O mito de Peanuts

Texto por Rafael Amin

Foto: Filme “Um garoto chamado Charlie Brown”, retirada do site Crosswalk.com

Estampados em camisas, cadernos, lancheiras, sapatos e até mesmo em cafés, parece que o Snoopy, o Charlie Brown e os outros personagens de Peanuts são hoje muito mais reconhecidos pela marca que eles se tornaram do que pelo trabalho artístico de seu criador Charles Schulz. Enquanto a Mafalda é conhecida pela sua carga política, Calvin e Haroldo pelo seu forte teor imaginativo, pouco se fala sobre a tirinha de Schultz, o que é uma pena, pois vários temas interessantes podem ser encontrados em Peanuts, principalmente, quando falamos sobre o absurdo.

O absurdo é um dos conceitos fundamentais do filósofo franco-argelino Albert Camus. Segundo Camus, o absurdo seria uma eterna contradição entre o ser humano e o mundo que o cerca, um divórcio entre nossa vontade de encontrar algum sentido no universo e o universo em si, que é desprovido de sentido. Tomando consciência do absurdo, Camus, em seu livro “O mito de Sísifo”, explicita o que ele considerava a questão fundamental de toda a filosofia: por que deveríamos continuar vivendo? Afinal, se o universo é sem sentido, se o desejo fundamental de plenitude dos seres humanos é insaciável, se em uma escala cósmica daqui a poucos anos ninguém lembrará de nós, por que deveríamos continuar a existir? Pode parecer uma pergunta pessimista, mas a resposta que Camus dá em seu livro, a qual eu acredito que Schultz representa artisticamente em sua tirinha, é o total oposto disso.

Voltando a Peanuts, o absurdo da tira encontra-se nos próprios personagens, que, segundo o escritor Umberto Eco, “são as monstruosas reduções infantis de todas as neuroses de um moderno cidadão da civilização industrial”. Cada criança (e cachorro) tem seus vícios emocionais, cada uma menos o Charlie Brown, mas voltaremos para ele mais tarde, que são tratados de maneira cômica na tirinha, mas quando paramos para pensar, revelam-se como bastante problemáticos. O Linus é o exemplo mais claro disso, a criança não funciona sem seu cobertor, sem ele o menino surta. Sua irmã Lucy também não é muito melhor, visto que ela não consegue criar relações honestas e só encontra felicidade no barulho das moedas. Schrodinger dedica sua vida a tocar Beethoven em seu piano infantil, sem conseguir se relacionar direito com as outras crianças. E o Snoopy passa o dia todo sonhando com coisas impossíveis. Todos esses são exemplos do que Camus chama de “suicídio filosófico”.

O suicídio filosófico seria, para Camus, uma resposta simples para a pergunta do por que continuar vivendo. Segundo ele, a pessoa que segue esse caminho nega o absurdo da vida e busca alguma forma transcendência, algum vício que o ajude em suportar a existência, seja na arte, no poder, em posses, no amor, nos sonhos etc. O caminho que Camus sugere é o de aceitar o absurdo e, em um ato de revolta contra o universo, continuar vivendo mesmo assim. A pessoa que faz isso se torna um “herói do absurdo”, e para explicar isso, Camus usa o exemplo de Sísifo.

Sísifo, na mitologia grega, teria sido condenado pelos deuses a levar uma rocha até o topo de uma montanha, apenas para a rocha rolar de volta para a base da montanha. Esse mito ilustraria o absurdo da vida, uma tarefa árdua que resulta em nada, mas Camus destaca a atitude de Sísifo em relação a sua punição. Sísifo, mesmo vendo a rocha rolando inúmeras vezes, mesmo percebendo que sua tarefa é fútil, não escolhe tentar dar um sentido transcendental a ela, isso seria suicídio filosófico, no entanto, opta por aceitar o absurdo de sua vida e desce para levantar a rocha mais uma vez, sabendo que ela vai voltar para a base da montanha, assim, tornando-se um “herói absurdo”. Camus conclui seu ensaio falando que Sísifo nos ensina uma espécie de “felicidade superior”, que aceita o absurdo e assim constrói, com “cada grão mineral de uma montanha cheia de noite”, seu próprio mundo. Curiosamente, o Charlie Brown ensina-nos a mesma coisa.

Charlie Brown é espécie de Sísifo infantil. Ele é condenado por forças além de seu controle, no caso seu próprio criador, o artista por trás da tirinha, a nunca ser bem sucedido. Schultz poderia ter escrito uma tirinha na qual ele consegue empinar a pipa ou chutar a bola de futebol americano, mas ele, deliberadamente, faz o Charlie Brown falhar. Contudo, ao contrário dos outros personagens, Charlie não tem nenhum “vício”, mesmo sendo ele quem mais sofre em todo Peanuts. Não, como Sísifo ele aceita o absurdo e assim se torna uma miniatura de um “herói de  absurdo”. Em momento nenhum isso fica mais claro do que no longa-metragem de Peanuts produzido por Schultz.

“Um garoto chamado Charlie Brown” começa e termina da mesma forma: Charlie correndo para chutar a bola de futebol americano, apenas para Lucy tirá-la no último momento, fazendo o garoto errar o chute e cair. Mas essas duas cenas têm sentidos totalmente diferentes. A primeira é tratada como uma piada, já a segunda como uma aceitação da vida. Todo o filme trata sobre fracassos, mas, ao contrário de outros filmes infantis nos quais o protagonista supera o fracasso e é bem sucedido, o fracasso é entendido no filme de Peanuts como um fato inerente à vida, portanto, não pode ser superado, mas sim deve ser reinterpretado. Isso fica claro no fim do filme, quando Charlie Brown está deprimido por ter perdido uma competição importante, porém entende, com a ajuda de Linus, que mesmo fracassado o mundo continua, em outras palavras, ele entende o absurdo, a indiferença do mundo em relação aos seus acertos e também aos seus fracassos, e assim se abre para erros futuros. Por isso, na corrida final, em direção à bola, ele encarna Sísifo, para de pensar sobre o possível fracasso de errar o chute e abraça o momento, a simples alegria da corrida. Dessa forma, a resposta de Schultz, assim como a de Camus, para a pergunta, sobre o porquê continuar vivendo é simples: porque apesar dos fracassos e do absurdo, a vida pode ser divertida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s