Pela primeira vez, de novo

Texto por Rafael Amin

Esse é o segundo ano do FalaJP! e esse também é o primeiro ano do FalaJP! Parece contraditório, mas acredite, é apenas biológico. Bem, biológico, mas com uma pitadinha de filosofia. Pense em um corpo humano, com suas células se regenerando e morrendo, chega um ponto em que todas as células já são diferentes das originais, mas a pessoa ainda é a mesma. Ou pense em uma vassoura, composta de um cabo e de uma cabeça, se você trocar a cabeça, ainda é a mesma vassoura? E se depois você trocar o cabo? Não sei se a vassoura é a mesma, mas sua função continua igual. Aconteceu a mesma coisa com o FalaJP, algumas – a maioria – pessoas que escreveram no primeiro ano do jornal saíram, mas a função e o objetivo dele continuam iguais.

Acho que agora seria uma boa hora para explicar esse objetivo, mas eu não sei direito qual é ele. Fiquei o primeiro ano passado inteiro procurando. É essa mania estranha dos seres humanos de buscar um porquê das coisas. Um porquê das terças à tarde, uma finalidade para aquelas três horas gastas todas as semanas. Acho que, finalmente, entendi esse porquê com um texto que o Joca escreveu pro próprio jornal: Era uma tarde de terça-feira. Recomendo muito a leitura para quem ainda não chegou a ler. Mas o próprio título vem carregado de um peso enorme: “era”. Era afinal, não vai ser mais, essa “finalidade” acabou junto com 2019. O que vai ser agora eu ainda não sei, mas acho que isso pode ser uma coisa interessante.

Por mais que eu não saiba qual é o objetivo do jornal, sei qual é sua função. O segundo primeiro ano do FalaJP! é como uma vassoura, uma vassoura simples, sem nenhum adorno, mas com uma função bem clara. Essa é de dar voz às pessoas que escrevem para ele, e assim, com cada texto novo, de cada aluno, a vassoura vai ganhando seus enfeites.

Mas, afinal, o que é “dar voz”’? Ano passado, quando eu escrevi um texto parecido com esse para a segunda edição do jornal, eu entendia “dar voz” como processo de abrir espaço para o contato com o outro. Assim, o FalaJP! daria voz às pessoas que escrevem nele por funcionar como um espaço onde o texto encontra o seu leitor. Talvez isso seja verdade em blogs ou redes pessoais, mas agora eu penso que o jornal dá voz de uma maneira diferente, penso que esse processo envolve apenas uma pessoa: aquela que escreve o texto. Deixa eu explicar.

O escritor russo Vladimir Nabokov, em um ensaio sobre Liev Tolstoi, escreveu: todas as pessoas são o palco de duas forças: a ânsia de privacidade e o desejo de sair pelo mundo. É nesse sentido que o FalaJP! dá voz, quando a pessoa, ao escrever, consegue encontrar uma balança entre essas duas forças. Somos jovens em formação, ainda estamos nos descobrindo e descobrindo nossos gostos, sendo assim, nossa voz é dada quando conseguimos canalizar essas forças e escrever um texto que ao mesmo é pessoal e interessante para o outro. Então, talvez a expressão correta não seja “dar voz” e sim “achar voz”, achar estilo, achar forma e balança. A graça do FalaJP! não necessariamente está em saber que alguém gostou do seu texto, mas, simplesmente, olhar para ele e pensar: eu acho que escrevi um bom texto. (Infelizmente isso nem sempre acontece, mas aí já é outra história rs). 

Por isso, acredito que todo novo ano do FalaJP! vai ser também o primeiro ano do FalaJP!. Sempre que novos adolescentes em processo de formação decidirem, em pleno ensino médio, gastar um tempinho escrevendo, expondo-se,  achando sua própria voz, então, a vassoura do FalaJP! vai ser enfeitada de maneira diferente. Eu sinto falta daquelas tardes de terça do texto do Joaquim, das desculpas, das piadas internas, das brigas por canudos e capitães da areia. Mas também estou curioso para saber como vão ser as novas tardes de terça, como a vassoura vai ser adornada dessa vez; o que vai ser desse novo FalaJP!

Ao farol da pandemia

Texto por Rafael Amin

Um farol é um objeto sólido, fixo em determinado espaço. Ele existe para guiar, mostrar o caminho quando a visão está embaçada. Um farol também existe entre parênteses, cercado de mar, cercado de vida, mas condenado à solidão. Virginia Woolf, em seu livro “Ao farol”, usa esse símbolo para escrever uma das mais bonitas elegias sobre a perda, a solidão e o tempo. Assim como um farol o livro pode nos ajudar a ver um pouco de luz em tempos de pandemia.

“Ao farol” foi escrito um pouco depois da primeira guerra e trata das perdas e mudanças que esse evento trouxe na vida de uma família. É um daqueles livros em que os personagens são reativos, no qual não há uma história cheia de reviravoltas e consequências, a beleza da obra está na sua forma, descrita pela a autora como duas salas unidas por um corredor.

(primeiro esboço de “Ao farol”)

A primeira sala, o começo do livro, retrata a vida antes da guerra, ou, no nosso caso, antes da pandemia. Ela narra um dia na vida de uma família, que, dependendo do clima, pretende ir ao farol. Cada membro tem seus desejos, sonhos e planos. Planos esses que parecem reais, como se o futuro já fosse concreto, porque é assim que a gente pensa as coisas, marcamos eventos com meses de antecedência imaginando que tudo continuará igual até lá. Mas aí surge uma pandemia, mas aí o tempo passa.

A segunda parte, o corredor, é um artifício literário, existe para narrar o inenarrável. O tempo passa, mas é impossível narrar o passar do tempo enquanto ele ocorre, porque o passar do tempo é, e se narra o que foi. Virginia, em uma posição de já ter saído da primeira guerra, usa, nessa parte do livro, a imagem de uma casa se deteriorando para descrever os horrores desse evento. Não temos esse privilégio de tempo, ainda não vemos a pandemia como algo que aconteceu, não, ela está acontecendo bem a nossa volta.

O passado nunca pareceu tão distante para minha geração, nem o futuro tão incerto. Na data da publicação deste texto nem faz três meses que iniciou o isolamento social, mas, mesmo assim, temos a impressão de que a vida antiga, a vida de escola, contatos, cafés e saídas, já parece relíquia da memória, e os planos de 2020 já tiveram que ser mudados. Mas nem o passado nem o futuro conseguem ser tão assustadores quanto o presente.

“Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”, pego essa frase de Adorno, tiro-a de contexto, e  expando-a: acho que comer, sorrir, dormir, “buscar leveza”; viver, após Auschwitz, após Rwanda, após as ditaduras empresariais-militares, e agora durante a pandemia, é um ato bárbaro. No momento em que escrevo esse texto têm milhares de pessoas morrendo ao redor do mundo, famílias nem podendo ir para o enterro de seus parentes, e, no meio de tudo isso, eu estou aqui, com papel e caneta, escrevendo sobre Virginia Woolf. Isso é desumano, mas, talvez, também seja a coisa mais humana possível: continuar vivendo, continuar buscando  esperança em um agora tão desesperançoso. Uma forma de encontrar essa esperança pode ser por olhar para exemplos passados, e existe um caso interessante de arte em tempos de pandemia.

O pintor Edvard Munch, mais conhecido pelo seu quadro “O grito”, pegou gripe espanhola em 1917. A gripe matou mais gente que a primeira guerra, mas ela não está tão marcada em nosso consciente coletivo como a guerra está. Felizmente, Munch sobreviveu, e o que é mais interessante ainda é ele ter feito dois autorretratos nesse período. O primeiro quando ele ainda estava com a gripe, o segundo depois que ele se curou.

(autorretrato com gripe espanhola)
(autorretrato depois da gripe espanhola)

A primeira pintura é tão distante, ele se pinta sem olhos, sem rosto; sem alma. Imagino que nesse momento Munch já não tivesse muitas esperanças em relação ao futuro e a sua condição. Mas, depois que se recupera, ele já se pinta com olhos, com um rosto, tem até uma janela por onde entra luz e vida. Essa segunda pintura é a terceira parte do livro de Virginia, é onde ainda não estamos, onde os sofrimentos do agora já são o passado do futuro. E é nessa relação com o tempo que se encontra a beleza da obra de Woolf.

Na terceira parte do livro vemos os personagens indo até o farol, símbolo de um passado perdido pelo tempo, um passado de memórias lindas de uma mãe brincando com filho e de um pai com sua filha. Memórias essas que não são mais possíveis, a guerra levou o filho e a doença, a filha. Mas os personagens vivem, mesmo depois de um passar tão cruel do tempo eles continuam andando em direção ao farol, aprendendo a viver com o peso memória.

Às vezes, imagino que o sonho modernista, aquele de Proust, Joyce, Borges e, principalmente, da Virgínia, fosse de um tempo memorial, no qual apenas a lembrança de um momento passado era suficiente para atingir a plenitude. O pesadelo, entretanto, também; um tempo no qual só a lembrança de momentos de crise são suficientes para levar alguém à loucura, onde apenas a ideia de voltar a ter uma baixa foi o suficiente para fazer Virginia afundar no oceano. Felizmente (ou infelizmente), nosso tempo é apenas o agora, o que quer dizer que temos de lidar com todas as suas complicações e incertezas, mas também garante uma coisa: que o agora vai ser melhor. Não necessariamente o agora futuro, mas tudo que estamos presenciando , quando virar memória e história ,será, no mínimo, um pouco menos confuso.

Quanto ao agora futuro, posso apenas esperar que não optemos pela barbárie e pelo esquecimento, que não transformemos todas as vidas perdidas em apenas números, que consigamos seguir em frente no caminho que aponta o farol da nossa humanidade: aquela que sente empatia pela morte e sofrimento de pessoas, não pela “morte” de CNPJS.

Essa nova proposta é o cantinho do Fala JP! que você protagoniza. O CollabJP é um projeto que oportuniza aos alunos o envio de suas obras, entre elas: Cartaz, Pintura, Desenho, Fotografia, Vídeo e Música. Mande sua obra em bit.ly/collabfalajp.

Nesta última edição confira os últimos envios até a publicação 🙂

Carta ao bom velhinho

Enviado por Rafael Pinto

Ô mãe, 
fiz uma carta 
Lê ai e ve se não descarta
É tipo aquelas de natal 
Não sei se fui bom menino 
Mas sabe como é

Todos querem o presente no final
O problema é que ninguém muda o presente 
E esse aqui só desagrada parece de grego
Eu sei eu sei 
Cavalo dado não se olha os dente 
Mas depois de Tróia isso foi só desapego 

Ô mãe, ta vendo? 
To pedindo pra ele não vir de vermelho 
Ouvi dizer que não gostam muito dessa cor 
To com medo de matarem o velho
E acabarem com toda a alegria, todo o frescor
Toda a leveza, tudo que sobrou 
E deixar só coisa ruim tipo bolsa de cocô 
Tipo uns hambúrguer e óleo 

Ô mãe, 
Manda isso aí eu imploro 
Por favor
Porque ultimamente o perigo tá eminente
Eu to sentindo que o fim tá próximo 

Carta para as próximas gerações

Texto por Isabella Gemignani e Carolina Sousa

Como tudo nessa vida, o ano está chegando ao fim e está na hora de nós darmos nossos adeus à todos esses 365 dias, repletos de emoções e aventuras, que vivemos. E, para nós, a turma formanda do Jean Piaget, as despedidas são muito maiores dessa vez. Estamos dizendo adeus não só ao Jean Piaget e às nossas amizades, mas também à todos os projetos e conquistas das quais fizemos parte e que tornaram esse terceiro ano único e, acima de tudo, nosso. Em retrospectiva, é possível relembrar de todos esses momentos, construídos pela turma de 2019, com um carinho muito especial.

É mais do que justo nos autonomear como uma turma pioneira, desde a fundação do Clube do Voluntariado – juntamente com as centenas de brigadeiros já vendidos por nós – até a constituição da equipe do primeiro ano do Fala JP e a única turma privilegiada que teve que vender Charlie Brownies e Cookies em prol da Geometria. Nessas pequenas ações, que, falando assim, não parecem ser muito, colocamos uma dose de amor, juntamente com cada gota de suor e esforço em todas as atividades extracurriculares que participamos. 

Mentiríamos ao dizer que nada disso nos fará falta. Ao longo desse ano, nos tornamos uma família, nos apoiando uns nos outros em nossos tempos ruins e dividindo as alegrias dos  tempos bons (e, compartilhando, sempre, uma classe por mais horas do que jamais poderemos contar). Criamos, mesmo, nossos quase rituais. O do brigadeiro – o mais esperado pelas meninas da comunicação -, que começava na arrecadação de fundos e marketing pelo grupo do Bernardo, da Anna e da Mari, ao Matheus Lopes e Rafael Pinto, que compravam os ingredientes – e as diversas discussões que isso já gerou – até a etapa de produção (fazer e enrolar os brigadeiro) que contava comigo, Carol dos Brigadeiros, e um grupo de meninas, que sempre mudava mas que eram um anjos, que, por fim, resultava na etapa de vendas, com Thomas, Gabriela Craveiro, Caio, Anita, Carolina Maiteh, Juliana Monteiro, Maria Eduarda, Elisa, Ananda, Isabella, Flávia e os outros comovidos honorários hahah. 

Porém, além de minhas emoções implorarem por um texto melancólico e nostálgico, eu sei que esses só interessariam a nós que presenciamos isso e a nós que temos essas memórias guardadas em nossos corações. Tampouco quero tornar essa matéria um slide de fotos de nossos momentos, porque já chorei com dois desses e não gostaria de fazê-lo de novo antes das colação. Então, como parte da turma formanda, é nosso dever deixar nossas vivências como conselhos para aqueles que ainda virão. E relaxa, não estamos falando apenas do CARPE DIEM – apesar de que, eu curtiria muito bem o dia no lugar de vocês… 

Como nós, Carol e Isa, não conseguimos sequer imaginar aconselhamentos suficientes que sintetizem todos os nossos anos de experiência no Ensino Médio, fizemos deste texto o primeiro hiper-colaborativo do jornal, não só para provar que não estamos de brincadeira ao nos dizermos pioneiros, mas também para deixar, aos anos seguintes, por meio desses recados, o aviso de que estivemos no lugar que vocês agora ocupam antes. Brincadeira. Ou não. Enfim, aqui estão as lembranças, conselhos e o carinho dos formandos do Fala JP à vocês.

“O terceiro ano vai ser intenso e pedir muito de vocês. Por isso, fiquem perto das pessoas e das coisas que os façam bem.  E sim, não vai ser simples e a pressão em algum momento vai parecer demais, mas eu acredito que vocês conseguem lidar, pensem nisso também, tudo aos poucos. Confiem em vocês, em passos pequenos, em momentos calmos, mas significativos, que gradualmente, tudo se encaixa de alguma maneira. Esse ano não precisa definir a vida de vocês, acreditem que são muito novos com muito para conhecer ainda. Vocês não serão o número de aprovações, muito menos, suas notas da escola, vocês serão muito mais que qualquer número ou impossibilidade. Tem uma música da Legião Urbana que fala “A humanidade é desumana / Mas ainda temos chance / O sol nasce pra todos / Só não sabe quem não quer”. Encontrem o sol de vocês nesse ano, e esperem ele nascer quando a noite estiver longa demais, que tudo vai ficar bem. E participem do FalaJP! haha” – Ana Badialle

“Tanto pra dizer… Mas serei breve. Sentirei falta de ser JP. Por toda minha vida fui rodeada por amigos, professores e funcionários incríveis e só tenho a agradecer. O JP fez quem sou hoje, não só na formação acadêmica, mas também como pessoa. Do fundo de meu coração, deixo o mais genuíno obrigada.” – Gabi Craveiro

“O tempo passa. Às vezes ele parece passar mais devagar naquelas aulas de Química logo depois do almoço, mas ele passou muito mais rápido nesses três anos do que eu jamais pude imaginar. É clichê dizer isso, mas eu realmente não preciso me colocar no lugar das turmas do segundo e primeiro ano porque, para mim, eu era dessas turmas fazem tipo alguns meses. Então, meu conselho é que vocês aproveitem o tempo, especialmente o que vocês passam na escola – que não será pouco, especialmente no terceiro ano. Participem das atividades que vocês se interessam sem medo, faltem algumas aulas para dormir mais, fiquem amigos dos funcionários e professores da escola, sejam curiosos, não levem as coisas tão a sério, e tentem transformar a obrigação de ir pra escola em algo que possa se tornar, no futuro, memórias felizes e além dos estudos :)” – Isabella

“Tentem fazer do próximo ano o melhor ano das suas vidas, não porque você curtiu todos os momentos ou foi feliz em todos eles, mas porque você deu o seu melhor e cresceu como pessoa. O mais legal dessa experiência é reconhecer tudo isso no fim. Vai valer a pena, não desistam e tenham um ano incrível!”- Melissa

“Gente, eu sei que todo mundo fala a mesma coisa sempre mas vou falar de novo por que realmente é importante: Estudem e não deixem as coisas pra última hora – eu sei que vai dar vontade de desistir várias vezes porém é um ano só e todo o esforço vai valer a pena no final. Se ajudem!!!! Sempre tem alguém que você pode ajudar e no futuro você também pode precisar de uma ajuda pra alguma matéria. E por último: Aproveitem essas férias (principalmente o pessoal do 2o ano) porque ano que vem vai ser puxado! Mas eu acredito em vocês 🙂 Bom fim de ano pra todos” – Noah Mendes

E assim encerramos a nossa última edição do Fala JP – do ano para os que ficarão na escola, e talvez da vida para nós que vamos embora, como eu, Isabella, e a Carol. Aqui, nesse jornal, fomos quem queríamos ser de propósito. Colocamos para fora o que sentíamos dentro, e vimos que a poesia, a criatividade a autenticidade estavam em nós, tanto quanto grupo quanto indivíduos. Mesmo sendo pessoas completamente diferentes, aprendemos uns com os outros, viramos amigos e, juntos, criamos no mundo, às 5 horas de terças-feiras, um espaço feito de conversas paralelas, risadas, provocações, muitas fugidas de tema e, acima de tudo, feito de ideias. Em nossas edições contadas, criamos um infinito, deixando, de palavra em palavra, de texto em texto, um pedacinho de nós.

Obrigada por participarem desse nosso universo de doze edições. E, como turma pioneira, esperamos encontrar o seu universo e o das próximas gerações nas edições que vem. 

—  Ana Luiza Badialle, Anita, Bia Freitas, Bernardo, Carolina, Gabi Craveiro, Isabella, Larissa, Melissa e Noah.

A primeira vez a gente nunca esquece!

Texto por Aline Nicolau

“E é sério esse bilhete”. Lembro-me, como se fosse ontem, da primeira vez que vi os rostinhos desta turma que agora se despede do JP. Era 2017. Carinhas ainda infantis e assustadas com o Ensino Médio, mas cheias de energia de vida, de gás para enfrentar o novo ciclo. Eram atentos, questionadores, perspicazes e acima de tudo gentis. Foram delicados com quem estava chegando (euzinha, no caso), eram amigos e empáticos uns com os outros e isso é lindo de ver quando estamos diante de um grupo tão diverso. Mostravam-se adolescentes prontos para encarar a vida adulta.

Nosso segundo ano de convivência foi ainda mais agradável, já tínhamos certa intimidade, eu errava menos os nomes (não perdi o hábito, faço isso até hoje) e desevolvemos um bom trabalho acadêmico (creio!). Neste 2019, os encontros foram de corredor, mas sempre com o mesmo carinho. De vez em quando vinha um “Aline, tirei X na redação, to arrasando” e meu peito se enchia de orgulho. Às vésperas do Enem também teve: “Qual será o tema da redação, Aline? Qual é o seu palpite?” E foi gostoso vê-los querendo minha opinião, mesmo não sendo mais meus alunos. Senti-me honrada com a calorosa recepção na última reunião de pauta do Fala JP. Vocês são realmente muito especiais. Eu estava certa desde o primeiro encontro.

Somente pessoas incríveis abdicariam de parte do precioso tempo, dentro de um terceiro ano, para se dedicarem a um jornal virtual que serviria para ajudar todos os alunos da escola. O Fala JP mudou o assunto nos corredores e era uma delícia parar, ler o que cada um produziu naquela edição e constatar que vocês se tornaram escritores maduros, engajados e responsáveis.

Agora, no entanto, é hora de passar o bastão. E estejam certos de que farão isso de forma brilhante. Vocês já fizeram história e certamente plantaram a sementinha da arte de pensar, escrever e publicar, nas próximas turmas que assumirão o Fala JP. Podem ir tranquilos e em paz!

Desejo que a nova etapa seja gloriosa. Não será 100% o que desejam, e tudo bem! Xuxa passou um grande ensinamento atemporal pra minha geração. Dizia ela nas gincanas de um programa de auditório: “se cair, levanta e continua”. 

 Guardem essa dica da tia Aline!!! Os percalços, meus queridos, podem aparecer, mas desejo que vocês tenham serenidade para sair de qualquer situação desagradável.

Estejam sempre entre vocês, entre amigos e CUIDEM-SE!
Mantenham sempre esse Coração de Estudante pulsando no peito e lembrem-se do mestre Milton Nascimento “Há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”.

“Qualquer dia, queridos, a gente vai se encontrar!”
Um abraço carinhoso e fraternal em cada um de vocês, da profa. Aline.

7 dicas para irritar o LF

Todo mundo já teve aula com o LF e sabe que ele tem toque com algumas coisas. Nós fomos a fundo no assunto e criamos esse tutorial para te ensinar como irritá-lo! 

1- Pergunte como está o mapa astral dele, ele odeia signos, mas a propósito ele é de touro.

2- Suje o vidro da TV de giz antes dele dar aula, eu aposto que ele vai buscar um papel molhado para limpar kkkkk

3- Fale sobre homeopatia e não antibiótico, ele acha que é água e não remédio.

4- Quando o Santos perder chegue na sala e fale sobre o assunto. Para ele, o Santos FC está em 1º lugar.

5- Suma com a balança de pesar café, ele fica desnorteado.

6- Defenda a liberdade de Hong Kong.

7- Não ria quando ele faz sotaque de gaúcho ou carioca, mermão! Ele fica bravo bá tchê.

Obs: LF não fique “BRAVIO” com a gente!

Conto de suspense: Onze corpos

Conto por Victória Lopes

Foto: Divulgação

O casal brindou as taças de cristal enquanto sorria, Eduardo estendeu a mão para ela por cima da mesa, a aliança fina de ouro reluzindo com a luz vinda das lâmpadas. Ele e Carolina entrelaçaram os dedos, nenhum dos dois conseguia focar em algo que não fossem eles mesmos. Exatamente um ano atrás os dois assinaram os papéis no cartório, eram um casal jovem, ambos com seus vinte e dois anos e começaram a namorar quando ainda tinham quinze anos. Se conheceram no ensino médio e nunca mais desgrudaram, decidiram lá naquela época passar a vida toda juntos.

Eles eram tão diferentes e mesmo assim tão parecidos, a ruiva era mais atlética, acordava cedo para correr, ia na academia de noite e sempre que podia marcava partidas de vôlei na praia com seus amigos da faculdade. Já ele era um bicho-grilo, gostava de ver filmes antigos, de ficar em casa, às vezes ia no cinema sozinho apenas para aproveitar um bom filme dos anos 70/80. Diferente dela, que cursava direito, ele não ia para a faculdade, trabalhava dentro do apartamento, comandava o setor financeiro da empresa de seu pai e adorava o que fazia. 

De qualquer maneira, a moça nunca precisou arrastar o namorado para fora de casa, Eduardo sempre gostou de sair com ela para onde quer que fosse, ocasionalmente eles passavam o fim de semana fora, só para escapar um pouquinho e ter tempo só para os dois, é tudo que ambos mais desejam e gostam, de ficar na companhia um do outro e isolados do resto.

[…]

Carolina se sentou dentro do táxi para recuperar o fôlego, estava saindo da academia uma hora mais cedo e ainda sim eram dez horas da noite. Já esperava encontrar o marido dormindo no sofá, ela riu sozinha com o pensamento. O motorista a deixou na porta do prédio, a mesma passou pelo porteiro, entrou no elevador e chegou no sexto andar. O prédio era bem antigo, não tinha câmeras e só um apartamento por andar. A garota também não ficou surpresa quando algumas luzes do corredor estavam piscando, o que dava um ar macabro para o ambiente. Entrou em casa e via apenas iluminação vindo da cozinha.

Edu ainda estava acordado, ela sorriu, deixou a bolsa na poltrona e foi até o cômodo aceso. Abriu a boca na intenção de falar algo, mas perdeu as palavras assim que entrou no recinto. Sangue escorria pela bancada e pingava no chão já coberto do mesmo líquido, instrumentos ensanguentados estavam na pia e não havia ninguém lá. Seu coração batia tão forte que a caixa toráxica doía, milhares de coisas preocupantes passaram por sua cabeça, mas todas cessaram assim que uma figura entrou na cozinha. 

Um grito quase escapou de sua garganta, até que ela viu o marido parado na outra porta. As barras da calça preta estavam dobradas até o meio da canela e ele estava descalço, tinha luvas de borracha nas mãos, segurava um balde de limpeza e estava ensopado de sangue. O moreno ficou surpreso ao ver a esposa ali mas agiu como se nada tivesse acontecido.

– Carol, você voltou cedo. – Sorriu de leve e esperou um minuto completo por uma resposta, sem conseguir nenhuma continuou falando. – Como foi o treino? Hm acho melhor você tomar um banho, não se preocupe, vou limpar as coisas aqui e já vou. – Eduardo se abaixou e voltou a limpar.

Com muita dificuldade a mulher se retirou, seu tênis com solado ensanguentado fazia barulhos grotescos e deixava um rastro por onde ela passava. Entrou no chuveiro e deixou a água quente escorrer pelas costas, Carolina não conseguia processar nada, se secou, colocou o pijama e se deitou no mais puro silêncio. Escutava barulhos na cozinha e se arrepiava com cada um deles, aquilo parou por um tempo, logo ouvia Eduardo no banho e quando o mesmo saiu ela fingiu que dormia. Ele deitou ao seu lado e a abraçou, a ruiva respirava com dificuldade e estava totalmente tensa, embora tivesse tentado, não conseguia dormir de jeito nenhum. 

[…]

Fazia uma semana do ocorrido e não tinham trocado uma palavra sobre. Ela permanecia tensa mas tentava ignorar os fatos, ambos conversavam normalmente, porém a curiosidade corroia Carolina por dentro e ela precisava saber. Resolveu então que não iria na academia, combinaram de fazer uma noite de filmes, mas não era só isso que ela planejava. O casal sentou no sofá já com um enorme balde de pipoca e um copo de refrigerante, prestes a dar o play Eduardo foi interrompido:

– Eduardo, a gente precisa conversar.
– É sobre semana passada?
– Aham.. Edu… O que foi aquilo?
– Eu… – Diferente daquela noite, ele parecia mais envergonhado, relutante. – Eu matei alguém. Não foi um só. – Ele baixou o olhar.
– Quando começou?
– Faz três anos, eu acho, a primeira vez foi um acidente, ele veio me assaltar, eu tinha um canivete, eu gostei! – O moreno se animou enquanto falava, ignorando a expressão contorcida da esposa. – Não faço muito, em geral uma pessoa a cada três meses, para despistar. 
– Eduardo?! Meu Deus? Isso dá pelo menos doze pessoas!
– Eu sei, meu amor, mas você não tem que se preocupar, eles nunca vão me achar.
– E as vítimas? – Engoliu em seco.
– Pessoas sozinhas em becos escuros e vazios, me livro dos telefones e quanto aos documentos, estão em uma caixa debaixo da cama, são onze. – Carol e Edu trocaram olhares. – Você não tem que ter medo de nada, eu sei que é errado e eu vou tentar me controlar, tudo bem? – Ele sorriu e beijou seus lábios de leve, a outra apenas assentiu em silêncio. – Vamos ver o filme?

[…]

A culpa e o pavor lhe consumiam por completo. Carolina não aguentava saber de tudo aquilo e ficar quieta, tinha medo de chegar em casa e presenciar todo aquele banho de sangue ou algo pior. Ela não conseguia dormir direito, às vezes nem dormia, a ruiva perdeu total foco e em tudo e todos. Tinha parado de se exercitar, mas de alguma forma arranjava algum motivo para sair de casa e se manter longe. Todas as vezes que chegava e via as luzes apagadas seu coração batia rápido e a língua secava, até encontrar o marido dormindo. “Você não vai contar? Vai?” Mesmo depois de ficar sabendo, ela não conseguia parar de amá-lo.

Se preocupava com ele, queria vê-lo bem, às vezes ela se esquecia dos feitos de Eduardo, passavam horas juntos, riam, saiam para jantar, viajavam, ele continuava o mesmo. Porém, quando deitavam juntos, ela temia por sua própria vida. A culpa seguiu martelando sua cabeça e em três meses aquilo explodiu. Carolina sentia que iria acontecer de novo, pensou no sangue escorrendo no chão da cozinha e ensopando as roupas do moreno, os pelos da nuca se arrepiaram e o desespero pesou. 

A mesma esperou a saída do amado para revirar suas coisas, debaixo da cama achou tal caixa, tinham exatamente onze documentos, do jeito que ele disse. Lágrimas rolavam pelo seu rosto conforme lia cada um deles, ela temia por sua vida e a daqueles inocentes. Colocou tudo de volta, pegou as facas e coisas afiadas da cozinha e colocou tudo juntos, pegou o carro e seguiu caminho até a delegacia de coração apertado. Chegou lá e contou tudo que sabia. 

Falou daquela noite, mostrou as facas, identidades, tudo. Explicou que não sabia dos detalhes, não sabia dos corpos e nem dos métodos que ele tinha para escolher, não sabia de datas e disse exatamente o que Edu tinha te contado. Por meia hora ficou em uma sala na estação de polícia em prantos, não conseguia parar de chorar, suas mãos tremiam, ela estava nervosa e não conseguia pensar em mais nada. Assim que o policial abriu a porta ela arregalou os olhos, não sabia o que esperar, mas quando o tal lhe disse que haviam prendido seu marido ela conseguiu se acalmar.

Por três dias seguidos ela não dormiu, ainda não tinha falado com Eduardo e estava preocupada, não sabia de nada, apenas o que estava no jornal, televisão, em todo lugar. E então não resistiu mais, teve que vê-lo:

– Edu! – Ela disse assim que o viu pelo outro lado do vidro. 
– Carol… Eu senti sua falta. – Ele deu um sorriso mas logo baixou o olhar parecendo sentido e magoado. – Você contou?
– O que?
– Carolina. – Estava sério e tinha preocupação nos olhos. – Foi você?
– Aham, me desculpa. Eu não aguentei, eu sinto muito… – Uma lágrima solitária caiu por sua bochecha.
– Não queria que ficássemos juntos?
– Queria! É claro que eu quero!
– Como pôde?
– Eu… – A ruiva tentou falar mas logo foi interrompida.
– Carol, é melhor você ir torcendo para que eu morra aqui mesmo. Porque se eu sobreviver, você é a próxima. – Era de costume do moreno ficar sempre calmo, o que deixava a cena ainda mais assustadora, e então se retirou. 

Carolina saiu do presídio completamente desesperada, seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar, seu corpo estava trêmulo e sua cabeça doía. Entrou no carro e posicionou as mãos no volante, encarou a estrada antes de dar a marcha, precisava ir embora e precisava fugir, o mais rápido possível.

Engenharia e exatas: por que meninos se interessam mais que meninas?

Texto por Melissa Alfinito

Foto: Shutterstock

Não sei se vocês já perceberam, mas existe mais interesse em cursos de exatas por parte de meninos do que de meninas. É muito mais comum a gente conhecer vários garotos que querem fazer engenharia do que conhecer meninas interessadas nessa área. Sim, óbvio que existem mulheres engenheiras, mas a comparação é quase ridícula, porque a porcentagem de homens cursando engenharia ou já exercendo essa profissão é nitidamente maior do que o número de mulheres. Um exemplo é os Estados Unidos em que só 11% dos engenheiros no país são mulheres. Porém, existe uma explicação muito específica para esse, digamos, fenômeno.

Uma moça chamada Debbie Sterling notou esses fatos quando já cursava engenharia e talvez a gota d’água pra sua motivação em entender essa disparidade de interesses foi quando, em um dos projetos do curso, a classe tinha que desenhar algo tridimensional e ela teve uma dificuldade absurda, enquanto seus colegas homens terminavam com rapidez e facilidade. A partir disso e depois de quase desistir de engenharia, ela decidiu estudar o motivo e chegou à conclusão de que isso acontece por que nós, mulheres, não temos contato com o raciocínio da montagem e da lógica quando crianças, diferente dos meninos que sempre tem um brinquedo de montar. Parece bobo, mas estimuladas a quererem ser princesas desde cedo e apenas apresentadas à bonecas com historinhas românticas fazem, em grande parte dos casos, muitas meninas seguirem essa linha de pensamento e desenvolverem habilidades mais artísticas e comunicativas do que lógicas. De certa forma, não é um problema, mas é curioso observar a diferença gritante entre os brinquedos que os meninos têm quando pequenos e aqueles que meninas têm, pois parte-se de um ideal de comportamento que meninas devem seguir por serem meninas e assim, do mesmo jeito, com os meninos. 

Não há nada de errado em apresentar, igualmente, carrinhos, por exemplo, tanto para um quanto para outro, o que é até muito mais vantajoso, porque ambos terão a possibilidade de desenvolver as habilidades consequentes. Assim como também é muito interessante pensar na possibilidade de diferença de padrões que teríamos se, desde cedo, meninos fossem apresentados à Barbies e histórias românticas. Os dois aspectos dos brinquedos tendem para uma padronização de comportamento, mas o fundamental seria não só desconstruir essa ideia restrita, mas também balancear ambos os lados, incentivando o lado artístico, emocional, racional e lógico dos meninos e das meninas

Com amor, filosofia

Texto por Rafael Amin

Foto: Divulgação

O que é filosofia? Eu não soube responder quando a sobrinha do Joca me perguntou no meio da olimpíada de filosofia. Acho que conseguiria explicar correntes filosóficas, pensadores e conceitos, mas nunca pensei no que era filosofia em si. Depois disso eu parei para pensar sobre o assunto, levando em consideração toda a experiência da própria olimpíada, e acho que acabei ressignificando um pouco essa matéria.

Ao contrário de outras olimpíadas, a de filosofia não é uma prova e, sim, a apresentação de um trabalho artístico cujo o tema nesta edição foi felicidade. Isso quebra um pouco uma noção “intelectual” que muitas pessoas tem sobre a matéria e as primeiras aulas preparatórias refletiram isso. No começo só debatemos qual conceito de felicidade que abordaríamos no trabalho. Alguns alunos iam mais para um caminho Schopenhaueriano, já outros tinham tendências mais estoicas. Essas conversas não chegavam a ser pedantes, elas foram até um pouco caóticas para ser honesto, acabamos às vezes nos perdendo e fofocando sobre a vida.

Todo esse caos foi ganhando forma e depois de umas quatro aulas decidimos o que iríamos fazer: uma peça, um poema que acompanharia um vídeo e uma exposição interativa onde as pessoas escreveríam o que tira a felicidade delas. Mesmo assim as coisas continuaram um pouco bagunçadas, o roteiro não andava, tinha muitos atores e poucos personagens, mas no final tudo deu certo. E então, com tudo já pronto, fomos à São Paulo. 

Vencer é bom, não vou negar, mas a sensação de realização na olimpíada de filosofia é diferente. Não tem vencedores, mas simplesmente ver a apresentação que o grupo montou com tanto esforço foi algo indescritível. Quando tudo acabou senti uma vontade estranha de simplesmente aplaudir e abraçar todos os envolvidos. O resto do dia em São Paulo também foi fascinante, um choque cultural com as outras escolas, outros alunos e professores, e com a própria cidade de São Paulo. Tudo isso mostrou que filosofia não precisa ser pedante nem chata, ela é uma espécie de bagunça fantástica de ideias e pessoas.

Mas honestamente, mesmo pensando em tudo isso, ainda acho que não saberia responder o que é filosofia. Acho que nem quero, tenho medo de perder todo esse caos maravilhoso quando defini-la. Se eu pudesse responder a sobrinha do Joca agora acho que só daria uma risada, falaria que também não sabia direito o que era, só que tinha haver com amor e com sabedoria e que, um dia talvez ela seja, assim como eu fui e acho que os outros participantes da olimpíada também, amaldiçoada a amar essa matéria.  

Mudança: a constante da vida

Texto por Isabella Gemignani

Foto: autor desconhecido

O mundo, nas palavras do filósofo Heráclito, é um eterno devir. Afinal, a constância da vida reside, essencialmente, no fato dela ser inconstante. Estamos, o tempo todo, sujeitos à mudanças, sendo movidos ou movimentados por elas, criando-as ou sofrendo seus efeitos, e sendo transformados, minuto por minuto, dia por dia e ano por ano, por causa delas. Porém, entre todas as modificações que nos cercam, uma coisa permanece inerte: o fato de estarmos, sempre, vivendo conosco – presos em nossas cabeças e, ainda assim, incrivelmente livres. 

Pensar que é impossível fugir de si mesmo parece ser, a princípio, desconfortável, e mesmo solitário, já que, entre todas as sete bilhões de pessoas no mundo, o seu “você” é o único que vai permanecer, resistindo à todas as oscilações, desafios e ao tempo, rumo à eternidade. Mas, nessa unidade permanente entre o corpo e a nossa companheira mente, temos a oportunidade de, sozinhos e condenados à liberdade, escolher as cores com as quais pintamos nossas tábulas rasas e de nos aperfeiçoar, decidindo quem queremos ser em um universo de opções (escolha que, também, muda ao longo do tempo, pois, anos atrás, a pessoa que você é hoje simplesmente não existia). Nisso, estamos constituindo, pouco a pouco, o nosso dasein  – um projeto, sempre em construção, da pessoa que seremos no futuro, que será atingida por meio do amor próprio, ao casulo que nós construímos, que, quando praticado efetivamente, abrirá caminhos para tornarmos quem projetamos e sermos feliz em nossas escolhas, que fizemos e que fizeram nós. 

Esse amor a si. Não apenas um exercício de consideração própria, ele é uma prova do livre-arbítrio que carregamos em nosso dasein: se amar em um mundo que oprime, institui padrões e exige mudanças é um ato de liberdade inigualável e até de rebeldia. Talvez seja por isso que esse amor seja constantemente perdido e achado, mudado muito mais vezes do que deveria, já que mantê-lo por perto às vezes parece carregar um pesar totalmente diferente do que sentimos quando sentimos o amor. Ele é um sentimento que requer coragem e é um meio de construir asas, que, vindas tanto da dor quanto da felicidade, nos carregarão planeta afora, à medida que crescemos rumo a nossos objetivos. 

Obviamente, nem sempre saberemos para onde nortear essas nossas asas, dado que nem nossos corações nem nossos cérebros têm mapas nos dizendo onde devemos ir. No entanto, mesmo se perder em um caminho pode ser uma maneira de encontrar a si, ao outro (já que, embora nascemos sozinhos, não necessariamente assim andamos ou permanecemos), e a uma série de coisas incríveis e completamente desconhecidas. Às vezes, um salto no escuro é necessário para despertar aquela luzinha adormecida dentro de nós, afinal, são entre rumos “certos” e “errados” que as mudanças são despertadas.

Um certo autor que admiro certa vez disse que um homem pode se resumir a um dia de sua vida. Independentemente se existe um destino seu já estabelecido ou um que está sendo traçado nesse exato momento, somos no dia de hoje, apesar de nosso dasein ou outros planejamentos, dúvidas e ansiedades. A vida é agora e esse é o seu verdadeiro significado. Todos esses fragmentos desses instantes, que no futuro irão se juntar a outros pedaços e compor uma história, são momentos a serem vividos e aproveitados, porque é assim que é se sentir vivo nesse segundo.

“Tudo flui e nada permanece”, disse Heráclito. De fato, viver é mudar, constante e incessantemente. Mas talvez isso seja uma coisa boa, afinal de contas, se não recebessemos um empurrãozinho, jamais sairíamos do mesmo lugar, jamais seríamos quem somos hoje e jamais teríamos a liberdade de conhecer o universo que nos aguarda. Temos que usar nossas asas, feitas pelo amor próprio, para voar, com aqueles que amamos ao nosso lado, para fora de nossa colméia, procurando conhecer o mundo, que é tão grande, tão incrível e que espera por nós e pelo nosso projeto, em um ato de mudança.