Dois mil seiscentos e sessenta e seis anos de solidão

Texto por Rafael Amin

Arte: Heloísa Dardaque

Faltam-nos palavras para descrever a América Latina, por isso, apropriamo-nos do fantástico. Essa é uma das teses defendidas por Gabriel Garcia Márquez, em seu discurso “a solidão da América Latina”, proferido na cidade de Estocolmo em ocasião do Prêmio Nobel de Literatura. Nele Gabo traça a história das representações pós-colonização da nossa América, colocando o fantástico como centro de todas elas. Dos mapas dos colonizadores, repletos de criaturas mitológicas, às lendas de terras paradisíacas, como a cidade lendária de El Dorado, tudo isso tem o mágico como elemento central, e, segundo Garcia Márquez, esse mágico tem relação direta com nossa solidão.

A solidão é o tema central de toda obra de Gabo, e ela se se encontra de duas maneiras. A primeira é a solidão política, a qual é fruto do processo de colonização da América Latina, que, segundo o autor, teria nos condenado ao esquecimento em prol na narrativa eurocêntrica. A segunda é uma solidão mais íntima, nostálgica, fruto de mudanças rápidas as quais fazem o passado recente parecer distante, no caso de Garcia Márquez, que, por sua vez, reflete um contexto geral da América Latina, esse segundo tipo se encontra na relação por vezes contraditória entre infância na zona rural e a atual vida urbana. Essas solidões se mesclam de maneira brilhante em seu romance mais importante, “Cem anos de solidão”.

O livro conta a história da cidade de Macondo, do seu nascimento ao seu fim. Nos habitantes dessa típica cidade cidade de interior latina conseguimos encontrar a solidão individual, e seus vícios, crenças, personalidades e sofrimentos são imagens muito vivas no consciente coletivo latino, por mais que eles sejam de uma realidade já perdida. A solidão política está presente na própria história da cidade, por contar a sua formação, seus conflitos de classe e o inevitável final apocalíptico de Macondo. Gabo aponta que todas as relações entre os países da América Latina com os do chamado “primeiro mundo” foram desiguais, com as demandas latinas rapidamente caindo em esquecimento. Entretanto, a mensagem política de “Cem anos de solidão” não necessariamente é uma pessimista, e isso se dá pelo uso do realismo fantástico.

O filósofo Ludwig Wittgenstein conclui, em seu livro “Tractatus logico philosophicus”, que os limites do mundo são os limites da linguagem do observador, assim, a linguagem do fantástico seria muito mais que apenas linguagem, seria uma condição epistemológica. O fantástico é a linguagem do mito, é a linguagem da “Odisseia”, da “Eneida”, da “Jornada ao Oeste” e da “Divina Comédia”, ou seja, é tipo de linguagem que funda uma nação. O realismo fantástico é apenas a evolução natural, em um contexto cada vez mais secular, desse tipo de linguagem, desse modo, “Cem anos de solidão” seria um novo tipo de mito fundador, aquele específico para o contexto pós-colonial, e nesse mito estaria a esperança da obra. Se toda nossa história fora contada pelos nossos colonizadores, se nossa visão de mundo e estética são influência direta deles, Gabo, criando um novo mito fundador, convida-nos a olhar a realidade de uma nova, uma forma nossa, latina, fantástica, para, assim, dar “as estirpes condenadas a cem anos de solidão uma segunda oportunidade sobre a terra”.

Mas a modernidade falhou com a América Latina.

Ditaduras militares, narcotráfico, violência urbana, massacres de campesinos a mando de latifundiários e grande desigualdade social. Nesse contexto, a linguagem fantástica parece imprópria para entender a realidade, e isso fica claro em outro romance de García Márquez, “O outono do patriarca”. O livro propõe contar a história de um típico ditador latino, solidário e impotente sem apoio do império ianque. Gabo falou em diversas entrevistas que esse ditador era uma metáfora para sua própria condição como escritor, desse modo, ele propõe uma leitura apoiada na solidão individual e ela funciona, mas, deixando a metáfora de lado, a leitura política do livro é bem fraca. A linguagem fantástica, repleta de lirismo, desmerece a violência do romance, ela funciona como um paliativo para um assunto cruel e pesado. Em tempos de violência e de opressão, a realidade perde seu aspecto fantástico, tornando-se visceral.


O realismo visceral é um movimento literário fictício criado pelo escritor chileno Roberto Bolaño no seu romance “Os detetives selvagens”. O livro trata sobre sobre jovens poetas (justamente o grupo dos realistas viscerais) lidando com a realidade mexicana, e em momento algum descreve o que seria essa estética, mas entende-se que o próprio romance tenha sido escrito com ela em mente. Assim, com base na estrutura e no conteúdo do livro, poderíamos entender o realismo visceral como, formalmente, o pesadelo, diversas vozes que juntas criam um labirinto angustiante de subjetividade, e seu conteúdo é o poder, principalmente nas formas do sexo e da violência (termos que no romance muitas vezes se misturam). Mas se o realismo visceral é apresentado em “Os detetives selvagens”, essa estética realmente atinge seu ápice no livro mais importante de Bolaño, “2666”.

“2666” são cinco romances que juntos criam um todo. O primeiro deles, “A parte dos críticos”, apresenta um grupo de intelectuais europeus que, procurando um escritor alemão desaparecido, acabam visitando a (fictícia) cidade mexicana Santa Teresa. Essa cidade é o palco de todo horror da obra, e este se apresenta de duas formas. A primeira é, talvez em um diálogo com a solidão individual de Gabo, a do horror subjetivo, aquele fruto da paranoia e da incerteza de viver na realidade latina. Esse tipo está presente no segundo romance, “A parte de Amalfitano”, e no terceiro, “A parte de Fate”, ambas partes que tratam da relação direta entre os personagens que nomeiam os livros e o meio no qual eles estão inseridos.
Já o segundo horror é um horror político. Diferentemente da solidão política de Gabriel Garcia Márquez, o horror político de Bolaño não se sustenta no esquecimento, mas sim na indiferença.

A quarta parte de “2666”, “A parte dos crimes”, narra uma série de assassinatos de mulheres que ocorreram em Santa Teresa, e é nessa parte que se encontra a grande tese do livro. Entretanto, antes de abordarmos essa tese, precisamos, novamente, falar sobre linguagem.

A quinta e última parte do romance trata justamente do escritor alemão desaparecido mencionado no primeiro romance, e ela é a única parte que não se passa em Santa Teresa. Com isso, Bolaño coloca o escritor, aqui sinônimo de poesia, alheio à realidade latina, e esse é o significado do realismo visceral. O lirismo é exterior, estrangeiro, nossa realidade é suja e precisamos lidar com ela todos os dias, reconhecer isso é reconhecer um novo tipo de linguagem, e é esse novo tipo de linguagem que torna a quarta parte genial.


São cerca de 300 mulheres mortas, algumas abusadas antes, e cada caso é detalhadamente narrado. Tanto detalhamento, entretanto, cria uma sensação estranha de banalidade, e se ficamos chocados no primeiro assassinato, acostumamo-nos no décimo, e no centésimo já estamos indiferentes. Isso é doentio. O livro, por meio do realismo visceral, desumaniza-nos, torna o sofrimento, a angústia e a morte do outro uma coisa banal, e a genialidade de Bolaño é nos fazer perceber que isso não acontece apenas na ficção. O capitalismo imperialista criou, no assim chamado terceiro mundo, uma sociedade doente, uma na qual a própria morte é tão comum que não nos choca mais, uma na qual autoridades acham normal falar coisas como “alguns vão morrer, lamento, é a vida”. Isso não pode ser normal, e o diferencial de “2666”, e do realismo visceral como um todo, não é apenas falar isso, é nos fazer sentir, por meio da linguagem, todo o absurdo da realidade.

Assim sendo, o realismo visceral é convite a um novo pensar epistemológico para a realidade latina, um que precisa o quanto antes ser aceito para então ser superado. Se o fantástico, linguagem de Gabo e de tantos outros escritores do Boom latino americano, é um paliativo para a realidade, Bolaño, com suas obras, tenta mostrar a doença tal como ela de fato é, afinal, parodiando uma frase de “Os detetives selvagens”, toda a realidade que se vende como fantástica na América Latina acaba como visceral.

Avatar: o tesouro perdido

Texto por Guilherme Penninck

Quem nunca sonhou em ter superpoderes? Se você nunca pensou nisso, infelizmente, não podemos mais ser amigos. Piadas à parte, “Avatar: a Lenda de Aang” é uma das melhores, se não a melhor animação já feita na história. Ao mesmo tempo que possui uma pegada leve e descontraída sobre a aventura do Avatar, o ser mais poderoso daquele magnífico universo, a obra mostra, de maneira realista, os impactos da influência que exercemos sobre os outros e como cada atitude conta.


O início da jornada tem um tom bem infantil,principalmente, pelo fato de o grupo principal ser constituído por crianças, enganando a maior parte dos telespectadores, entretanto, conforme a série avança, mais e mais nos vemos angustiados pelas decisões que nossos protagonistas devem ter, pois sabemos o impacto de cada escolha e como isso pode mudar totalmente o rumo daquele mundo que, apesar de mágico, foi tomado pelas sombras das chamas.


É impossível não se apegar a Aang, o Avatar. Tudo que ele mais sonhava era ser um garoto normal, com amigos normais, vivendo uma vida normal, infelizmente, seu sonho se tornou tornou-se impraticável após ele descobrir que era o Avatar. Sabendo agora que o mundo estava em suas mãos, sua única escolha foi abraçar a causa e experienciar um amadurecimento sintético, ou seja, ele não amadureceu com o tempo e com suas experiências, e sim se forçando a agir como um adulto.


Com uma direção impecável e um ritmo que se mantém impressionantemente bem durante toda a série,além de uma trilha sonora cativante, o programa ainda apresenta um majestoso desenvolvimento de todos os personagens, fazendo com que, e ao se chegar ao clímax da aventura, quem está assistindo tenha um sentimento profundo de nostalgia e saudades de quando tudo na vida do Avatar era mais simples.


Em suma, “ Avatar: A Lenda de Aang” é um ótimo passatempo, ainda mais nos tempos em que estamos vivendo. Caso queira experienciar uma épica jornada com destaque nos personagens e seus motivos, com magias incríveis e músicas extraordinárias, Avatar é para você. Garanto que você não será o mesmo após terminar.

O que podemos aprender com Chiquititas

Texto por Guilherme Penninck

7 anos atrás, a emissora SBT propôs-se a fazer uma refilmagem da série argentina Chiquititas. Nessa quarentena, eu me propus a assistir a esse programa e dele tirei alguns ensinamentos para a vida.

Bem no começo, são apresentados três garotos de rua: Mosca, Binho e Rafa. No desenrolar da história, eles passam a viver no orfanato que, inicialmente, era só para garotas resultando em uma certa rivalidade entre meninas e meninos, algo comum dada a idade das personagens, entre 8 e 14 anos. Entretanto, esse embate demonstra ao público como o machismo é estrutural em nossa sociedade, pois mesmo os garotos não tendo pais, e vivendo nas ruas desde que se entendem por gente, todos proferem bordões machistas, como que lavar a louça é coisa de menininha, entre outros. Ou seja, eles aprenderam tais ensinamentos com a sociedade, ninguém disse para eles diretamente o que era coisa de menino e o que era de menina, essa visão misógina foi passada pela sociedade em si, eles apenas imitaram comportamentos comuns que viam no seu cotidiano

A série possui um bom desenvolvimento de personagem, até porque são 545 episódios. É bem satisfatório olhar um personagem no final do programa e comparar com sua primeira aparição. Ao longo da estadia dos meninos no orfanato, cada vez mais, os garotos aprendem a lidar com seus sentimentos e a superar sua masculinidade frágil.

A figura materna, desempenhada por Carol, uma das funcionárias do orfanato, também é fundamental para o crescimento individual de cada um, pois ela está sempre disposta a ensinar e até mesmo repreender, se necessário, atitudes que não se encaixam mais no contexto social que vivemos. Durante toda a série, mostrou-se alguém competente e independente, sempre dando seu jeito sozinha, até mesmo quando injustiçada, ela foi demitida por ser mulher, por exemplo, mas não se deixou abalar e deu a volta por cima, um verdadeiro exemplo de empoderamento feminino.

Outro fator muito importante na caminhada dos meninos para abandonar seus velhos hábitos e, consequentemente, a masculinidade tóxica, é o cozinheiro do orfanato, Chico, este que tem um papel fundamental como figura paterna, um homem na terceira idade o qual, em sua longa caminhada, entendeu seus erros e pôde convertê-los, sendo, constantemente, retratado como uma pessoa sábia que claramente já passou por uma desconstrução tentando, de todas as formas possíveis, passar tal sabedoria para os garotos.

Chiquititas, apesar de ser uma série voltada para crianças, traz consigo importantes ensinamentos e lições de vida, passando uma mensagem positiva sobre a desconstrução do machismo e do que é ser homem. A série mostra que nós, homens, temos muito a aprender com as mulheres.

O mito de Peanuts

Texto por Rafael Amin

Foto: Filme “Um garoto chamado Charlie Brown”, retirada do site Crosswalk.com

Estampados em camisas, cadernos, lancheiras, sapatos e até mesmo em cafés, parece que o Snoopy, o Charlie Brown e os outros personagens de Peanuts são hoje muito mais reconhecidos pela marca que eles se tornaram do que pelo trabalho artístico de seu criador Charles Schulz. Enquanto a Mafalda é conhecida pela sua carga política, Calvin e Haroldo pelo seu forte teor imaginativo, pouco se fala sobre a tirinha de Schultz, o que é uma pena, pois vários temas interessantes podem ser encontrados em Peanuts, principalmente, quando falamos sobre o absurdo.

O absurdo é um dos conceitos fundamentais do filósofo franco-argelino Albert Camus. Segundo Camus, o absurdo seria uma eterna contradição entre o ser humano e o mundo que o cerca, um divórcio entre nossa vontade de encontrar algum sentido no universo e o universo em si, que é desprovido de sentido. Tomando consciência do absurdo, Camus, em seu livro “O mito de Sísifo”, explicita o que ele considerava a questão fundamental de toda a filosofia: por que deveríamos continuar vivendo? Afinal, se o universo é sem sentido, se o desejo fundamental de plenitude dos seres humanos é insaciável, se em uma escala cósmica daqui a poucos anos ninguém lembrará de nós, por que deveríamos continuar a existir? Pode parecer uma pergunta pessimista, mas a resposta que Camus dá em seu livro, a qual eu acredito que Schultz representa artisticamente em sua tirinha, é o total oposto disso.

Voltando a Peanuts, o absurdo da tira encontra-se nos próprios personagens, que, segundo o escritor Umberto Eco, “são as monstruosas reduções infantis de todas as neuroses de um moderno cidadão da civilização industrial”. Cada criança (e cachorro) tem seus vícios emocionais, cada uma menos o Charlie Brown, mas voltaremos para ele mais tarde, que são tratados de maneira cômica na tirinha, mas quando paramos para pensar, revelam-se como bastante problemáticos. O Linus é o exemplo mais claro disso, a criança não funciona sem seu cobertor, sem ele o menino surta. Sua irmã Lucy também não é muito melhor, visto que ela não consegue criar relações honestas e só encontra felicidade no barulho das moedas. Schrodinger dedica sua vida a tocar Beethoven em seu piano infantil, sem conseguir se relacionar direito com as outras crianças. E o Snoopy passa o dia todo sonhando com coisas impossíveis. Todos esses são exemplos do que Camus chama de “suicídio filosófico”.

O suicídio filosófico seria, para Camus, uma resposta simples para a pergunta do por que continuar vivendo. Segundo ele, a pessoa que segue esse caminho nega o absurdo da vida e busca alguma forma transcendência, algum vício que o ajude em suportar a existência, seja na arte, no poder, em posses, no amor, nos sonhos etc. O caminho que Camus sugere é o de aceitar o absurdo e, em um ato de revolta contra o universo, continuar vivendo mesmo assim. A pessoa que faz isso se torna um “herói do absurdo”, e para explicar isso, Camus usa o exemplo de Sísifo.

Sísifo, na mitologia grega, teria sido condenado pelos deuses a levar uma rocha até o topo de uma montanha, apenas para a rocha rolar de volta para a base da montanha. Esse mito ilustraria o absurdo da vida, uma tarefa árdua que resulta em nada, mas Camus destaca a atitude de Sísifo em relação a sua punição. Sísifo, mesmo vendo a rocha rolando inúmeras vezes, mesmo percebendo que sua tarefa é fútil, não escolhe tentar dar um sentido transcendental a ela, isso seria suicídio filosófico, no entanto, opta por aceitar o absurdo de sua vida e desce para levantar a rocha mais uma vez, sabendo que ela vai voltar para a base da montanha, assim, tornando-se um “herói absurdo”. Camus conclui seu ensaio falando que Sísifo nos ensina uma espécie de “felicidade superior”, que aceita o absurdo e assim constrói, com “cada grão mineral de uma montanha cheia de noite”, seu próprio mundo. Curiosamente, o Charlie Brown ensina-nos a mesma coisa.

Charlie Brown é espécie de Sísifo infantil. Ele é condenado por forças além de seu controle, no caso seu próprio criador, o artista por trás da tirinha, a nunca ser bem sucedido. Schultz poderia ter escrito uma tirinha na qual ele consegue empinar a pipa ou chutar a bola de futebol americano, mas ele, deliberadamente, faz o Charlie Brown falhar. Contudo, ao contrário dos outros personagens, Charlie não tem nenhum “vício”, mesmo sendo ele quem mais sofre em todo Peanuts. Não, como Sísifo ele aceita o absurdo e assim se torna uma miniatura de um “herói de  absurdo”. Em momento nenhum isso fica mais claro do que no longa-metragem de Peanuts produzido por Schultz.

“Um garoto chamado Charlie Brown” começa e termina da mesma forma: Charlie correndo para chutar a bola de futebol americano, apenas para Lucy tirá-la no último momento, fazendo o garoto errar o chute e cair. Mas essas duas cenas têm sentidos totalmente diferentes. A primeira é tratada como uma piada, já a segunda como uma aceitação da vida. Todo o filme trata sobre fracassos, mas, ao contrário de outros filmes infantis nos quais o protagonista supera o fracasso e é bem sucedido, o fracasso é entendido no filme de Peanuts como um fato inerente à vida, portanto, não pode ser superado, mas sim deve ser reinterpretado. Isso fica claro no fim do filme, quando Charlie Brown está deprimido por ter perdido uma competição importante, porém entende, com a ajuda de Linus, que mesmo fracassado o mundo continua, em outras palavras, ele entende o absurdo, a indiferença do mundo em relação aos seus acertos e também aos seus fracassos, e assim se abre para erros futuros. Por isso, na corrida final, em direção à bola, ele encarna Sísifo, para de pensar sobre o possível fracasso de errar o chute e abraça o momento, a simples alegria da corrida. Dessa forma, a resposta de Schultz, assim como a de Camus, para a pergunta, sobre o porquê continuar vivendo é simples: porque apesar dos fracassos e do absurdo, a vida pode ser divertida.

O racismo estrutural de Lovecraft

Texto por Guilherme Penninck

H.P Lovecraft, o pai do horror cósmico, um dos maiores gênios do terror. Não é de hoje que ele é um dos meus autores favoritos, seus contos sempre me prenderam como se eu estivesse enfeitiçado. Suas criações são tão incríveis que podem ser encontradas por todo o “mundo Pop”, em especial o Ctulhu, sua mais famosa criatura. Entretanto, Lovecraft é uma figura problemática, principalmente, ao entrar no antro social.

Não é nenhuma novidade que Lovecraft era racista e xenofóbico, estes ideais estão presentes em diversos dos seus textos, por exemplo, no poema “On the Creation of Niggers”.

“Quando, há muito tempo, os deuses criaram a Terra

À bela imagem de Jove, o homem foi moldado ao nascer.

Os animais para partes menores foram projetados em seguida;

No entanto, eles estavam muito distantes da humanidade.

Para preencher a lacuna, e juntar o resto ao Homem,

O anfitrião olímpico concebeu um plano inteligente.

Um animal que eles fizeram, em figura semi-humana,

Encheu-o de vício e chamou a coisa de Negro.”

A problematização do autor teve o ápice de suas forças em 2010, quando Nnedi Okorafor, a primeira pessoa negra,  recebeu o prêmio World Fantasy Award. Nesta competição, o vencedor recebia uma estatueta com o busto de Lovecraft, iniciando, assim, um debate caloroso sobre se o autor deveria ser ou não utilizado como a face do concurso. Apesar de suas obras maravilhosas, era cada vez mais difícil aceitar que a estátua de alguém que deliberada e publicamente afirmava que os negros eram inferiores aos brancos fosse dada como premiação. Felizmente, em 2016, o prêmio foi remodelado e não exibe mais as feições de Lovecraft.

Entender o racismo e a xenofobia de Lovecraft pode nos ajudar a entender o racismo e a xenofobia na atualidade. Ainda hoje, estas visões deturpadas da realidade têm a mesma origem. Em um dado momento de sua vida, o autor morou em Brooklyn, bem perto de comunidades de imigrantes, e isso foi traumatizante para ele, já que, em sua cabeça, ele possuía uma linhagem nobre e como ele veio de uma juventude confortável, seus sentimentos de vergonha, inveja e medo do futuro culminaram nos seus ideais racistas. Compreendendo isso, conseguimos entender o porquê do racismo e da xenofobia ainda terem forças em nossa sociedade.

As pessoas têm certas ideias de que, no passado, as coisas eram diferentes, talvez até melhores, então, seu medo do futuro e sua inabilidade de processar o que está acontecendo no presente se tornam esses sentimentos odiosos, e nós temos que entender a motivação, porque só dessa forma podemos combater e mudar a estrutura social.

Eu sou, eu sou, eu sou

Texto por Ana Badialle

Os últimos dias de Sylvia Plath (Foto: autoria desconhecida)

É difícil explicar algumas coisas muito sentimentais, como o que eu estou tentando fazer aqui e já falhando. Mas é que existem alguns livros que estabelecem algo com você, é quase um pacto que criamos com eles, suas palavras e seu autor. É um pacto muito sério, pelo menos, para mim. É como se eu desse o poder para o autor conhecer meus sentimentos e como se ele me emprestasse suas palavras para eu contar o que eu entendo de mim e do outro. Bom, eu tenho esse pacto com a Sylvia Plath.

Se você nunca ouviu falar dela, ela foi uma poeta e romancista estadunidense da década de 1950. Ela escrevia um gênero de poesia chamado “poesia confessional”, que revela aspectos íntimos do eu-lírico e trata de assuntos como morte e depressão, no caso de Sylvia, assuntos como a sexualidade feminina entre outras ideias parecidas. Sylvia Plath cometeu suicídio em fevereiro de 1963, pouco tempo depois de ter lançado seu primeiro romance, “A Redoma de Vidro”.

Por algum motivo, existe a ideia de que esse livro corresponde ao que seria a atual literatura infanto-juvenil, só que do século passado. Talvez essa ideia tenha se difundido porque o livro narra em primeira pessoa um momento da vida de Esther Greenwood. Uma jovem universitária estudiosa e esforçada que ganha uma bolsa para estagiar em uma revista de moda, em Nova Iorque, durante um mês, com direito à muitas festas, eventos glamurosos, junto de uma quantia boa de dinheiro para que ela possa se manter na cidade. 

A princípio, Esther parece estar realizando o sonho de muitas garotas de cidades pequenas. Ela é uma aluna de destaque, cheia de prêmios e novos contatos em uma cidade grande capaz de abrir inúmeras oportunidades para uma jovem como a protagonista. Mas, apesar dessa ideia errada do livro ser bem famosa, ele essencialmente trata sobre uma garota que se depara com seu vazio monumental no início de uma vida previamente bem sucedida, em uma metrópole,  sendo sugada por uma depressão severa no verão de 1953.

Quanto à ideia de pacto com os autores, eu tenho esse contato com a Sylvia Plath que se dá muito pelo seus poemas, mas, principalmente, por esse seu único romance que é “A Redoma de Vidro”. Logo nas primeiras páginas você pode sentir parte do desespero da protagonista por não estar vivendo esse momento, considerado uma ascensão de sua vida, da maneira como ela esperava que viveria, muito menos realizando as coisas que os outros esperam que realize em seu posto privilegiado. Esther se imagina constantemente ligada à ideia de morte e, gradualmente, ela passa a se perceber cada vez mais como alguém fadada a carregar um cadáver, como ela mesma se descreve. 

É difícil determinar o início de uma crise quando se tem algo similar ao que passa Esther, parece não ser algo em específico e sim, apenas sua existência sendo “cozida pelo seu próprio ar dentro de uma redoma de vidro”, como descreve Esther. Mas um dos motivos para a depressão da protagonista é a maneira como ela se enxerga na sociedade, como ela tenta entender o papel da mulher na década de 1950. Há bastante tempo, durante o período vitoriano na Inglaterra, Virginia Woolf havia descrito o conceito de “anjo do lar”, algo que explica muito bem a situação da mulher no contexto conservador. O anjo do lar seria a mulher recatada, que abre mão de tudo para proteger a ideia da constituição de uma família tradicional. 

Durante a escrita de Sylvia, em “A Redoma”, é fácil de observar a dura decisão de romper o ideal de pureza de mulher, entre matar ou não esse anjo que rondava a protagonista para que ela possa viver uma carreira plena. Mas é em um determinado momento que Esther se enxerga incapaz de tomar essa decisão, de seguir com seus possíveis futuros, ela imagina todas suas possibilidades se deteriorando aos seus pés, enquanto ela não consegue fazer nada por estar paralisada, restando à ela apenas observar seus inúmeros possíveis projetos que ela havia idealizado, se dissolverem rapidamente na sua frente. 

Com o passar da história, a loucura vai tomando conta da sanidade de Esther, ela se vê cada vez mais presa dentro dessa redoma de vidro e ninguém consegue entendê-la. A história vai perdendo seu controle, ela é internada, passa por tratamentos de choque por sua condição, entre vários outros acontecimentos que a fazem perceber que ela não sabe lidar com seu vazio, muito menos com sua ideia de carregar um cadáver por aí, nem com mais nada que envolva estar viva. 

Segundo os diários da autora, “A Redoma de Vidro” é quase uma história autobiográfica, assim como Esther Greenwood, Sylvia Plath trabalhou em uma revista de moda no verão de 1953 e a maior parte dos acontecimentos do livro passam longe de serem apenas ficção. Dez anos depois desse verão, após a publicação do livro, Sylvia cometeu suicídio em sua casa deixando uma vasta coleção de últimos poemas e cartas. Não é fácil o contato com essa história que grita melancolia por suas páginas, mas não é difícil sentir que esse livro, assim como os poemas dela, estão ali para mostrar a dor de uma existência suicida, o peso que é viver sentindo sua vida se despedaçar aos seus pés. Há um trecho da história que pode resumir bem esse texto, Sylvia, Esther e tantos outros que sentem doer da mesma forma, “Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.”

O Coringa e a desconcertante realidade

Texto por Ana Badialle e Enrico Zanetti

Foto: Reprodução Warner Bros

O Coringa foi criado em 1940 por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger para ser um vilão das HQs (histórias em quadrinhos) do Batman. Sua inspiração não é certa, uns dizem que ele foi inspirado na carta de baralho “Joker”, outros dizem que na verdade ele foi inspirado no personagem do filme mudo “O Homem que Ri” e alguns ainda dizem que foi puro fruto da imaginação, porém nunca se chegou a uma conclusão.

A sua origem, assim como sua inspiração, não tem uma data certa, sendo que o personagem supostamente era para ter morrido na segunda HQ da franquia. Bill Finger achava que o Batman não podia ter um vilão que aparecia sempre, pois isso demonstraria uma incompetência, mas a editora viu que o personagem era promissor e mudou o final da segunda HQ. 

Uma das origens do Coringa é de que ele era um outro vilão em Gotham. Um bandido com capuz vermelho que durante uma fuga cai em um tonel de produtos químicos que corroem a sua pele deixando o aspecto branco e o cabelo verde, isso teria o deixado louco. Em uma das HQs mais icônicas do Batman, “A Piada Mortal”, aparece mais detalhes da possível origem, o personagem era um comediante fracassado que planeja um roubo para poder pagar as contas e sustentar sua mulher grávida. Então ele coloca um capuz vermelho, o roubo é mal sucedido, sua mulher acaba sendo morta e ele cai no tonel de produtos químicos fugindo do Batman.

Há outras versões em que personagem era abusado ou pelo seu pai ou pela sua tia, e em outras ele é mal e louco desde pequeno, inclusive chega a torturar animais após ser castigado pelos pais. Na maioria das histórias ele nada mais é do que um pobre coitado, o que faz ter a criação de uma empatia com o personagem. Porém não existe apenas um Coringa nas HQs.

Na televisão o Coringa apareceu pela primeira vez na série de TV dos EUA, em 1966, “BATMAN”. Ele volta a aparecer em animações da DC, mas o Coringa ficou marcado no cinema no filme “Batman: o Cavaleiro da Trevas”, onde o personagem é protagonizado por Heath Ledger, que rendeu até um Oscar para o ator, sendo o primeiro e único destinado a um papel em um filme de herói. O ator infelizmente tirou a própria vida antes de receber a estatueta, diz a lenda que Heath Ledger enlouqueceu com o personagem, tanto que há relatos que ele chegava no set de filmagens como Coringa e não saia do personagem.  O filme de 2019 mescla algumas origens e cria uma outra, assim como todas as origens do Coringa.

O roteiro de Todd Phillips e Scott Silver passa pelo grande auge dos anos 1980. Bruce Wayne, no filme “Joker”, é apenas um garoto, filho de um bilionário arrogante candidato a prefeito, Thomas Wayne. Já Arthur Fleck, o Coringa, interpretado por Joaquim Phoenix, é um indivíduo comum que trabalha como palhaço e divide sua rotina entre cuidar da mãe debilitada e sua aspiração à ser comediante.

Portador de distúrbios psicológicos expressos na forma de uma risada incontrolável, que se agravam conforme seus sonhos profissionais naufragam, sua mãe adoece, sua vizinha se apieda e um emblemático apresentador de TV faz chacota de sua imagem, Fleck contabiliza desamor, episódios traumáticos e a absoluta ausência de empatia. O protagonista traça os passos para se tornar o simbólico Coringa, fazendo questão de demonstrar que um dos mais famosos e aclamados vilões não foi fruto de algo como um dia ruim, uma decepção sintetizada por melancolia e, sim, de uma série de sucessivos eventos negativos que funcionam como uma ferramenta para agravar sua condição mental, força motor da maioria de seus conflitos como indivíduo.

Conforme se afoga na loucura, Arthur alia-se ao medo empilhando episódios de violência dolorosos de assistir. A cada morte que soma, nesta cidade de aspecto gótico que é Gotham City, o Coringa cativa a brutalidade que inicialmente possui aversão e a evolui para um patamar vingativo contra a indiferença do mundo.

Com o desenrolar da trama, a disputa entre bem e mal, cujos papéis estão bem definidos no imaginário popular, puxa para o vilão e arqui-inimigo do Batman, um homem sofrido e negligenciado pelo aparelho estatal. O desequilíbrio psicológico se apodera da narrativa, na medida em que demonstra a maneira como o descaso do Estado com distúrbios mentais é duramente colocado como ponto chave para o desvencilho da pessoa Arthur e a facilidade como a ideia do Coringa como uma personalidade emerge. Conforme as gargalhadas patológicas imprimem uma dor tão implícita e uma vergonha tão poderosa, o personagem sombrio, de personalidade essencialmente violenta, mexe com o expectador ao estabelecer uma empatia desconcertante. 

Enquanto a boca de Arthur Fleck se abre e sorri, seus olhos só passam melancolia. As danças expressivas e contemplativas do mensageiro das trevas retratam pessoas reais socialmente marginalizadas, resguardadas na ânsia de que suas mortes valham mais centavos do que suas vidas.

Logo a ideia maniqueísta de julgamento raso é esfarelada pelo roteiro de maneira desgovernada. Trata-se, afinal, do que exatamente? Talvez os mocinhos lutem pelo mal disfarçado e, em contrapartida, as máscaras dos que incorporam o caos podem esconder trajetórias não reveladas, não é tão simples quanto mudar de lado em um debate e, sim, exercer o mais básico exercício de reconhecimento entre o outro, a sociedade formada pelos outros e você. A ideia de empatia é muito mais complexa do que acostumou-se ensinar, colocar-se no lugar do outro é incômodo, desconcertante e dói. Assim como assistir a história do Coringa.

Sobrepondo a exposição das formas de relacionamento afetivo contemporâneas, entorpecidas na alteridade digital, deslegitimando patrulhas moralizantes e impondo uma narrativa que vai além da fábula para construir uma caricatura de nossa decadente moral. Constrói-se um cenário no qual o condutor é o Coringa, a síntese das nossas inconveniências, uma celebração do descontrole que, por fim, dá lugar ao tão esperado, desde o começo do filme, mal violento e visceral, quase mais confortável de assistir do que aquele que atinge a carência de uma sociedade minimamente humana.

Em uma obra que nasce nas cinzas da falência ética, na combustão de uma moral que arde, ao desenhar emoções sinceras de uma pessoa psicologicamente doente, é relembrado o quanto esquece-se de ouvir, compreender e dar voz ao outro. A performance do caricato palhaço abre, em meio às metáforas, uma discussão dolorida para as pessoas, o que justifica o desconcerto trazido pelo filme, que simplesmente mostra a realidade da decadência humana como sociedade. Afinal quantos já não sucumbiram à perdição do desastre para que o abandono doesse menos, pois como disse Arthur Fleck “é impressão minha, ou o mundo está ficando mais louco?”

Já pensou nunca mais ver uma livraria no Brasil?

Texto por Rafael Amin

Livraria Cultura em São Paulo (Foto: Divulgação)

O Brasil nunca teve cultura de ler, muito menos uma de apreço às livrarias e bibliotecas. Então, em uma lógica puramente capitalista, a atual crise tanto editorial quanto das livrarias faz sentido, afinal, a Amazon e outras super companhias estrangeiras conseguem dar descontos gigantes, ao contrário da Saraiva, Cultura e as outras grandes livrarias brasileiras. Assim, a história se repete e as megastores, que antes acabaram com as pequenas livrarias tradicionais, agora são mais uma vítima do domínio capitalista americano. Nos últimos dez anos, o número de livrarias e papelarias diminuiu mais de 28%, o que por sua vez agrava uma crise editorial, já que menos livros são vendidos e produzidos. Entretanto, as livrarias não deveriam ser vistas apenas como um lugar onde se compra um livro, mas, como disse Borges, como o divino labirinto dos efeitos e causas, da diversidade das criaturas, que formam este singular universo.

É entre as quatro paredes de uma livraria, cercado de livros, tantos que é impossível ler em uma vida, que a finitude humana se depara com a eternidade. Literatura brasileira se encontra com a russa, autores que morreram a mais de trezentos anos, mas deixaram sua marca, conseguem impactar uma pessoa, e assim a cultura humana evolui. É um pouco assustador até, mas de um jeito mágico, perceber o quanto você é um membro da raça humana. O quanto o indivíduo que, ao mesmo tempo que é só mais um no coletivo, tem agência enorme sobre a vida. Estar ao lados de nomes como Shakespeare, Goethe, Machado e Tolstoi, pessoas que de certa forma estão ligadas ao progresso da cultura, mas que ao mesmo tempo eram só pessoas, é um fardo e ao mesmo tempo um lembrete,  um lembrete que você pode mudar alguma coisa, muito provavelmente não impactará tanto o mundo como eles, mas pode ajudar a espalhar cultura.

Outra coisa que se perde com as livrarias eletrônicas é uma espécie de memória afetiva. Até grandes livrarias físicas, que tem um modelo que preza somente vender os produtos, incentivam de certa forma o contato entre pessoas, afinal o funcionário antes de ser um funcionário é um ser humano, que provavelmente gosta muito de literatura. É relativamente mais difícil puxar alguma conversa com uma pessoa na Amazon, a não ser claro que você esteja tão necessitado de contato humano que comece a mandar emails para os funcionários (eles são simpáticos, recomendo). Mas em uma livraria muitas vezes os próprios funcionários puxam assunto, seja por perguntar se você quer alguma ajuda, ver o livro que você está indo comprar e falar um pouco dele, ou até mesmo por comentar de alguma peça de roupa sua.

É muito bom sentar, pegar um livro para folhear, escutar a conversa alheia e tentar entrar nela. Cria outra forma de contato humano para uma atividade que é por natureza solitária. E uma livraria também tem sua história para contar, algumas com mais de 50 anos se tornaram até mesmo ponto turístico de algumas cidades. É até estranho caminhar por São Paulo e perceber que alguns lugares que pareciam marcas da cidade simplesmente fecharam. Mas a crise das grandes livrarias físicas pode ser algo bom, porque assim as pequenas, focadas principalmente em nichos, com funcionários especializados e talvez até um bom cafezinho para tomar enquanto folheia um livro, voltem, e, com isso, novas memórias sejam criadas. 

Yesterday e o que eu seria sem os Beatles

Texto por Ana Badialle

Foto: Divulgação

Eu fui ao cinema assistir “Bacurau” no último sábado, mas aconteceu um imprevisto e acabei assistindo “Yesterday” meio frustrada. Não que não planejasse assistí-lo, mas eu estava psicologicamente preparada para “Bacurau”. Sabe, no entanto, até que tudo bem, pensei “cinema é cinema” e tudo que eu precisava era a sala escura, o som estridente e uma história que me envolvesse minimamente para fugir da realidade. Eu precisava assistir à pessoas, histórias, ao invés de viver a minha própria, eu precisava do mundo Technicolor e todas as suas virtudes e defeitos. 

Apesar de um pouco contrariada, eu sabia que ia me envolver com a história não importasse como ela fosse apresentada. Sabe, o filme envolve produção de música e “Beatles”, eu sou suspeita para falar disso porque eu amo o mundo artístico e acima de tudo, eu amo Beatles. Diferente de muitas pessoas, minha relação com os Beatles não veio da minha família. Ela veio de um filme que assisti há muito tempo, pois fui buscar sobre a trilha sonora e, curiosamente, a música que eu mais gostei no filme todo era a dos Beatles. Desde então, eu comecei a escutar outras e outras e não parei mais. Comprei CD´s, li uma biografia, cacei os filmes em DVD´s e até hoje assisto “Help” com um sorriso no rosto. Pois é, eu sou suspeita porque os Beatles me anestesiaram desde o começo com seus vocais, as guitarras e a fantasia de todos seus trabalhos. 

Por exatamente essa razão, eu percebi que seria impossível fazer uma crítica ao filme sem me empolgar emocionalmente. Por esse motivo estou aqui contando sobre minha experiência com Yesterday para alguns pacientes leitores desse jornal. Yesterday é um filme que no fim, obviamente, pode possuir vários defeitos de roteiro, arcos talvez estendidos demais ou uma história previsível, mas nada disso importou muito para mim. Isso porque eu notei o sentimentalismo da trama e a forma carinhosa – pode assim se dizer – que a história foi pensada. Esse sentimentalismo mascarado pela contradição da nostalgia com a ideia do novo despertou em mim uma leveza que estava ausente há um tempo. Talvez eu estivesse precisando de uma pitada de fantasia misturada com Beatles e açucarada por uma comédia romântica.

A história em si me lembrou muito uma crônica dessas que a gente lê com café em algum momento do nosso dia, como se você estivesse em uma espécie de brincadeira que te faz pensar: e aí, como seria se os Beatles tivessem desaparecido da memória de todos?. E eu gosto de hipóteses. Jack Malik, o protagonista, é um cantor que dificilmente consegue sucesso no que faz, ele ama música, mas parece não conseguir alcançar a fama. Ele também tem sua empresária que, na verdade, é uma grande amiga, que logo no começo, é claro, nutre sentimentos românticos por ele. Um dia, a ponto de desistir de sua carreira, Jack sofre um acidente no mesmo momento que ocorre um apagão no mundo inteiro, algo como o que seria o bug do milênio. Quando ele acorda, de repente os Beatles não fizeram mais parte da história mundial e, aparentemente, só ele tem noção de quem eles foram. 

É claro que eu não vou contar mais da história, praticamente tudo que falei até agora está no trailer. Num primeiro momento, além do choque, parece óbvio que se fosse você a responsabilidade de trazer para o mundo as músicas icônicas da banda estaria sobre seus ombros. E é claro que com isso pode vir o sucesso incandescente pelas músicas, mas eu logo comecei a pensar e me questionar se eu seria capaz disso. Eu cheguei a conclusão que eu entraria em pânico por talvez não lembrar as notas, as letras… e como são os olhos da Lucy mesmo? O que Desmond fazia antes de conhecer a Molly? Eleanor Rigby espera onde? Pois é, muita responsabilidade para pouca cabeça talvez. 

No entanto, muito além e mais profundo que saber ao certo as ordens das músicas, ou os acordes específicos, eu me perguntei como eu seria nesse mundo sem Beatles. E eu percebi que a resposta está na preocupação que eu coloquei na minha cabeça em conseguir lembrar da sensação de escutá-los, em ouvir a contagem regressiva de “Taxman”, os gritos de “She Loves You”, ou a letra de “A Day In The Life” na voz melancólica do John Lennon. Nisso percebi que conto parte de quem sou – bem narcisista como sempre – a partir do meu reflexo na música, nos filmes e nos poemas que eu gosto. Talvez Beatles faça tão parte de mim quanto meus olhos ou meus pensamentos, talvez nos criemos de acordo com nosso redor, com as músicas que desenham nossos pensamentos e esse processo louco de alteridade narcisista que vivemos. 

Mas tudo bem, as músicas que tanto gostamos e nos empolgamos ouvindo, ou o livro que possuímos tanto carinho, muito provavelmente a arte, em geral, estão aí para podermos nos entender melhor, para que haja um diálogo entre o que é outro, a criação e nós. “Yesterday” é uma história leve carregada de clichês de comédias românticas, mas mesmo assim desencadeou essa reflexão em mim, talvez seja o excesso de Beatles, talvez, o excesso de melancolia, ou talvez eu só precisasse de uma história para poder embarcar nessa confusão de reflexões. Mas, como cantaram os próprios músicos há mais de cinquenta anos, em “Ob la di, ob-la-da”, a vida vai e a vida vem, é, é doido como a vida vai e vem. 

A dialética entre as representações do jovem na cultura

Texto por Ana Badialle e Rafael Amin

Foto: Autor desconhecido

O jovem é um problema relativamente recente na literatura, no cinema e na política. No entanto, apesar da construção da ideia de juventude ter sido feita apenas na segunda metade do século XX, isso não isenta o fato de que a noção desse conceito carrega diversas simbologias que foram estabelecidas ao longo dessas décadas por meio de elementos da cultura. Representações que, essencialmente, foram estabelecidas por meio da dialética entre as representações do jovem na cultura e sua resposta política à essas representações que revela a maneira como o jovem realmente se enxerga na sociedade.

Na literatura, enquanto livros que retratam os anos de formação de um indivíduo datam desde a época de Goethe (início do século XIX), foi somente em “O Apanhador no Campo de Centeio” (J.D Salinger, 1951) que o arquétipo do adolescente ganhou a forma que conhecemos hoje. Rebelde, transviado e alienado, Holden Caulfield – protagonista da obra – conseguiu cativar um grande público na época de seu lançamento. Paralelo à isso, uma representação similar de um jovem rebelde e alienado tornou-se popular entre os jovens da época, o filme “Rebel without a Cause” (Juventude Transviada, 1955), apresenta à cultura de massa estadunidense o novo modelo de jovem, um que viria pela primeira questionar aquilo que havia sido imposto pelos pais, nascidos na geração anterior. 

Por isso, o filme retrata um jovem rebelde que precisa externar, ao contrário do Holden que internaliza seu conflito, impondo-se como alguém rebelde que questiona, de maneira impulsiva, a vida conformista. Tal representação de jovem não surge ao acaso, mas de um diálogo histórico e artístico, bem representado pelo bildungsroman.

Pai do que hoje é conhecido popularmente como coming of age (histórias que tratam sobre amadurecimento psicológico, como “Clube dos cinco” ou “Curtindo a vida adoidado”), o bildungsroman (palavra em alemão que remete a romance de formação) é um gênero que tenta abordar as relações entre jovem e o meio, quanto um modifica o outro e o caminho até a maturidade. 

O livro “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1796), de Goethe, retratava o mundo como algo mágico. O protagonista não possui voz própria e a madureza consiste em aceitá-lo, literalmente abdicando das pretensões artísticas de um jovem e abraçando a realidade tal como ela é.

Passado vários anos, especificamente em 1924, o escritor alemão Thomas Mann publica sua versão do bildungsroman, como resposta direta ao romance de Goethe. Em “A Montanha Mágica” o protagonista continua sem voz e o meio continuava sendo mais importante do que ele, entretanto, no pós-primeira guerra, o mundo não era algo que poderia simplesmente ser aceito. 

Dessa forma, os anos 1960, trouxeram uma quebra abrupta de convenções conformistas, ao passo que, abriu espaços para novas formas de música e vestuário, criando os primórdios da cultura teen, como conhecemos hoje. O surgimento do Rock and Roll, na metade da década de 1950 – com influência do Blues e do R&B – trouxe diversas influências para os adolescentes da época popularizando nomes como Elvis Presley, Carl Perkins e Chuck Berry. Com a mudança sofrida no comportamento e na maneira consumir música e entretenimento, o rock se transformou em uma válvula de escape, mas também forma de protesto para os jovens que estavam cansados da cultura consumista.

Logo no início da década de 1960, surgiram outros artistas como os Beatles e Rolling Stones, bandas que derivaram da música estabelecida pelo Rockabilly para construir seus próprios conceitos de rock. Com isso, essas bandas alteraram a forma de se produzir música, fazendo sucesso em shows, reinventando a maneira de ser jovem e livre para alterar a visão conservadora da geração anterior. Foi definido um som inconsequente e vibrante até por volta de 1966, quando os jovens e as bandas de rock passaram a acreditar em uma filosofia mais ligada à política como uma resposta aos conflitos da Guerra Fria, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras que se instalaram na América Latina. Levando o jovem que antes estava preocupado com aspectos estéticos e musicais à utilizar a arte e a cultura da contestação como uma forma de protesto e engajamento político direto.

Nesse contexto de conflitos surgiu o conceito da contracultura, movimentado por uma das gerações mais conscientes e politicamente engajadas, o sentimento de revolta e impotência gerou jovens que atuavam politicamente por necessidade. Desse jeito, a contracultura proporcionou o Woodstock, um festival de música, baseado nos ideais de três dias de música e paz, o que refletiu de forma artística a negação aos ideais imperialistas estadunidenses presentes nas suas atuações e conflitos. É nesse momento que a arte e a política aparecem fortemente em um aspecto só para aquela geração, dando popularidade à novos estilos e formas de expressão, como o grafite e o fortalecimento da cultura urbana.

No Brasil, a década de 1960 e 1970, em meio ao contexto da ditadura militar (1964), fez a cultura juvenil voltar-se aos elementos nacionais, com atuação, principalmente, da camada dos estudantes.  Eles aderiram a contracultura, recusando-se a envolver aspectos estadunidenses, a fim de criar uma caraterização da arte produzida internamente. Nomes famosos como Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Os Mutantes incorporaram o movimento conhecido como Tropicália. 

Surge então, junto com a chamada geração Y, uma arte popular com forte teor político, só que desta vez a contracultura não se dava por meio de movimentos sociais ou protestos, mas sim por uma forte apatia, rejeição e sátira dos moldes vigentes. Nasce em 1989, por exemplo, os Simpsons, que satirizava de maneira cruel a família tradicional americana, tanto defendida pelas sitcoms dos anos 80. 

Essas obras são frutos de uma sociedade que viu seu grito não levar a muita coisa e, então, escolheram a completa rejeição da realidade. A alienação na época não foi resultado de uma indústria de massas que despolitizou a juventude, mas sim, de um excesso de consciência política, de um realismo visceral que resultou em relativa inércia. Sabendo da corrosão da realidade e que muito provavelmente ela não poderia ser transformada, o jovem viu como única saída escapar, nisso surgem movimentos como o punk, grunge e o clubber, além da popularização e globalização da cultura pop.

O punk talvez seja a representação máxima da rebeldia jovem nos anos 70. Irreverente até mesmo com o seu pilar, o rock clássico, o movimento e, posteriormente a tribo urbana, tinha como lema “faça você mesmo”. Sem pensar muito em estética musical, com um discurso anarquista que ia contra o moralismo da época, o punk foi um enorme grito em favor da individualidade jovem, da diversão e rebeldia, focando novamente no indivíduo e menos no coletivo, mas ainda satirizava o último.

Entretanto a acidez política presente em grande parte da música de 70-80 foi perdendo espaço para uma visão individual e hedonista. Os clubes e a música eletrônica na década de noventa deram origem a cultura de discotecas, com sua estética extravagante marcada por cores vivas e alucinógenas, que tirava o teor político das músicas em troca de torná-las mais dançantes. 

Nisso há uma representação do jovem fortemente estereotipada, de alguém que não se envolvia tanto com o choque de gerações ou embates políticos. Uma retomada muito forte de comédias românticas, como “As Patricinhas de Beverly Hills”, com uma representação caricata e alienada dos jovens na escola, sintetizando seu papel à conflitos banais dentro da estética noventista, tornando-se um filme que explora clichês já conhecidos para aprofundar o universo adolescente. Isso influencia diversos outros filmes do gênero que viriam seguinte como “Meninas Malvadas”, entre outras comédias românticas que retratam o escapismo do mundo adolescente. 

No entanto, o jovem, atualmente, tem deixado essa fase despolitizada de lado, e se importando cada vez mais com problemas sociais, ambientais e individuais. Com adultos literalmente destruindo quaisquer esperanças para o amanhã, propagando preconceitos, violência e destruindo a próprio ambiente ao seu redor, os jovens novamente precisam pegar para si a responsabilidade de transformar as relações presentes no mundo e a necessidade de escapar da realidade deturpada por excessivas preocupações. Os adolescentes trazem o conflito interno em oposição com o caos externo e criam, uma série de questões para si, além de repensar fortemente questões de identidade e representatividade. 

A arte se adaptou a essa nova conscientização e, gêneros que estavam estagnados, como a comédia romântica adolescentes, ganharam um novo fôlego e público ao incluir questões de gênero e classe. Como por exemplo, o filme/livro “Love, Simon” (Com Amor, Simon), lançado em 2018, que conta a história de um adolescente que questiona a relação que as pessoas em seu entorno possuem com sua sexualidade, trazendo um perfil voltado para o questionamento de padrões sexuais e de gênero ainda impostos ao jovem.

Com uma rebeldia necessária e sútil, a geração atual, chamada de Geração Z, retrata como nunca a auto descoberta e aceitação, desenhando um jovem voltado para questões internas, políticas e transformadoras. A juventude atual sofre com a alienação da década de 80, carrega para si ansiedades e tribulações, mas ao mesmo tempo tem uma atitude reformista engajada como a década de 60.