A humanidade vai para Marte?

Texto por Pedro Frezza

Possível estrutura de colonização em Marte (Foto: Divulgação)

Dentre todas as empresas que realizam exploração espacial, a SpaceX é considerada uma das mais promissoras no ramo. Um dos fundadores da empresa, o engenheiro e empresário, Elon Musk, é uma mente brilhante que traz para realidade a possibilidade de levar seres humanos para Marte através de super foguetes. Os empecilhos e as dificuldades para levar seres vivos para outro planetas são incontáveis, pois apesar de parecer lindo e luminoso, o espaço (fora de ambientes planetários) é um ambiente que, além de inibir a formação de qualquer forma de vida, também é letal para qualquer um dentro de seus domínios. Por isso, muitos querem saber como Elon Musk fará para levar humanos para um lugar a milhares de quilômetros de distância, em uma viagem que dura meses, dentro de um “cilindro de metal”. 

Bom, primeiramente precisamos entender a trajetória da SpaceX em seu programa espacial. Mesmo aparentando ser perfeita, muitos erros foram cometidos e MUITO dinheiro foi perdido por conta de testes mal-sucedidos de sistemas de propulsão e aerodinâmica, levando a algumas explosões de aeronaves. Em um documentário, Elon Musk demonstra sua coragem e determinação ao investir grande parte de suas economias no desenvolvimento de novas tecnologias espaciais para empresa SpaceX. Em um momento, ele afirmou que possuía capital suficiente para financiar a construção de três protótipos de aeronaves, falhando miseravelmente em todas. Mesmo na falta de recursos financeiros, a empresa não desistiu, procurando investimentos exteriores para ganhar novas chances de produzir uma nave funcional. Após este contratempo que a SpaceX sofreu, logo encontraram investimentos suficientes para voltar a produção, chegando no modelo Falcon 9 SES-10, que contou com uma tecnologia pioneira no ramo de reutilização de foguetes, que foi muito bem sucedido.

A cada dia nos aproximamos mais do inimaginável. No passado, especularam que estaríamos voando em carros voadores, mas ninguém imaginou que estaríamos tão perto de chegar em outro planeta. Atualmente, Elon Musk, junto com sua equipe, trabalha diariamente na construção de novos modelos, entre eles estão o Falcon Heavy e Starhopper. Todos possuem tecnologia inovadora de lançamento e aterrissagem, projetados para realizar o trajeto Terra-Marte, cada vez mais rápido, demorando cerca de um ano para chegar até o planeta. 

Não sei se você percebeu, mas até agora só falamos sobre como ir até Marte, mas ainda não falamos como faríamos para nos manter lá, será que a SpaceX também tem planos para isso? Bom, a curto prazo, a empresa já estabeleceu e está desenvolvendo algumas tecnologias para assegurar o bem estar e segurança dos astronautas, entre os aparatos envolvidos pode se apontar projetos de rovers (“carros”) marcianos, módulos pressurizados e sistemicamente isolados do ambiente exterior do planeta. Contudo, há um problema, o planeta marciano possui uma atmosfera muito rarefeita, ou seja, a radiação solar chega à superfície do planeta com facilidade, sendo muito nocivo para seres humanos, sendo um grande obstáculo a ser superado. Atualmente, não temos nenhuma solução certas para este problema, entretanto, Elon Musk passa no momento por um “Brainstorming” de ideias, o que o levou a estipular algumas soluções um tanto quanto “loucas”. Uma delas envolve ao envio de balões para a atmosfera marciana que juntos tenham transmissores capazes de criar um campo eletromagnético que se assemelham à atmosfera da Terra, protegendo seres vivos da intensa radiação solar. Outra solução proposta por ele ficou conhecida como “Nuke Mars”, consistindo na explosão de bombas de fusão nucleares (não emitem radiação) na órbita de Marte para criar “sóis artificiais”, com isso, as calotas polares do planeta iriam derreter e criar condições favoráveis para a formação de uma atmosfera, resolvendo o problema da radiação solar.

Portanto, é muito provável que a chegada do homem no planeta marciano é apenas uma questão de tempo, ocorrendo dentro da próxima década, em 2024. Com o intuito de tornar sonhos em realidade, existem muitos físicos e engenheiros trabalhando arduamente para atingir o que é visto como intangível e nos levar para cada vez mais distante. Desta maneira, respondendo ao título do texto, SIM, nós iremos para Marte.

Maquiagem: A necessidade de cobrir aquilo que você é com aquilo que a sociedade quer que você seja

Texto por Melissa Alfinito

Foto: Shutterstock

Você já parou para analisar o quanto de você fica debaixo das camadas de base e corretivo que passa todo dia? Já parou na frente do espelho e olhou no fundo dos seus olhos, bem lá no fundo, e refletiu sobre o porquê você passa maquiagem? 

Pense de verdade.

Você pode achar, por um momento, que faz isso porque se sente mais bonita e, de fato, você se sente mais bonita. Mas se aprofundarmos a reflexão e olharmos por um lado mais social da coisa, percebemos que talvez esse sentimento tenha sido colocado dentro de você.

Desculpa, eu não quero acabar com a graça da maquiagem, mas eu quero fazer você pelo menos tentar pensar que aquilo que você é vale muito mais a pena do que a imagem distorcida que cria de si mesma.

Se analisarmos a questão da maquiagem nos dias atuais, podemos perceber toda a propaganda em cima do conceito de beleza, que, consequentemente, desencadeia mais uma reflexão: o que é, de fato, beleza? Para mim pode ser algo que eu posso reduzir a uma única pessoa, ou a uma obra de arte, ou a uma música. No entanto, para você ela pode ser algo completamente diferente e isso faz com que tenhamos comportamentos também diferentes. Portanto, é aí que mora o problema, porque se o conceito de beleza que você aplica no seu dia a dia for diferente do que outra pessoa aplica, haverá julgamento. E esse julgamento, seja direto ou subjetivo, constrange e, a partir disso, surgem as noções de que é, por exemplo, necessário sair com maquiagem para se sentir bem fora da zona de conforto. Porque estar fora da zona de conforto nos faz correr o risco de sermos julgados e isso assusta, não é?

Além disso, é impossível dizer que as propagandas não nos afetam, nem que seja de uma forma mínima, e esse impacto também gera o medo inconsciente de não seguir o padrão.

Veja bem, você já notou como as meninas reclamam quando aparece uma nova espinha no rosto? Ou quando há algum tipo de compromisso que as faz pensar que têm que estar mais bonitas e arrumadas que o normal? Já ouviram alguma menina avisar que vai se atrasar porque têm que se maquiar? Percebemos aí o comportamento inconsciente.

Obviamente, há a questão da vaidade, pensar na beleza pra si, não descarto esse pensamento. Mas, junto com isso existe, sim, a influência da mídia e a concepção de se sentir bem por estar dentro do conceito aceito pela sociedade. É pensar que eu tenho que estar bonita porque, na festa que eu vou, as meninas bonitas estarão lá também e se eu chegar “exposta apenas com a realidade”, me sentirei inferior. A maquiagem transmite a falsa sensação de igualdade diante do padrão imposto, inconscientemente, na sociedade ou nas mini sociedades nas quais vivemos. Não há problema algum em expressar arte através da maquiagem, por exemplo, ou usá-la porque isso te faz puramente bem, mas se dentro de você existe qualquer tipo de pensamento voltado a agradar outras pessoas e não unicamente a você, então vale repensar esse hábito.

É um processo longo para se conquistar a verdadeira admiração por quem somos. Nós não nos vemos 24 horas por dia, fazemos isso graças ao espelho, mas enxergamos constantemente o outro e a maldita comparação acaba sendo inevitável. Se amar é uma parada mais complexa. Não vim aqui copiar e colar textos de livros de autoajuda e motivação baseadas no #LoveYourself, entendo que é complicado atingir a plenitude em um mundo tão doido e diverso movido pelo consumismo. Mas, digo novamente, é um processo e nós não podemos nunca abrir mão de, no mínimo, tentar enxergar nossas qualidades e nossos defeitos e aceitá-los. A maquiagem faz trabalhos incríveis, mas, primeiro, tente enxergar o que e como você é, sem fugir da realidade nem tentar cobrí-la, literalmente. 

Está tudo bem ser assim, exatamente do jeitinho que você é.

Entenda os possíveis riscos dos cortes na Educação

Texto por Enrico Zanetti

Foto: Maria Eduarda Balbinot

Desde janeiro deste ano, estamos presenciando alguns desmontes de políticas públicas de inclusão. A educação é o setor mais atingido pelos cortes orçamentários do governo, que perdeu R$ 5,84 bilhões, que correspondem a 18,81% dos cortes em todas as outras áreas, conforme um estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC). O corte afeta, tragicamente, as políticas afirmativas, quando atingem financeiramente a política de bolsa-permanência no Ensino Superior e o apoio à infraestrutura no Ensino Básico.

A bolsa-permanência é um auxílio de R$ 300,00 para moradia e outros R$ 400,00 para outras despesas, além de créditos para almoçar no restaurante universitário. O programa, criado em 2003, beneficia a todos aqueles que ingressaram nas Universidades Federais que comprovem a baixa renda, além de indígenas, quilombolas e cotistas.

Já a verba de apoio à infraestrutura da Educação Básica é direcionada para avanço e adaptação das escolas públicas. Conforme divulgado pelo Censo Escolar 2018 do MEC, o cenário de infraestrutura no setor público brasileiro é devastador, apenas 42% das escolas de Ensino Fundamental tem quadra, 68% tem pátio e 11% laboratórios de ciências. Sem contar que 5% de todas as escolas públicas do país ainda não tem banheiro. A situação não é muito diferente nas escolas de Ensino Médio. Especialistas apontam que este corte só agravará os problemas aumentando o cenário de vulnerabilidade socioeconômica do estudante de baixa renda no Brasil.

Dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal apontam que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), por exemplo, teve quase R$ 1 bilhão ou 21% de seu orçamento congelado para 2019. O FNDE financia livros didáticos, transporte escolar e auxílio à formação de professores na educação básica.

Nas redes sociais, o debate em torno do desabastecimento financeiro na educação se deu principalmente entre as acusações de que era um corte, enquanto os defensores se opunham alegando simples congelamentos.

Em que pese as torcidas, ao final das contas, independentemente de corte ou congelamento, na prática faltará dinheiro, comprometendo o atendimento nessa área. Essa falta de dinheiro pode acabar comprometendo a educação como um todo e apresenta a possibilidade de desenhar um futuro muito temeroso para a educação no país.

Diante dos cortes a sociedade se mobilizou, estudantes e professores no Brasil foram às ruas protestarem contra a política do Governo Federal. Em 15 de maio, o Presidente da República chamou os manifestantes de “idiotas úteis” e afirmou que a maioria deles eram militantes, desprezando os anseios e preocupações da juventude.

O setor da educação foi o mais afetado, conforme gráfico abaixo disponibilizado pelo G1.

O biólogo Antônio Carlos Marques, professor titular do Instituto de Biociências da USP tem se dedicado a esta preocupação – “O impacto na ciência nacional será gigantesco. A desconstrução do sistema de financiamento da pesquisa nacional, que tem as bolsas de estudo para os estudantes como algo básico, custará ao País a perda de sua autonomia científica e técnica no futuro. Não se trata apenas de criar novos conhecimentos científicos, mas também de capacitar pessoas para transferir e adaptar essas descobertas para o bem da sociedade. Esse desestímulo levará à perda de uma geração de potenciais cientistas, algo irrecuperável para uma nação que quer ser desenvolvida”,

Sobre o assunto o historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leandro Karnal diz que até as gerações futuras sentirão os efeitos, “Acho que salvar a economia é muito importante, mas nós temos que salvar com os passageiros e não apenas com o barco”. Ele lembra também o que disse Mario Sérgio Cortella de que a “educação está fora por um contingenciamento da Constituição”.

Explica ainda a diferença entre atividades meio e fim. “Educação e saúde são atividades fim do Estado, portanto, não devem ser comprometidas com as políticas de contenção de gastos. Se você comprometer atividade fim do Estado, você está comprometendo toda a próxima geração”, afirma o historiador.

Dessa forma fica uma reflexão sobre como o governo irá atuar futuramente sobre este assunto, se irá piorar ou melhorar, mas atualmente a reflexão que Paulo Freire lecionava acaba sendo uma boa análise, quando ao analisar as políticas públicas de viés totalitário disse que “seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Talvez seja esse o plano. 

Desconstruindo Van Gogh: o homem por trás do mito

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Arte: Isabella Gemignani

Ora narrada em 1890, ora relatada em 2019, a história de Vincent Van Gogh foi, assim como a percepção social a respeito do artista, transformando-se ao longo dos anos. Vítima de um processo de especulações, sua trajetória sofreu com constantes mistificações, idealizações e reinvenções. À medida em que o pintor foi  se tornando um dos nomes mais influentes na história da arte ocidental, tendo sua arte massificada comercialmente na atual cultura e, seu nome, apesar de ter sido considerado, em vida, um fracasso, reconhecido, tanto no âmbito artístico quanto cotidiano. Seu legado volátil, no entanto, contribui para a difusão de mitos acerca de sua jornada como pintor. Afinal, quem foi, verdadeiramente, Van Gogh?

A ORELHA CORTADA

Van Gogh, Autorretrato com orelha enfaixada, 1889

Exatamente 131 anos atrás, em uma casa amarela no Sul da França, que abrigou a inspiração para a obra “O Quarto em Arles”, Van Gogh cortou um pedaço de sua orelha sob circunstâncias misteriosas. Imortalizado em sua pintura “Autorretrato com a orelha cortada”, tal ato configurou um dos acontecimentos mais icônicos de sua vida, fazendo com que o pintor fosse, mesmo, reconhecido posteriormente pela estória de seu lóbulo ausente. 

Embora não se saiba ao certo o motivo de fazê-lo, há teorias quanto a sua motivação: alguns supõem que Paul Gauguin, amigo de Van Gogh (que morava com ele na época), foi responsável pela infame ocorrência e, para protegê-lo da polícia, Vincent teria assumido a responsabilidade do acidente. Por outro lado, acredita-se que a ocorrência tenha sido seja advinda de uma briga com Gauguin: durante sua estadia, Van Gogh supostamente teria tido um surto psicótico e, após ameaçar o companheiro com uma faca, ele teria mutilado sua própria orelha e, depois, presenteado-a à uma prostituta em um bordel próximo. Esta, por sua vez, o denunciou à polícia, que foi responsável pela internação do pintor em um hospital psiquiátrico em Arles.

UM PINTOR FRACASSADO?

Apesar de contemporaneamente ser considerado um artista extraordinário, não é desconhecido o fato de que, em vida, Van Gogh se considerava um fracasso. Mesmo o seu quadro mais famoso, “A Noite Estrelada”, foi considerada um insucesso pelo pintor. Após lidar com uma série de desventuras, achou, tardiamente, sua verdadeira vocação na pintura. Seus anos dedicados à arte foram caracterizados pela ridicularização sofrida, a qual fazia-o ansiar, apenas, pelo “saber de como é que posso ser útil ao mundo”, conforme relatou em uma carta à seu irmão mais novo, Theo Van Gogh. Além disso, Vincent considerava-se um ônus familiar e, principalmente, econômico, à Theo: este financiou praticamente toda a vida artística do pintor, visto que, dentre suas quase 900 pinturas produzidas em menos de dez anos de carreira, apenas uma foi vendida em vida: o Vinhedo Vermelho. 

TELAS SOBRE TELAS 

Van Gogh, Pedaço de Grama, 1887.
Van Gogh, Pedaço de Grama, 1887, e sua obra escondida.

Sob a camada de tinta das centenas pinturas de Van Gogh, encontram-se mais dezenas de obras não vistas. Diante da pobreza e da dificuldade de manter seu ofício, o pintor compunha telas sobre telas para sustentar sua paixão, literalmente. Utilizando aceleradores de partículas, cientistas descobriram que aproximadamente um terço das obras expostas no museu Kröller-Müller, que conta com o segundo maior acervo de obras de Vincent do mundo, foram pintadas em cima de trabalhos prévios. Tal prática de reutilização de telas, embora inusitada, era bastante comum entre artistas, sendo utilizada, inclusive, por Picasso e Rembrandt. 

TINTA AMARELA: A DIETA PARA A FELICIDADE?

No ano passado, o Van Gogh Museum, em Amsterdam, na Holanda, respondeu pacientemente dúvidas e mitos frequentes sobre Van Gogh. Entre elas estava a questão levantada pela internet, relacionada à fantasia de que o artista ingeria tinta amarela pensando que o levaria à felicidade.  O mito culminou em reflexões genéricas e inconsequentes, como a pergunta que se popularizou por conta dessa história, “quem é sua tinta amarela?”, como se fosse um questionamento profundo ao interlocutor, sendo que, na verdade, isso só parte de diversas generalizações preguiçosas e narrativas simplistas.

Em primeiro lugar, o Museu esclareceu que, quando Van Gogh foi internado, ele ingeriu sim, tinta – sem especificação nenhuma de cor – e aguarrás (solvente de tinta), com o objetivo claro de se machucar e intoxicar. Com isso a invenção e romantização da tinta amarela como algo que forjaria uma felicidade momentânea, mas a longo prazo causaria mal, é imprudente e desrespeitosa, além de se basear totalmente em um senso comum que busca idealizar e culpabilizar as pessoas por seus transtornos psicológicos.

Considerando que o mito da tinta amarela afirma que havia chumbo em sua composição, o que causaria – sem base nenhuma – a depressão, é concebida outra idéia errônea, pois Van Gogh nunca teve um diagnóstico específico. No entanto, caso esse diagnóstico fosse depressão, já foi comprovado cientificamente que a causa dessa doença não é apenas um fator ou um elemento como insistem algumas pessoas, e sim, um conjunto de causas, que podem variar de outras doenças (como cardiovasculares), de fatores e fenômenos emocionais da vida de um indivíduo ou até mesmo uma predisposição genética combinada à outros acontecimentos.

A propósito, a intoxicação por chumbo, também conhecida como saturnismo, segundo artigo publicado no jornal de medicina da Universidade de Oxford, tem como sintomas: cólicas abdominais, dores e câimbras musculares, paralisia, perda de peso, palidez, marcas nas gengivas e um odor característico. Depressão não faz parte do quadro de sintomas. 

VAN GOGH: FLORESCENDO EM REINTERPRETAÇÕES

Gogh-van-Cruijff, Uriginal, 2013. O autorretrato de Van Gogh adorna a parede de tijolo, ao lado do jogador Johan Crujiff.

Mesmo 129 anos após seu falecimento, a inserção das obras de Van Gogh na indústria cultural popular possibilitou que seu legado fosse mantido vivo com o passar das gerações, embora em diferentes pinceladas e formas. Reproduzido fielmente em pinturas como de Myung Su Ham e de Vitali Komarov, ou em vieses modernos, como uma noite estrelada retratada por meio de itens descartados por Jane Perkins, sua influência ainda é notável na esfera artística, atingindo, também, o meio da arte urbana contemporânea, na qual seus autorretratos estampam a urbe e a esfera de produção massificados, com acervos não apenas de imitações de seus quadros, como também de mercadorias. Além disso, a sinestesia van goghiana transcende, na contemporaneidade, a tela, podendo ser experienciada por meio de projeções e objetos cenográficos na exposição Paisagens de Van Gogh, no Pátio Higienópolis, em São Paulo, até dia 15 de setembro.

Em 2019, assim como no século XIX, ainda não se sabe ao certo quem foi Vincent Van Gogh. Descrito por aqueles que o conheceram como “louco” e por outros como “gênio”, Van Gogh, mesmo após as desconstruções modernas, permanece misterioso, mas é possível compreender, ao estudar sua trajetória, que ele foi, acima de tudo, um homem excessivamente sensível em contraste com a frieza do mundo, tendo seus momentos  de criação como os momentos especiais da sua vida, baseada em sensibilidade e contemplação. Cabe às suas expressivas obras deixadas o papel de contar sua história ao mundo, agora que este, mais do que nunca, quer tanto ouvi-lo.

7 musicais que você precisa ver

Texto por Bernardo Louzada

Musical Aladdin na Brodway (Foto: Divulgação Brodway.com)

Para quem não sabe (poucas pessoas), eu sou muito fã de musicais, então escolher apenas sete foi uma dificuldade! Tomara que você goste =)

Annie

O espetáculo foi baseado na história em quadrinhos de Harold Gray, estreou na Broadway em 1977 e ganhou sua 1ª montagem oficial brasileira em 2018, dirigida e estrelada por Miguel Falabella (Will Stacks). O enredo trata da história de uma menina órfã que vive no orfanato da senhora Hannigan com mais 06 meninas. Tudo muda quando a garota é notada por Will Stacks, um milionário que também é candidato à prefeito, e por fins de campanha, leva-a para a sua residência. No desenrolar da história Annie conquista o coração do candidato e ele vê que fez a coisa certa.  

Hairspray

Em 1960, uma adolescente de Baltimore nos EUA, Tracy Turnblad, apaixonada pela dança, se inscreve para participar de um programa local chamado The Corny Collins Show e é aceita. Da noite para o dia, ela torna-se uma celebridade e eleva seu estilo irreverente de dança no show. O fato de ser popular é suficiente para terminar o reinado de Corny e provocar uma integração racial na cidade.

Família Addams

O musical apresenta uma história original de uma das famílias mais famosas do mundo. Teve sua montagem na Broadway em 2010 e no Brasil em 2012 . A trama ocorre em torno de Wandinha que se torna uma jovem mulher e arruma um namorado. Para o resto da família (Gomez, Mortícia, Feioso, Tio Fester, Tropeço e  a Vovó) esse é um acontecimento que irá virar de cabeça para baixo a residência, quando eles são forçados a organizar um jantar para o jovem e seus pais.

Wicked

Wicked conta a história de duas amigas improváveis, Elphaba, a Bruxa Malvada do Oeste e Glinda, a Bruxa Boa do Norte (Bruxa Boa do Sul nos livros de Baum). Elas se tornam melhores amigas, mesmo com personalidades opostas,  diferentes pontos de vista, a rivalidade das duas em relação ao interesse amoroso por um mesmo homem e a reação ao governo corrupto do Mágico de Oz. Teve sua 1ª montagem em 2003 nos teatros da Broadway e no Brasil em 2016 com Myra Ruiz (Elphaba) e Fabi Bang (Glinda). Curiosidade: 1 em cada 3 atrizes de musical querem ou já quiseram fazer a Elphaba.

Billy Elliot

O enredo gira em torno de Billy, um menino que quer ser bailarino contra a vontade do pai. A história de sua luta pessoal e realização tem como fundo o conflito de sua família e vizinhança, causados pela greve dos mineiros britânicos (1984-1985), em County Durham, no nordeste da Inglaterra. O roteiro de Hall foi inspirado em parte pelo romance de AJ Cronin, de 1935, sobre a greve de mineiros e canção a The Stars Look Down, que é a abertura do musical. O espetáculo conta com letras e arranjos de Elton John e o resto das letras são escritas por Lee Hall, que escreveu o do filme também. No Brasil, a montagem foi feita pela produtora Atelier de Cultura, que contou com versões inéditas das músicas.

Escola do rock

Inspirado no filme de mesmo nome feito em 2003, o musical de Andrew Lloyd Webber leva ao teatro a história conduzida pelo personagem Dewey Finn, um músico que se passa por professor substituto e monta uma banda de rock com seus alunos. No Brasil é interpretado por Arthur Berges, que sua a camisa (literalmente). O espetáculo está em cartaz no Teatro Santander até 15 de dezembro.

Mudança de hábito

Quando a cantora Deloris Van Cartier vê seu namorado mafioso Vince LaRocca cometer um homicídio, ela é transferida, para a sua proteção, para um convento na Califórnia. Deloris começa a mudar a vida tranquila das irmãs. Em um esforço para mantê-la longe de problemas, eles colocam Deloris no coro do convento, o que ela logo transforma em um ato vibrante que ganha atenção generalizada e a igreja que era patética vira um ponto de apreciação na cidade.

Bônus

Cargas D’água

Um menino perde a sua venerada mãe e acaba por esquecer o seu próprio nome, pois, seu padrasto, agora o único membro da família, só o chama por “moleque”. Tudo muda quando ele faz um amigo nada comum, um peixe, e começa a ver toda a sua história com outros olhos. Agora ele tem uma missão: levar seu amigo (que sempre viveu em aquário) para ver o mar. Uma missão que seria muito fácil se ele não tivesse inventado de contornar o país inteiro por dentro antes de sair no litoral. Em sua jornada, o moleque acaba encontrando distintos personagens que o ajudam ou atrapalham, e de alguma forma, o obrigam a enfrentar os maiores medos dos homens.

Shrek

Shrek vive em um pântano e, de repente, seu sossego é interrompido pela invasão de personagens de contos de fadas que foram banidos de seu reino pelo maldoso Lorde Farquaad. Determinado a salvar o lar das pobres criaturas e também o dele, Shrek faz um acordo com Farquaad e parte para resgatar a princesa Fiona. O musical é de 2008 e foi estrelado por Brian d´Arcy James (Shrek), Sutton Foster (Fiona) e Daniel Breaker (Burro). O espetáculo está na íntegra no Netflix, mas para deixar um gostinho esse é o último número do musical.

Aladdin

Inspirado na clássica animação da Disney, o musical conta a história de Aladdin, um jovem humilde que esfrega uma lâmpada mágica e tem três desejos concebidos pelo gênio. Seus desejos visam conquistar a jovem a qual se apaixona na trama, uma princesa que está a escolher um cônjuge. Em um de seus desejos, o menino pede ao gênio que o transforme em um príncipe para conquistar a confiança de seu futuro e desejado sogro. O espetáculo está em cartaz em muitos teatros pelo mundo: Alemanha, Japão, Nova Zelândia, Estados Unidos e Inglaterra.

Se você acha que faltou algum musical muito bom ou que você goste muito comenta aqui embaixo e quem sabe pode rolar uma 2ª edição dessa lista. Espero que tenha gostado!

A dialética entre as representações do jovem na cultura

Texto por Ana Badialle e Rafael Amin

Foto: Autor desconhecido

O jovem é um problema relativamente recente na literatura, no cinema e na política. No entanto, apesar da construção da ideia de juventude ter sido feita apenas na segunda metade do século XX, isso não isenta o fato de que a noção desse conceito carrega diversas simbologias que foram estabelecidas ao longo dessas décadas por meio de elementos da cultura. Representações que, essencialmente, foram estabelecidas por meio da dialética entre as representações do jovem na cultura e sua resposta política à essas representações que revela a maneira como o jovem realmente se enxerga na sociedade.

Na literatura, enquanto livros que retratam os anos de formação de um indivíduo datam desde a época de Goethe (início do século XIX), foi somente em “O Apanhador no Campo de Centeio” (J.D Salinger, 1951) que o arquétipo do adolescente ganhou a forma que conhecemos hoje. Rebelde, transviado e alienado, Holden Caulfield – protagonista da obra – conseguiu cativar um grande público na época de seu lançamento. Paralelo à isso, uma representação similar de um jovem rebelde e alienado tornou-se popular entre os jovens da época, o filme “Rebel without a Cause” (Juventude Transviada, 1955), apresenta à cultura de massa estadunidense o novo modelo de jovem, um que viria pela primeira questionar aquilo que havia sido imposto pelos pais, nascidos na geração anterior. 

Por isso, o filme retrata um jovem rebelde que precisa externar, ao contrário do Holden que internaliza seu conflito, impondo-se como alguém rebelde que questiona, de maneira impulsiva, a vida conformista. Tal representação de jovem não surge ao acaso, mas de um diálogo histórico e artístico, bem representado pelo bildungsroman.

Pai do que hoje é conhecido popularmente como coming of age (histórias que tratam sobre amadurecimento psicológico, como “Clube dos cinco” ou “Curtindo a vida adoidado”), o bildungsroman (palavra em alemão que remete a romance de formação) é um gênero que tenta abordar as relações entre jovem e o meio, quanto um modifica o outro e o caminho até a maturidade. 

O livro “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1796), de Goethe, retratava o mundo como algo mágico. O protagonista não possui voz própria e a madureza consiste em aceitá-lo, literalmente abdicando das pretensões artísticas de um jovem e abraçando a realidade tal como ela é.

Passado vários anos, especificamente em 1924, o escritor alemão Thomas Mann publica sua versão do bildungsroman, como resposta direta ao romance de Goethe. Em “A Montanha Mágica” o protagonista continua sem voz e o meio continuava sendo mais importante do que ele, entretanto, no pós-primeira guerra, o mundo não era algo que poderia simplesmente ser aceito. 

Dessa forma, os anos 1960, trouxeram uma quebra abrupta de convenções conformistas, ao passo que, abriu espaços para novas formas de música e vestuário, criando os primórdios da cultura teen, como conhecemos hoje. O surgimento do Rock and Roll, na metade da década de 1950 – com influência do Blues e do R&B – trouxe diversas influências para os adolescentes da época popularizando nomes como Elvis Presley, Carl Perkins e Chuck Berry. Com a mudança sofrida no comportamento e na maneira consumir música e entretenimento, o rock se transformou em uma válvula de escape, mas também forma de protesto para os jovens que estavam cansados da cultura consumista.

Logo no início da década de 1960, surgiram outros artistas como os Beatles e Rolling Stones, bandas que derivaram da música estabelecida pelo Rockabilly para construir seus próprios conceitos de rock. Com isso, essas bandas alteraram a forma de se produzir música, fazendo sucesso em shows, reinventando a maneira de ser jovem e livre para alterar a visão conservadora da geração anterior. Foi definido um som inconsequente e vibrante até por volta de 1966, quando os jovens e as bandas de rock passaram a acreditar em uma filosofia mais ligada à política como uma resposta aos conflitos da Guerra Fria, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras que se instalaram na América Latina. Levando o jovem que antes estava preocupado com aspectos estéticos e musicais à utilizar a arte e a cultura da contestação como uma forma de protesto e engajamento político direto.

Nesse contexto de conflitos surgiu o conceito da contracultura, movimentado por uma das gerações mais conscientes e politicamente engajadas, o sentimento de revolta e impotência gerou jovens que atuavam politicamente por necessidade. Desse jeito, a contracultura proporcionou o Woodstock, um festival de música, baseado nos ideais de três dias de música e paz, o que refletiu de forma artística a negação aos ideais imperialistas estadunidenses presentes nas suas atuações e conflitos. É nesse momento que a arte e a política aparecem fortemente em um aspecto só para aquela geração, dando popularidade à novos estilos e formas de expressão, como o grafite e o fortalecimento da cultura urbana.

No Brasil, a década de 1960 e 1970, em meio ao contexto da ditadura militar (1964), fez a cultura juvenil voltar-se aos elementos nacionais, com atuação, principalmente, da camada dos estudantes.  Eles aderiram a contracultura, recusando-se a envolver aspectos estadunidenses, a fim de criar uma caraterização da arte produzida internamente. Nomes famosos como Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Os Mutantes incorporaram o movimento conhecido como Tropicália. 

Surge então, junto com a chamada geração Y, uma arte popular com forte teor político, só que desta vez a contracultura não se dava por meio de movimentos sociais ou protestos, mas sim por uma forte apatia, rejeição e sátira dos moldes vigentes. Nasce em 1989, por exemplo, os Simpsons, que satirizava de maneira cruel a família tradicional americana, tanto defendida pelas sitcoms dos anos 80. 

Essas obras são frutos de uma sociedade que viu seu grito não levar a muita coisa e, então, escolheram a completa rejeição da realidade. A alienação na época não foi resultado de uma indústria de massas que despolitizou a juventude, mas sim, de um excesso de consciência política, de um realismo visceral que resultou em relativa inércia. Sabendo da corrosão da realidade e que muito provavelmente ela não poderia ser transformada, o jovem viu como única saída escapar, nisso surgem movimentos como o punk, grunge e o clubber, além da popularização e globalização da cultura pop.

O punk talvez seja a representação máxima da rebeldia jovem nos anos 70. Irreverente até mesmo com o seu pilar, o rock clássico, o movimento e, posteriormente a tribo urbana, tinha como lema “faça você mesmo”. Sem pensar muito em estética musical, com um discurso anarquista que ia contra o moralismo da época, o punk foi um enorme grito em favor da individualidade jovem, da diversão e rebeldia, focando novamente no indivíduo e menos no coletivo, mas ainda satirizava o último.

Entretanto a acidez política presente em grande parte da música de 70-80 foi perdendo espaço para uma visão individual e hedonista. Os clubes e a música eletrônica na década de noventa deram origem a cultura de discotecas, com sua estética extravagante marcada por cores vivas e alucinógenas, que tirava o teor político das músicas em troca de torná-las mais dançantes. 

Nisso há uma representação do jovem fortemente estereotipada, de alguém que não se envolvia tanto com o choque de gerações ou embates políticos. Uma retomada muito forte de comédias românticas, como “As Patricinhas de Beverly Hills”, com uma representação caricata e alienada dos jovens na escola, sintetizando seu papel à conflitos banais dentro da estética noventista, tornando-se um filme que explora clichês já conhecidos para aprofundar o universo adolescente. Isso influencia diversos outros filmes do gênero que viriam seguinte como “Meninas Malvadas”, entre outras comédias românticas que retratam o escapismo do mundo adolescente. 

No entanto, o jovem, atualmente, tem deixado essa fase despolitizada de lado, e se importando cada vez mais com problemas sociais, ambientais e individuais. Com adultos literalmente destruindo quaisquer esperanças para o amanhã, propagando preconceitos, violência e destruindo a próprio ambiente ao seu redor, os jovens novamente precisam pegar para si a responsabilidade de transformar as relações presentes no mundo e a necessidade de escapar da realidade deturpada por excessivas preocupações. Os adolescentes trazem o conflito interno em oposição com o caos externo e criam, uma série de questões para si, além de repensar fortemente questões de identidade e representatividade. 

A arte se adaptou a essa nova conscientização e, gêneros que estavam estagnados, como a comédia romântica adolescentes, ganharam um novo fôlego e público ao incluir questões de gênero e classe. Como por exemplo, o filme/livro “Love, Simon” (Com Amor, Simon), lançado em 2018, que conta a história de um adolescente que questiona a relação que as pessoas em seu entorno possuem com sua sexualidade, trazendo um perfil voltado para o questionamento de padrões sexuais e de gênero ainda impostos ao jovem.

Com uma rebeldia necessária e sútil, a geração atual, chamada de Geração Z, retrata como nunca a auto descoberta e aceitação, desenhando um jovem voltado para questões internas, políticas e transformadoras. A juventude atual sofre com a alienação da década de 80, carrega para si ansiedades e tribulações, mas ao mesmo tempo tem uma atitude reformista engajada como a década de 60.