Instagram tira números de curtidas e incentiva usuários a tirarem as máscaras também

Texto por Melissa Alfinito

Foto: Justin Sullivan/Getty Images

A forma como as pessoas se relacionam atualmente nas redes sociais tem se transformado em um comportamento cada vez mais intenso e vazio. Se por um lado muitas pessoas utilizam o meio virtual apenas para propagandear produtos ou para se informar, por outro, há aquelas que se envolvem na rede para criar imagens que nem sempre ilustram a realidade. Quando pensamos em exposição de personalidade não consideramos o lado negativo e também não esperamos ver abertamente esse compartilhamento de outras pessoas. 

Por isso, a internet se tornou um ambiente onde todos, ou quase todos os usuários, criam máscaras para se apresentar publicamente esperando se encaixar em um padrão surreal que a rede e a sociedade exigem. Podendo também essa máscara ser chamada de “persona”, o psiquiatra Carl Jung a define como “originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma, quando, na realidade, não passa de um papel”. Além disso, Jung a coloca como essencial para a construção da imagem em ambientes formais onde precisa-se de um comportamento mais controlado. Um exemplo é não se comportar em um ambiente de trabalho como se comporta em uma festa com amigos, utiliza-se a persona para moldar sua individualidade e se apresentar de maneira pertinente.

O problema começa quando quem põe essas máscaras esquece de tirá-las e a imagem inventada se transforma numa personalidade irreal fixa. Esse problema piora quando é percebido nas redes sociais. Inegavelmente, qualquer um que é usuário do mundo virtual nota a quantidade de pessoas que forçam imagens, corpos e vidas perfeitas para atrair seguidores e “likes”, ou para evitar que a atenção chamada seja negativa atraindo julgamentos causados pelo estranhamento de ser puramente real. A invenção de uma vida perfeita não prejudica só quem finge, mas também quem evidencia e acompanha essas realidades distorcidas, pois esse comportamento se torna uma espécie de regra que faz usuários duvidarem de sua própria essência e personalidade, incentivando-os a tentar mudá-las para se encaixar no padrão.

Mas, finalmente, algo foi feito e o começo de um resultado positivo foi despertado pela ação do Instagram de tirar a visualização das curtidas nos posts. Agora, apenas quem posta a foto ou o vídeo pode ver quantas pessoas “deram like”. Mesmo sendo algo pequeno e ainda sendo possível ver números, é uma boa iniciativa para quebrar a obsessão pela atenção e pelo desejo de agradar, pois muitos usuários já perceberam a vantagem da mudança e comentaram sobre o impacto positivo.

“Nós queremos que seus amigos foquem nas fotos e vídeos que vocês compartilham não em quantas curtidas recebem. Você ainda consegue ver os “likes” das suas fotos clicando na lista de pessoas que curtiram mas seus amigos não.”
“Opinião não-popular: O Instagram tirar as curtidas é uma ótima ideia. Muitas garotas (inclusive eu) se comparam com outras baseadas em quantas curtidas recebem. Dane-se isso. Vocé é linda sendo você mesma e a quantidade de “likes” não pode te tirar isso. Ponto final.”

Já passou da hora de deixarmos essa sede por números de lado. Nós classificamos corpos e vidas de acordo com imagens postadas e isso é muito perigoso! Vamos viver o real e aproveitar o agora sem numerar ou nos preocupar com quantos “likes” a foto que você postar vai ter. Não compare suas qualidades e a sua beleza com a dos outros, cada um tem sua singularidade e curtidas em fotos não fazem ninguém ser melhor que ninguém!

Anúncios

Conheça a história do gato que mudou a física quântica

Texto por Pedro Frezza

Arte: Autor desconhecido

Não, você não entendeu errado.  Há 84 anos, o físico teórico Erwin Schrödinger, em 1935, publicou sua teoria sobre um misterioso gato que estava vivo e morto ao mesmo tempo. Neste momento você deve estar pensando que esta história não passa de papo furado, mas tenha calma. Vamos te mostrar quem é esse cara e a incrível magnitude e profundidade de seus pensamentos ao redor da física quântica. (Ps: Exercitaremos bastante a sua imaginação.)

Ganhador do Prêmio Nobel em 1933, Erwin Schrödinger dedicou sua vida a estudar os mistérios da mecânica quântica, chegando até a criar uma equação com seu próprio nome! Devido a grande complexidade de suas teorias, ele elaborou um experimento/paradoxo mental, conhecido como o Gato de Schrödinger, para explicar toda essa confusão física para nós leigos.

Bom, antes da história do gato vivo-morto, é preciso apresentar um conceito para facilitar seu entendimento sobre este paradoxo. Falaremos agora sobre a teoria da Superposição dos átomos, que é um tanto quanto confuso, mas fará seus minutos valerem a pena. Esta pode ser entendida como o estado da incerteza ou não-conhecimento sobre as condições de que um corpo está sujeito. 

Imagine um pirulito com uma embalagem surpresa e seus vendedores indicam que este pode ter sabor de framboesa ou tutti-fruty, desta maneira, você não sabe qual será o gosto do pirulito antes de colocá-lo na boca. Schrödinger entenderia que o pirulito não possuiria apenas duas classificações (framboesa ou tutti-fruty), mas também uma terceira, que seria representado pelo momento anterior ao ato de introduzi-lo na boca, onde nos encontramos em um estado de incerteza sobre qual será o gosto do pirulito.

Agora, transfira essa situação para um átomo que pode se apresentar de duas formas, contendo a energia B ou contendo a energia A, formando assim, um sistema de dois estados. Neste caso também podemos identificar uma terceira condição, que é chamada de Superposição, momento anterior à análise do átomo, onde não é possível ter certeza sobre qual é a sua energia. Desta maneira, é extinguido o estado de superposição ao quantificar e classificar o átomo em questão (instante após colocarmos o pirulito na boca onde descobriremos seu sabor saindo do estado de não conhecimento em relação ao seu gosto). 

Foto: Revista Galileu

Não é possível quantificar ou classificar um átomo em superposição, pois esta é a condição da incerteza, onde não conhecemos sua composição específica. Ao sanar a dúvida por analisá-lo (descobrindo sua energia), excluímos a incerteza (superposição) e este assumirá, automaticamente, o valor da energia A ou da energia B, anteriormente citados. Ou seja, o átomo decidirá seu valor no momento em que paramos para observá-lo. Isto nos leva à interessante conclusão de que não é possível medir o valor de um átomo em estado de Superposição. 

Contudo, também nos leva a crer outra coisa, imagine agora que este átomo é a nossa vida, a partir deste referencial pode-se inferir que todos fatores tangíveis e visíveis a nossa realidade são gerados momentaneamente, em outras palavras, apenas quando algo é notado sua existência se concretiza, mas, antes de ser observado, o objeto em questão poderia até mesmo não existir, pois não o conhecíamos até então. Totalmente contra intuitivo, não é mesmo?

Entendendo este conceito é possível introduzir o verdadeiro assunto desta matéria. Neste momento crie um cenário em sua cabeça. Idealize uma caixa com um gato dentro, estando este totalmente isolado do exterior. Agora insira dentro desta caixa uma substância radioativa e um medidor de radiação (Contador Geiger). Pronto, os materiais já foram colocados, agora vamos entender como o experimento funciona. 

Caso a substância radioativa ali dentro enfraqueça (decair em termos físicos), o medidor de radiação identifica esta alteração e ativa um mecanismo que matará o gato, mas caso isso não aconteça, o animalzinho continuará vivo. Contudo, lembra daquele composto mortal que você colocou dentro da caixa? Então, ela está em estado de superposição, em outras palavras, ela pode enfraquecer (decair) ou não, por consequência, o gato inteiro entra em um estado de vida ou morte, pois não se sabe se ele morrerá ou não. 

Portanto, o gato não está vivo nem morto, ele apenas se encontra em estado de superposição, já que a sobrevivência dele depende de outro corpo (substância radioativa). Em adição, pela lógica que propusemos no parágrafo anterior, se por acaso decidirmos olhar dentro da caixa para dar uma checada no gatinho, ele sairá de seu estado de superposição e você poderá observar se ele bateu as botas ou se permanece firme e forte. E aí, para você, o gato está vivo ou morto? Boa sorte ao quebrar a cabeça para tentar desvendar este paradoxo!

FOTO: ZANSKY, REBECA CATARINA E GUILHERME HENRIQUE
FOTO: ZANSKY, REBECA CATARINA E GUILHERME HENRIQUE
FOTO: ZANSKY, REBECA CATARINA E GUILHERME HENRIQUE
FOTO: ZANSKY, REBECA CATARINA E GUILHERME HENRIQUE

Inimputável

Conto por Victória Lopes

Seus olhos corriam rapidamente pelo cômodo tentando processar todas as informações. O sangue escorria pelas paredes que um dia foram brancas, assim como lágrimas escorriam pelo seu fino rosto. Ele estava atordoado e ofegante perante ao corpo sem vida estirado no chão do quarto. Não era difícil reconhecê-lo, sendo ele de seu irmão mais novo. Por breves minutos tudo que se conseguia escutar eram suas batidas de coração aceleradas e a chuva batendo ruidosamente na janela. Assim que Alec tentou se afastar, a cabeça começou a rodar e ele bateu com os joelhos no chão respirando fundo. A cabeça doía e ele sentia marteladas constantes e ritmadas de dentro para fora. 

O sangue agora jazia em suas mãos e roupas deixando o garoto sem saber o que fazer. Ele se ergueu novamente e girou pelo quarto procurando uma escapatória enquanto olhava para todos os cantos com a visão turva. O pobre coitado sentia o pânico crescer dentro de si e o consumir. As loucuras e insanidades que ele pensava podem ser consideradas grandes absurdos,mas ele não conseguia sair disso. Sentiu suas palmas já molhadas de sangue familiar começarem a suar e tremer, calafrios teimavam em subir pela espinha e parar no cérebro causando curto-circuito completo. A dor de cabeça aumentava a cada movimento e dessa vez ele precisou parar tudo que fazia combatendo o instinto de gritar.

Ainda rondando o quarto que nem louco em busca de uma solução, ele escutou o barulho que o fez enlouquecer de vez. Agora escutava passos, se vinham do andar debaixo, dos quartos ao lado ou do sótão ele não sabia. Também não estava muito afim de descobrir. A adrenalina marcou presença e ele parou. Parou de andar, de chorar e de tremer, focando apenas no som que ecoava pela casa. O andar pesado que ele escutava antes tinha cessado e, mais uma vez, tudo que ele escutava era a chuva se chocando contra a janela. 

Decidido de suas ações e sem emitir barulhos, ele foi até o banheiro e colocou tudo que antes tinha deixado em cima da pia nos bolsos: remédios, carteira e o telefone. Alec evitou ao máximo olhar no espelho e encarar o próprio rosto, não queria ver o sangue, nem as lágrimas, as olheiras ou o pânico nos olhos. Ao sentir pés rangendo com proximidade de onde estava, com toda a rapidez, correu para a janela de seu quarto, a escancarou e pulou do primeiro andar. 

O impacto de seu corpo nas moitas do jardim aliviou a queda, mas não o livrou da dor de um tornozelo machucado e cortes por toda pele nua causados pelas plantas. A imagem de seu irmão tombado e ensanguentado ao lado de um martelo insistia em aparecer cada vez que ele fechava os olhos, mesmo assim ele levantou mancando e tremendo. Mais uma vez ele saiu correndo ao ouvir a janela se escancarar.

Embora fosse uma noite chuvosa, ele corria que nem um maluco desesperado para despistar quem quer que estivesse em seu encalço, quem quer que tinha matado seu irmão. A tempestade teimava em chicotear as casas e carros, as árvores sacudiam com o vento e todas as luzes jaziam apagadas deixando a iluminação natural da lua dar um ar fantasmagórico ao ambiente. Todos os ruídos da noite eram dissipados, exceto um deles: os passos fortes no meio de pequenas poças d’água.

Os pulmões de Alec queimavam e já tinha se tornado mais difícil de respirar, mas aquelas pisadas ainda estavam em sua cola, logo atrás dele e o pobre rapaz se recusava a virar para encará-lo nos olhos. O medo subia pela espinha e a visão começava a borrar, ele ainda não conseguia processar todas as informações daquela noite e para ele tudo era uma mancha grande e escura. Imagens rápidas de todo aquele sangue esguichando pelas paredes e de seu irmão caindo no chão surgiam como um turbilhão em sua mente.

Ele estava extremamente cansado e a dor do tornozelo subia pela perna, ele se sentiu obrigado a parar. Correu até um beco e se escondeu atrás de uma lata de lixo, estava ofegante e dolorido, colocou a cabeça entre as mãos e esperou pelo pior. Tudo que o rapaz escutava agora era seu próprio coração, alto e rápido. Suor e chuva cobriam ele da cabeça aos pés, ele começou a tremer de frio mesmo com a temperatura corporal alta. Após alguns minutos tentando processar tudo, ele finalmente percebeu a ausência de passos, estava sozinho e tinha despistado quem o seguia. Ainda de estômago embrulhado, ele se levantou e olhou atentamente para os lados aliviado, o tornozelo ardia e os pulmões pareciam pegar fogo.

Foi quando ele se apoiou na parede para pegar fôlego que tudo veio à tona. Ele apalpou os bolsos da calça procurando os remédios, olhou os dias da semana e, para sua surpresa e desespero, os de hoje estavam completos. Era difícil para Alec manter a sanidade sem eles, desde pequeno sempre teve os mesmos problemas, perdi completa noção de espaço e tempo, tinha blackouts, perdia horas na memória e não se lembrava de coisas que fazia. Assim que ele passou a respirar mais facilmente ele se forçou a lembrar, queria lembrar da noite toda. Tinha que se lembrar da noite toda. Era difícil se concentrar com toda aquela chuva, cada segundo que passava parecia que ela ficava mais violenta e ele não aguentava mais ficar ali.

De súbito se lembrou de agarrar o martelo com as próprias mãos e acertar direto na cabeça de Peter, uma, duas, três e quatro vezes. Ele afundou o rosto nas mãos em puro desespero. Lembrou-se do sangue esguichando e escorrendo pelas paredes. Ele não conseguia lidar com a própria consciência, a dor no tornozelo voltou forte e ele sequer sabia em qual beco estava. Deviam ser quatro da manhã e ele nem se atreveu a olhar para o telefone, não sabia o que fazer. Será que os vizinhos tinham escutado? E se tivessem, tinham ligado para a polícia? Alec não tinha escapatória. Ele se escorou na parede enquanto soluçava violentamente. Era tudo culpa dele, de mais ninguém. E agora nem tinha mais o que fazer.

Por quê o reservatório de Los Angeles virou uma piscina de bolinhas?

Texto por Noah Mendes

Foto: EPA

O Reservatório de Los Angeles, na Califórnia, tem usado 96 milhões de ‘Shade Balls’ (ou bolas de sombra em tradução livre) como uma solução para o problema da água que está chegando cancerígena nas torneiras. A medida também está ajudando a combater a evaporação e excesso de cloro.

A água estava chegando contaminada durante o processo de filtração, pois o brometo (não-cancerígeno) vindo da água salgada reagia como o ozônio (não-cancerígeno) e produzia bromato (cancerígeno). Essa reação tinha como produto apenas três microgramas por litro de bromato, o que estava dentro das regulações permitidas de até 10 microgramas por litro. Porém, quando testaram essa mesma água no momento em que chegava às torneiras, foi encontrado dez vezes mais bromato. Com isso, foi possível perceber que entre a filtração e a torneira havia o reservatório aberto onde ocorria uma outra reação química. Quando a água chegava no reservatório aberto, o brometo e o cloro (usado para a purificação da água) em contato direto com os raios UV produziam ainda mais bromato do que quando se tinha o ozônio.

Gif: Reprodução/BBC

Com isso veio a ideia de usar as “Shade Balls”. Elas são bolas que se assemelham às de uma piscina de bolinhas, porém são pretas e  feitas de polietileno revestido com um material que bloqueia a passagem dos raios ultravioletas. Elas também são enchidas parcialmente com água para evitar que voem facilmente e parem nas estradas que passam perto do reservatório. 

As Shade Balls são pretas pois o pigmento preto é seguro para ficar em contato com água potável, dura mais de 10 anos e a melhor cor para bloquear os raios UV. Com isso, elas evitam a formação do bromato, a proliferação de algas (dispensando o uso abundante de Cloro) e a evaporação em excesso (como são enchidas predominantemente com ar elas conseguem manter a água menos quente).

Filme “Rocketman” e a busca pela essência

Texto por Ana Badialle

Elton John e Taron Egerton na première do filme (Foto: Getty Images)

“Você deve matar a pessoa que nasceu para se tornar a pessoa que você quer ser?”, diz um artista conceituado do estilo jazz e soul ao jovem Reginald Dwight, que decide então seguir o conselho e passa a se apresentar como Elton John. Essa passagem consegue refletir o que o filme “Rocketman”, lançado no Brasil dia 30 de maio de 2019, transpassa com sua narrativa. 

Rocketman trata-se de musical longa-metragem sobre momentos de ascensão e queda do músico inglês Elton Hercules John. O longa baseia-se em uma visão honesta e bem intimista para contar sua história que tem seu ponto de partida em uma sessão de terapia. 

Elton, interpretado por Taron Egerton, confessa seus problemas como alcoolismo, bulimia, vícios e dificuldades emocionais, e conta como ele precisa de ajuda para superá-los, revelando-o como um ser humano, que atrás das fantasias e acessórios extravagantes possui suas fragilidades, cicatrizes e dificuldades.

Como uma biografia, Rocketman não busca ser totalmente verossímil e próximo à uma realidade documental e, sim, muito mais uma visão proporcionada pelas lembranças e impressões que o protagonista possui de si mesmo. Seus momentos de queda acompanhados pelo uso de drogas, que agravaram seu conflito emocional e suas relações com aqueles que acompanham sua carreira e sua vida, é revelado sem pudor ou suavização.

Dessa forma, é possível notar uma interpretação, por parte de Taron Egerton, emotiva e sincera que colabora com o tom épico, exagerado e conflituoso que a biografia traz. Em diversos momentos, é intensificado valores como a criatividade e a liberdade proporcionadas pelas composições repletas de lirismo de seu parceiro musical, como compositor de suas letras e amigo próximo, Bernie Taupin, interpretado por Jamie Bell. O mesmo demonstra carisma ao estar sempre ao lado de Elton o apoiando em seu sucesso e em seus momentos de desequilíbrio, dando ao filme uma dose de companheirismo e compreensão. 

Além da experiência fílmica e biográfica, Rocketman possui sua relevância social em relação à representatividade LGBTQ+. Elton é uma figura pioneira e relevante para a diversidade. Atualmente ele vive com seu marido, David Furnish, e seus dois filhos, mas ele chegou a assumir sua sexualidade na década de 1980, momento em que havia enorme preconceito e intolerância, juntamente do surto do vírus HIV, que acarretou uma bagagem de ignorância maior ainda para cima daqueles que fugiam do padrão normativo imposto.

Por isso, o fato de existir um filme de sucesso celebrando uma pessoa tão icônica na luta contra o preconceito é essencial na atualidade. A cinebiografia não diminui em nenhum momento o impacto da sexualidade de Elton na sua vida, especialmente, na relação com seus pais, que dificilmente lhe deram apoio e suporte para enfrentar a discriminação e a dificuldade encontrada na época para não ser alvo de comentários e ações de ódio da maior parte da sociedade. 

Com isso, a falta de aceitação por parte da família, a impossibilidade de se sentir completo e a solidão são fatores profundamente explorados na história. É comum indivíduos LGBTQ´s sentirem dificuldade de se aceitar ou simplesmente compartilhar algo tão básico de sua vida com pessoas próximas, levando a problemas mais profundos como depressão, uso de drogas e outras doenças psicológicas decorrentes. O fato de isso ser mostrado de maneira honesta no cinema traz conforto e identificação para muitas pessoas, sejam elas parte da geração que viveu nos anos apresentados pelo filme ou mais novas, jovens que precisam de representatividade correta, que os ajudem a se compreender de maneira mais aberta. 

Rocketman dessa maneira cumpre seu papel como um musical empolgante, mas ao mesmo tempo, como uma cinebiografia que procura a essência de seu protagonista ao passo que a história avança e o artista se desprende de suas alegorias para ser mais honesto consigo e com sua arte. Como o próprio músico canta em um de seus sucessos “I´m still standing”, ele ainda está seguindo e livrando-se de seus medos, vícios e disfarces, como qualquer outro indivíduo que precisou se perder muitas vezes para finalmente se estabilizar como a pessoa que nasceu para ser. Pode soar clichê e exagerado, mas assim como seu filme e suas músicas, é verdadeiro. 

As várias faces do projeto de Criminalização da LGBTFobia

Texto por Ana Luiza Badialle, Anita Scaff, Beatriz Freitas e Caio Gomes

Foto: Reprodução

Em fevereiro, o Supremo Tribunal Federal iniciou o processo de julgamento do Mandado de Injunção 4.733 e da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão 26, nos quais, em outras palavras, possibilitam obter provimento que conduza à “criminalização específica de todas as formas de homofobia e transfobia”. O projeto de Criminalização da LGBTfobia foi aprovado na última semana (13), trazendo, simultaneamente, críticas e glorificações de grupos distintos. A seguir, entenderemos o porquê de tal ação ser um grande avanço na conquista dos direitos LGBT, mas críticas devem ser tecidas, de qualquer modo.

O que é LGBTfobia? E por que a criminalização da LGBTfobia é importante?

LGBTfobia faz referência a qualquer ato ou manifestação de ódio ou rejeição a homossexuais, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, baseado somente em sua orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Atualmente, a situação na qual a comunidade LGBT se encontra não é a das mais desejáveis, tendo direitos básicos negados em diversos países do mundo e, isso somado a violências e discriminações diárias sofridas pela comunidade.

Quanto ao  Brasil, no dia 8 de fevereiro de 2019, o Grupo Gay da Bahia divulgou um relatório sobre  violência contra LGBTs no país. Os dados são referentes ao ano de 2018, em que foram registradas 420 mortes – por homicídio ou suicídio decorrente da discriminação – de integrantes da população homoafetiva e transexual. O relatório mostra que, desde 2001, houve aumento significativo no número de mortes de LGBTs causadas pela discriminação. Naquele ano, registraram-se 130 óbitos. Em 2008, foram 187. Já em 2017, atingiu-se o número recorde de 445 mortes.

São poucos os países em que a união civil entre pessoas do mesmo gênero é permitida e, em ainda menos países, há proteção constitucional dos direitos da comunidade. Segundo relatório elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais, divulgado em março de 2019, vinte e seis países reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo; 27 regulamentaram as uniões civis; e 72 nações têm leis que protegem gays e lésbicas contra a discriminação no trabalho. Apenas 39 países têm normas que punem o incitamento ao ódio, a discriminação e a violência contra uma pessoa por causa da orientação sexual, e 28 permitem que gays e lésbicas tenham acesso à adoção.

No entanto, em outros países do mundo, a situação é ainda mais crítica. Em locais como Iêmen, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Mauritânia, Qatar, Nigéria, Somália, Sudão e Emirados Árabes Unidos, ser LGBT é um crime cuja punição é pena de morte. Em outros 60 países do mundo, ainda é crime ser LGBT e, as punições incluem chicotadas, prisão perpétua de até 20 anos e apedrejamento até a morte. Desse modo, fica claro como a criminalização da LGBTfobia é necessária e urgente.                        

Sobre A Proposta

O projeto (PL 672/2019) foi aprovado na última semana, com 8 votos a favor e 3 votos contra. A proposta consiste em uma interpretação da Lei do Racismo que inclua crimes que envolvam LGBTfobia, uma vez que ainda não existam legislações próprias para o assunto. O autor do projeto é o senador Weverton Rocha (PDT-MA), mas a versão aprovada é a do relator Alessandro Vieira (Cidadania-SE). As punições incluem reclusão de um a três anos e pagamento de multas para aqueles que discriminarem qualquer indivíduo por orientação sexual ou identidade de gênero. Não permitir o acesso ou atendimento a essas pessoas em estabelecimentos comerciais, impedir suas manifestações de afeto em público, demissão ou não aceitação em empregos e negação de promoções por preconceito são alguns dos fatores que promovem tais punições. No entanto, em estabelecimentos religiosos, as punições são descartadas pois, de acordo com o relator, “não se pode invadir um templo religioso para fazer coisas que aquela religião não aceita”.

Problemáticas do #CriminalizaSTF

O STF está fazendo um julgamento de duas ações ligadas à LGBTfobia que foi solicitada por um grupo de movimentos. Os pedidos são que o STF considere que a Câmara e o Senado, ou seja, o Legislativo, foram omissos ao não julgar esse tema antes; e também que ele assuma a missão de resolver essa questão, dando uma nova interpretação para uma lei que já existe – a de racismo – visto que ele não pode criar leis, sendo seu único poder regular a aplicação das já existentes. Com isso, surge uma série de problemas que devem ser analisados.

Primeiramente, é preciso entender que, como dito antes, o STF não vota leis. Uma vez que isso é função do Legislativo, da Câmara dos Deputados e do Senado, não cabe ao STF propor leis, e, portanto, não há nenhuma lei a ser votada, construída ou aprovada.

Além disso, o fato de ter sido considerado um pedido omitido anteriormente abre um precedente perigoso, que pode fazer com que grupos de interesses se sintam no direito de levar para o STF toda pauta que não conseguirem vencer no congresso.

Além de que, ampliar a lei de racismo, inserindo a questão da LGBTfobia, é considerá-la um tipo de racismo. Isso trará problemas futuros no entendimento jurídico sobre a distinção de racismo e LGBTfobia, com desafios muito sérios no processo de elaboração de políticas públicas de combate a ambas.

Ademais, as leis que punem racismo no Brasil só tipificam a injúria racial, que são ofensas, xingamentos e incitação ao ódio, e os casos de discriminação racial, que na lei nada mais é do que o tratamento discriminatório em estabelecimentos comerciais e serviços públicos. Dessa forma, a lei da LGBTfobia não incluirá casos de agressão física, lesão corporal e assassinatos.

Por fim, deve-se lembrar que a lei do racismo já existe há 30 anos e foi responsável por poucas mudanças nas relações raciais no Brasil, o que nos leva a pensar que, se ampliar essa lei, incluindo a LGBTfobia, terá o mesmo efeito. A questão é que a ideia de criminalizar a LGBTfobia é boa, mas o modo como estão pedindo ao STF pode gerar mais problemas futuramente, se não for trabalhado com cautela.

Significado para os LGBTQs

Apesar de não ter sido efetuada de modo ideal, a criminalização da LGBTfobia representa um respaldo para a Comunidade LGBT quando trata-se de sua discriminação, algo que gera um reconhecimento maior das necessidades próprias de uma minoria. Como já mencionado antes, ser uma pessoa LGBT inclui uma série de dificuldades e desafios trazidos pela sociedade majoritariamente conservadora, oferecendo riscos e situações não vividas por quem não pertence à uma minoria social.

Por isso, a necessidade de haver um recurso que tipifique o tipo de agressão sofrida, especificamente, por quem foge às normas cis e heteronormativas, é relevante e representa um passo no reconhecimento dos direitos LGBT´s que também são direitos humanos necessários para a construção de uma sociedade mais justa. Portanto, apesar das problemáticas trazidas pela forma como foi realizado o processo, o reconhecimento da LGBTfobia pelo STF é um pequeno avanço dentro de um período com uma onda tão conservadora e perigosa para os LGBT´s.

Por fim, é importante ressaltar que mesmo já tendo ocorrido uma maior aceitação e normatização da Comunidade, isso não é uma regra para todas as realidades e locais, o preconceito é algo que precisa ser constantemente enfrentado e questionado. Mas não importa se você é afetado ou não por ele, qualquer tipo de discriminação representa um retrocesso que deve ser essencialmente combatido. Pense nas outras pessoas, nas outras realidades, considere além de suas dificuldades, pois ser parte de uma minoria requer apoio para que se possa viver plenamente com seus direitos.