Marvel em novas histórias e contextos. Wiccano e Hulkling, dois personagens da “Jovens Vingadores”, são namorados. Publicada originalmente nos EUA entre 2010 e 2012, a HQ chegou ao Brasil só em 2016 pela Salvat e não é direcionada ao público infantil.

Muitos declararam repúdio à atitude do Prefeito, que explicitamente colabora com a homofobia. “A atitude indica uma perigosa ascensão do clima de censura no país – flagrantemente inconstitucional – e traz a marca de um indesejável sentimento de intolerância discriminatória”, declarou Luiz Schwarcz, CEO e fundador da editora Cia. das Letras. Nesse contexto, o youtuber Felipe Neto, anunciou a distribuição gratuita de 14 mil livros com temática LGBT durante a Bienal.  Entre os títulos foram selecionados livros como Confissões de “Um Garoto Tímido, Nerd e (Ligeiramente) Apaixonado”, de Thalita Rebouças, “Arrase!”, de RuPaul e “O Mau Exemplo de Cameron Post”, de Emily M. Danforth. Todos foram embalados em plástico preto e vinham com o aviso de que o livro era “impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”.

Para o prefeito, as obras deveriam estar lacradas e identificadas quanto ao seu conteúdo, porém o ato da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro discrimina frontalmente pessoas por sua orientação sexual e identidade de gênero, ao determinar o uso de embalagem lacrada somente para obras que tratem do tema do homotransexualismo.

Porém, a aventura do Prefeito de impedir a venda fez muito bem para a Bienal do Livro. A editora Intrínseca viu as vendas de obras LGBT subirem entre 100% e 600%, a depender do título, em relação ao ano anterior. Planeta e Record também registraram aumento de vendas na casa de 70% e o selo Globo Alt, da Editora Globo, teve alta de 20%. O saldo de exemplares vendidos ainda não está disponível, mas os organizadores estimam o total em 4 milhões de livros.

Além de vender mais, o debate despertou na sociedade, ou pelo menos em uma parte significativa, que conceitos arcaicos e retrógrados devem repousar em um lugar que jamais deveria ter existido e nunca mais acordar. 

A literatura LGBTQ+, além de simbolizar resistência diante de manifestações homofóbicas, que é algo grandioso e político, é valiosa para que o próprio público possa ter a possibilidade tão simples e tão  banal para uns de identificação e criação de uma imagem longe de estereótipos, algo tão comum e tão presente nas buscas culturais, especialmente, do público juvenil. Tendo em vista a falta de representatividade presente, e se presente, baseada em estereótipos voltados para o sensacionalismo como divertimento do conservadorismo. 

Esse episódio que pareceu tão similar aos períodos nebulosos já vividos no Brasil, explicita o absurdo do pensamento conservador de boa parte dos líderes políticos, que é além de extremamente retrógrado, egoísta. Não há nenhum mal em possibilitar a uma minoria o sentimento de identificação para a construção de uma cultura afastada da violência. O preço pela falta de informação, cultura e educação sobre a diversidade sexual e de gênero é alto. Livros são fontes e referências. Referências são ideias e ideias não morrem ou sofrem violência, mas a Comunidade LGBTQ+ sim. 

Entenda os possíveis riscos dos cortes na Educação

Texto por Enrico Zanetti

Foto: Maria Eduarda Balbinot

Desde janeiro deste ano, estamos presenciando alguns desmontes de políticas públicas de inclusão. A educação é o setor mais atingido pelos cortes orçamentários do governo, que perdeu R$ 5,84 bilhões, que correspondem a 18,81% dos cortes em todas as outras áreas, conforme um estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC). O corte afeta, tragicamente, as políticas afirmativas, quando atingem financeiramente a política de bolsa-permanência no Ensino Superior e o apoio à infraestrutura no Ensino Básico.

A bolsa-permanência é um auxílio de R$ 300,00 para moradia e outros R$ 400,00 para outras despesas, além de créditos para almoçar no restaurante universitário. O programa, criado em 2003, beneficia a todos aqueles que ingressaram nas Universidades Federais que comprovem a baixa renda, além de indígenas, quilombolas e cotistas.

Já a verba de apoio à infraestrutura da Educação Básica é direcionada para avanço e adaptação das escolas públicas. Conforme divulgado pelo Censo Escolar 2018 do MEC, o cenário de infraestrutura no setor público brasileiro é devastador, apenas 42% das escolas de Ensino Fundamental tem quadra, 68% tem pátio e 11% laboratórios de ciências. Sem contar que 5% de todas as escolas públicas do país ainda não tem banheiro. A situação não é muito diferente nas escolas de Ensino Médio. Especialistas apontam que este corte só agravará os problemas aumentando o cenário de vulnerabilidade socioeconômica do estudante de baixa renda no Brasil.

Dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal apontam que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), por exemplo, teve quase R$ 1 bilhão ou 21% de seu orçamento congelado para 2019. O FNDE financia livros didáticos, transporte escolar e auxílio à formação de professores na educação básica.

Nas redes sociais, o debate em torno do desabastecimento financeiro na educação se deu principalmente entre as acusações de que era um corte, enquanto os defensores se opunham alegando simples congelamentos.

Em que pese as torcidas, ao final das contas, independentemente de corte ou congelamento, na prática faltará dinheiro, comprometendo o atendimento nessa área. Essa falta de dinheiro pode acabar comprometendo a educação como um todo e apresenta a possibilidade de desenhar um futuro muito temeroso para a educação no país.

Diante dos cortes a sociedade se mobilizou, estudantes e professores no Brasil foram às ruas protestarem contra a política do Governo Federal. Em 15 de maio, o Presidente da República chamou os manifestantes de “idiotas úteis” e afirmou que a maioria deles eram militantes, desprezando os anseios e preocupações da juventude.

O setor da educação foi o mais afetado, conforme gráfico abaixo disponibilizado pelo G1.

O biólogo Antônio Carlos Marques, professor titular do Instituto de Biociências da USP tem se dedicado a esta preocupação – “O impacto na ciência nacional será gigantesco. A desconstrução do sistema de financiamento da pesquisa nacional, que tem as bolsas de estudo para os estudantes como algo básico, custará ao País a perda de sua autonomia científica e técnica no futuro. Não se trata apenas de criar novos conhecimentos científicos, mas também de capacitar pessoas para transferir e adaptar essas descobertas para o bem da sociedade. Esse desestímulo levará à perda de uma geração de potenciais cientistas, algo irrecuperável para uma nação que quer ser desenvolvida”,

Sobre o assunto o historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leandro Karnal diz que até as gerações futuras sentirão os efeitos, “Acho que salvar a economia é muito importante, mas nós temos que salvar com os passageiros e não apenas com o barco”. Ele lembra também o que disse Mario Sérgio Cortella de que a “educação está fora por um contingenciamento da Constituição”.

Explica ainda a diferença entre atividades meio e fim. “Educação e saúde são atividades fim do Estado, portanto, não devem ser comprometidas com as políticas de contenção de gastos. Se você comprometer atividade fim do Estado, você está comprometendo toda a próxima geração”, afirma o historiador.

Dessa forma fica uma reflexão sobre como o governo irá atuar futuramente sobre este assunto, se irá piorar ou melhorar, mas atualmente a reflexão que Paulo Freire lecionava acaba sendo uma boa análise, quando ao analisar as políticas públicas de viés totalitário disse que “seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Talvez seja esse o plano. 

A importância da proteção contra as ISTs e outras doenças sexuais

Texto por José Vitor Giusti

Arte: Richet

Proteção é uma palavra forte que é pouco utilizada entre os jovens de hoje em dia. Muitas doenças e infecções sexualmente transmissíveis são cada vez mais constantes entre os adolescentes. Uma das causas é pela falta de informações sobre como se proteger. 

O Ministério da Saúde passou a adotar a terminologia Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) em substituição à expressão Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), pois destaca a possibilidade de uma pessoa ter e transmitir uma infecção, mesmo sem sinais e sintomas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que é uma agência especializada em saúde subordinada pela ONU, o índice de contágio dobrou entre jovens de 15 a 19 anos, passando de 2,8 casos por 100 mil habitantes para 5,8 na última década. Nosso objetivo é apresentar as doenças e infecções sexualmente transmissíveis mais recorrentes entre os adolescentes, como elas ocorrem, os sintomas e como podem ser prevenidas.

Herpes Genital

É causada pelo herpes simples e pode ocorrer nos dois sexos. Seus sintomas são dor, coceira na pele e alguns ferimentos nos primeiros momentos pela formação de úlceras e crostas. A Herpes Genital não tem cura, mas pode ser controlada através de medicamentos. Essa doença pode ser prevenida simplesmente com o uso de preservativos nas relações sexuais.  

Gonorreia

A gonorréia é uma das ISTs “menos graves”, porém uma das mais difíceis de detectar por ter poucos sintomas, algumas vezes até nenhum. Os sintomas são de dor ao urinar e secreção anormal do pênis ou da vagina. Os homens podem sentir dor testicular e as mulheres, dor pélvica. A Gonorreia tem cura e, com o uso de antibióticos, a doença pode ser amenizada em poucas semanas. A prevenção também é o uso de preservativos em relações sexuais. 

Sífilis

É considerada uma doença rara que se desenvolve em estágios. O primeiro sintoma é uma ferida indolor na genitália, no ânus ou na boca. O segundo estágio é caracterizado por irritação na pele. Depois, não haverá mais sintomas até o último estágio, que pode ocorrer só anos mais tarde, causando danos no cérebro, nervos, olhos ou coração. A Sífilis tem cura, é tratada com penicilina e os parceiros sexuais também devem fazer o tratamento. A doença pode ser prevenida com o uso de preservativos em relações sexuais e evitando contato com sangue infectado. 

Clamídia

É uma doença que geralmente afeta mulheres jovens, mas também é possível de ser adquirida por homens em alguns casos. Os sintomas são de dor genital e secreção pela vagina ou pênis. A clamídia tem cura e durante o tratamento é recomendado que o paciente afetado e seus parceiros façam uso de antibióticos.

HPV

O papilomavírus humano, também conhecido como HPV, é a IST mais comum. Algumas pessoas com a infecção acabam não desenvolvendo nenhum sintoma, mas continuam podendo infectar outros indivíduos pelo contato sexual. Os possíveis sintomas são verrugas nos órgãos genitais e na pele circundante. Não há cura para a HPV, mas as verrugas podem desaparecer por conta própria e o tratamento tem como objetivo eliminá-las. Ela pode ser prevenida através de uma vacina para impedir alguns tipos de HPV com maior possibilidade de causar verrugas genitais e câncer cervical.

AIDS

O vírus da AIDS, sendo um dos mais conhecidos e temidos pelos jovens, pode ser transmitido pelo contato com sêmen, sangue ou fluidos vaginais infectados. Os primeiros sintomas depois da infecção do vírus HIV são como os da gripe: febre, dor de garganta e fadiga. Perda de peso, febre ou sudorese noturna, fadiga e infecções também são recorrentes em quem possui a doença. A AIDS não tem cura, mas tem um tratamento de adesão estrita aos regimes antirretrovirais, também conhecido como coquetel, que pode retardar o progresso da doença e prevenir infecções secundárias e complicações. A AIDS pode ser prevenida com o uso de preservativos nas relações sexuais.

Um fator muito curioso entre todas as doenças citadas na matéria é o fato que a principal causa de transmissão das ISTs seja pela falta de uso de preservativos nas relações sexuais. Isso faz com que a vida sexual de tantos jovens seja afetada pela falta de prevenção, por falta de informação e por ainda ser considerado um tabu. Por isso, para que todos os jovens possam ter relações de maneira tranquila, os garotos devem procurar um urologista e as garotas um ginecologista para se informarem sobre sexos seguros e se prevenir para não sofrer com nenhuma IST futura.

Instagram tira números de curtidas e incentiva usuários a tirarem as máscaras também

Texto por Melissa Alfinito

Foto: Justin Sullivan/Getty Images

A forma como as pessoas se relacionam atualmente nas redes sociais tem se transformado em um comportamento cada vez mais intenso e vazio. Se por um lado muitas pessoas utilizam o meio virtual apenas para propagandear produtos ou para se informar, por outro, há aquelas que se envolvem na rede para criar imagens que nem sempre ilustram a realidade. Quando pensamos em exposição de personalidade não consideramos o lado negativo e também não esperamos ver abertamente esse compartilhamento de outras pessoas. 

Por isso, a internet se tornou um ambiente onde todos, ou quase todos os usuários, criam máscaras para se apresentar publicamente esperando se encaixar em um padrão surreal que a rede e a sociedade exigem. Podendo também essa máscara ser chamada de “persona”, o psiquiatra Carl Jung a define como “originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma, quando, na realidade, não passa de um papel”. Além disso, Jung a coloca como essencial para a construção da imagem em ambientes formais onde precisa-se de um comportamento mais controlado. Um exemplo é não se comportar em um ambiente de trabalho como se comporta em uma festa com amigos, utiliza-se a persona para moldar sua individualidade e se apresentar de maneira pertinente.

O problema começa quando quem põe essas máscaras esquece de tirá-las e a imagem inventada se transforma numa personalidade irreal fixa. Esse problema piora quando é percebido nas redes sociais. Inegavelmente, qualquer um que é usuário do mundo virtual nota a quantidade de pessoas que forçam imagens, corpos e vidas perfeitas para atrair seguidores e “likes”, ou para evitar que a atenção chamada seja negativa atraindo julgamentos causados pelo estranhamento de ser puramente real. A invenção de uma vida perfeita não prejudica só quem finge, mas também quem evidencia e acompanha essas realidades distorcidas, pois esse comportamento se torna uma espécie de regra que faz usuários duvidarem de sua própria essência e personalidade, incentivando-os a tentar mudá-las para se encaixar no padrão.

Mas, finalmente, algo foi feito e o começo de um resultado positivo foi despertado pela ação do Instagram de tirar a visualização das curtidas nos posts. Agora, apenas quem posta a foto ou o vídeo pode ver quantas pessoas “deram like”. Mesmo sendo algo pequeno e ainda sendo possível ver números, é uma boa iniciativa para quebrar a obsessão pela atenção e pelo desejo de agradar, pois muitos usuários já perceberam a vantagem da mudança e comentaram sobre o impacto positivo.

“Nós queremos que seus amigos foquem nas fotos e vídeos que vocês compartilham não em quantas curtidas recebem. Você ainda consegue ver os “likes” das suas fotos clicando na lista de pessoas que curtiram mas seus amigos não.”
“Opinião não-popular: O Instagram tirar as curtidas é uma ótima ideia. Muitas garotas (inclusive eu) se comparam com outras baseadas em quantas curtidas recebem. Dane-se isso. Vocé é linda sendo você mesma e a quantidade de “likes” não pode te tirar isso. Ponto final.”

Já passou da hora de deixarmos essa sede por números de lado. Nós classificamos corpos e vidas de acordo com imagens postadas e isso é muito perigoso! Vamos viver o real e aproveitar o agora sem numerar ou nos preocupar com quantos “likes” a foto que você postar vai ter. Não compare suas qualidades e a sua beleza com a dos outros, cada um tem sua singularidade e curtidas em fotos não fazem ninguém ser melhor que ninguém!

As várias faces do projeto de Criminalização da LGBTFobia

Texto por Ana Luiza Badialle, Anita Scaff, Beatriz Freitas e Caio Gomes

Foto: Reprodução

Em fevereiro, o Supremo Tribunal Federal iniciou o processo de julgamento do Mandado de Injunção 4.733 e da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão 26, nos quais, em outras palavras, possibilitam obter provimento que conduza à “criminalização específica de todas as formas de homofobia e transfobia”. O projeto de Criminalização da LGBTfobia foi aprovado na última semana (13), trazendo, simultaneamente, críticas e glorificações de grupos distintos. A seguir, entenderemos o porquê de tal ação ser um grande avanço na conquista dos direitos LGBT, mas críticas devem ser tecidas, de qualquer modo.

O que é LGBTfobia? E por que a criminalização da LGBTfobia é importante?

LGBTfobia faz referência a qualquer ato ou manifestação de ódio ou rejeição a homossexuais, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, baseado somente em sua orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Atualmente, a situação na qual a comunidade LGBT se encontra não é a das mais desejáveis, tendo direitos básicos negados em diversos países do mundo e, isso somado a violências e discriminações diárias sofridas pela comunidade.

Quanto ao  Brasil, no dia 8 de fevereiro de 2019, o Grupo Gay da Bahia divulgou um relatório sobre  violência contra LGBTs no país. Os dados são referentes ao ano de 2018, em que foram registradas 420 mortes – por homicídio ou suicídio decorrente da discriminação – de integrantes da população homoafetiva e transexual. O relatório mostra que, desde 2001, houve aumento significativo no número de mortes de LGBTs causadas pela discriminação. Naquele ano, registraram-se 130 óbitos. Em 2008, foram 187. Já em 2017, atingiu-se o número recorde de 445 mortes.

São poucos os países em que a união civil entre pessoas do mesmo gênero é permitida e, em ainda menos países, há proteção constitucional dos direitos da comunidade. Segundo relatório elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais, divulgado em março de 2019, vinte e seis países reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo; 27 regulamentaram as uniões civis; e 72 nações têm leis que protegem gays e lésbicas contra a discriminação no trabalho. Apenas 39 países têm normas que punem o incitamento ao ódio, a discriminação e a violência contra uma pessoa por causa da orientação sexual, e 28 permitem que gays e lésbicas tenham acesso à adoção.

No entanto, em outros países do mundo, a situação é ainda mais crítica. Em locais como Iêmen, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Mauritânia, Qatar, Nigéria, Somália, Sudão e Emirados Árabes Unidos, ser LGBT é um crime cuja punição é pena de morte. Em outros 60 países do mundo, ainda é crime ser LGBT e, as punições incluem chicotadas, prisão perpétua de até 20 anos e apedrejamento até a morte. Desse modo, fica claro como a criminalização da LGBTfobia é necessária e urgente.                        

Sobre A Proposta

O projeto (PL 672/2019) foi aprovado na última semana, com 8 votos a favor e 3 votos contra. A proposta consiste em uma interpretação da Lei do Racismo que inclua crimes que envolvam LGBTfobia, uma vez que ainda não existam legislações próprias para o assunto. O autor do projeto é o senador Weverton Rocha (PDT-MA), mas a versão aprovada é a do relator Alessandro Vieira (Cidadania-SE). As punições incluem reclusão de um a três anos e pagamento de multas para aqueles que discriminarem qualquer indivíduo por orientação sexual ou identidade de gênero. Não permitir o acesso ou atendimento a essas pessoas em estabelecimentos comerciais, impedir suas manifestações de afeto em público, demissão ou não aceitação em empregos e negação de promoções por preconceito são alguns dos fatores que promovem tais punições. No entanto, em estabelecimentos religiosos, as punições são descartadas pois, de acordo com o relator, “não se pode invadir um templo religioso para fazer coisas que aquela religião não aceita”.

Problemáticas do #CriminalizaSTF

O STF está fazendo um julgamento de duas ações ligadas à LGBTfobia que foi solicitada por um grupo de movimentos. Os pedidos são que o STF considere que a Câmara e o Senado, ou seja, o Legislativo, foram omissos ao não julgar esse tema antes; e também que ele assuma a missão de resolver essa questão, dando uma nova interpretação para uma lei que já existe – a de racismo – visto que ele não pode criar leis, sendo seu único poder regular a aplicação das já existentes. Com isso, surge uma série de problemas que devem ser analisados.

Primeiramente, é preciso entender que, como dito antes, o STF não vota leis. Uma vez que isso é função do Legislativo, da Câmara dos Deputados e do Senado, não cabe ao STF propor leis, e, portanto, não há nenhuma lei a ser votada, construída ou aprovada.

Além disso, o fato de ter sido considerado um pedido omitido anteriormente abre um precedente perigoso, que pode fazer com que grupos de interesses se sintam no direito de levar para o STF toda pauta que não conseguirem vencer no congresso.

Além de que, ampliar a lei de racismo, inserindo a questão da LGBTfobia, é considerá-la um tipo de racismo. Isso trará problemas futuros no entendimento jurídico sobre a distinção de racismo e LGBTfobia, com desafios muito sérios no processo de elaboração de políticas públicas de combate a ambas.

Ademais, as leis que punem racismo no Brasil só tipificam a injúria racial, que são ofensas, xingamentos e incitação ao ódio, e os casos de discriminação racial, que na lei nada mais é do que o tratamento discriminatório em estabelecimentos comerciais e serviços públicos. Dessa forma, a lei da LGBTfobia não incluirá casos de agressão física, lesão corporal e assassinatos.

Por fim, deve-se lembrar que a lei do racismo já existe há 30 anos e foi responsável por poucas mudanças nas relações raciais no Brasil, o que nos leva a pensar que, se ampliar essa lei, incluindo a LGBTfobia, terá o mesmo efeito. A questão é que a ideia de criminalizar a LGBTfobia é boa, mas o modo como estão pedindo ao STF pode gerar mais problemas futuramente, se não for trabalhado com cautela.

Significado para os LGBTQs

Apesar de não ter sido efetuada de modo ideal, a criminalização da LGBTfobia representa um respaldo para a Comunidade LGBT quando trata-se de sua discriminação, algo que gera um reconhecimento maior das necessidades próprias de uma minoria. Como já mencionado antes, ser uma pessoa LGBT inclui uma série de dificuldades e desafios trazidos pela sociedade majoritariamente conservadora, oferecendo riscos e situações não vividas por quem não pertence à uma minoria social.

Por isso, a necessidade de haver um recurso que tipifique o tipo de agressão sofrida, especificamente, por quem foge às normas cis e heteronormativas, é relevante e representa um passo no reconhecimento dos direitos LGBT´s que também são direitos humanos necessários para a construção de uma sociedade mais justa. Portanto, apesar das problemáticas trazidas pela forma como foi realizado o processo, o reconhecimento da LGBTfobia pelo STF é um pequeno avanço dentro de um período com uma onda tão conservadora e perigosa para os LGBT´s.

Por fim, é importante ressaltar que mesmo já tendo ocorrido uma maior aceitação e normatização da Comunidade, isso não é uma regra para todas as realidades e locais, o preconceito é algo que precisa ser constantemente enfrentado e questionado. Mas não importa se você é afetado ou não por ele, qualquer tipo de discriminação representa um retrocesso que deve ser essencialmente combatido. Pense nas outras pessoas, nas outras realidades, considere além de suas dificuldades, pois ser parte de uma minoria requer apoio para que se possa viver plenamente com seus direitos.