Ao farol da pandemia

Texto por Rafael Amin

Um farol é um objeto sólido, fixo em determinado espaço. Ele existe para guiar, mostrar o caminho quando a visão está embaçada. Um farol também existe entre parênteses, cercado de mar, cercado de vida, mas condenado à solidão. Virginia Woolf, em seu livro “Ao farol”, usa esse símbolo para escrever uma das mais bonitas elegias sobre a perda, a solidão e o tempo. Assim como um farol o livro pode nos ajudar a ver um pouco de luz em tempos de pandemia.

“Ao farol” foi escrito um pouco depois da primeira guerra e trata das perdas e mudanças que esse evento trouxe na vida de uma família. É um daqueles livros em que os personagens são reativos, no qual não há uma história cheia de reviravoltas e consequências, a beleza da obra está na sua forma, descrita pela a autora como duas salas unidas por um corredor.

(primeiro esboço de “Ao farol”)

A primeira sala, o começo do livro, retrata a vida antes da guerra, ou, no nosso caso, antes da pandemia. Ela narra um dia na vida de uma família, que, dependendo do clima, pretende ir ao farol. Cada membro tem seus desejos, sonhos e planos. Planos esses que parecem reais, como se o futuro já fosse concreto, porque é assim que a gente pensa as coisas, marcamos eventos com meses de antecedência imaginando que tudo continuará igual até lá. Mas aí surge uma pandemia, mas aí o tempo passa.

A segunda parte, o corredor, é um artifício literário, existe para narrar o inenarrável. O tempo passa, mas é impossível narrar o passar do tempo enquanto ele ocorre, porque o passar do tempo é, e se narra o que foi. Virginia, em uma posição de já ter saído da primeira guerra, usa, nessa parte do livro, a imagem de uma casa se deteriorando para descrever os horrores desse evento. Não temos esse privilégio de tempo, ainda não vemos a pandemia como algo que aconteceu, não, ela está acontecendo bem a nossa volta.

O passado nunca pareceu tão distante para minha geração, nem o futuro tão incerto. Na data da publicação deste texto nem faz três meses que iniciou o isolamento social, mas, mesmo assim, temos a impressão de que a vida antiga, a vida de escola, contatos, cafés e saídas, já parece relíquia da memória, e os planos de 2020 já tiveram que ser mudados. Mas nem o passado nem o futuro conseguem ser tão assustadores quanto o presente.

“Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”, pego essa frase de Adorno, tiro-a de contexto, e  expando-a: acho que comer, sorrir, dormir, “buscar leveza”; viver, após Auschwitz, após Rwanda, após as ditaduras empresariais-militares, e agora durante a pandemia, é um ato bárbaro. No momento em que escrevo esse texto têm milhares de pessoas morrendo ao redor do mundo, famílias nem podendo ir para o enterro de seus parentes, e, no meio de tudo isso, eu estou aqui, com papel e caneta, escrevendo sobre Virginia Woolf. Isso é desumano, mas, talvez, também seja a coisa mais humana possível: continuar vivendo, continuar buscando  esperança em um agora tão desesperançoso. Uma forma de encontrar essa esperança pode ser por olhar para exemplos passados, e existe um caso interessante de arte em tempos de pandemia.

O pintor Edvard Munch, mais conhecido pelo seu quadro “O grito”, pegou gripe espanhola em 1917. A gripe matou mais gente que a primeira guerra, mas ela não está tão marcada em nosso consciente coletivo como a guerra está. Felizmente, Munch sobreviveu, e o que é mais interessante ainda é ele ter feito dois autorretratos nesse período. O primeiro quando ele ainda estava com a gripe, o segundo depois que ele se curou.

(autorretrato com gripe espanhola)
(autorretrato depois da gripe espanhola)

A primeira pintura é tão distante, ele se pinta sem olhos, sem rosto; sem alma. Imagino que nesse momento Munch já não tivesse muitas esperanças em relação ao futuro e a sua condição. Mas, depois que se recupera, ele já se pinta com olhos, com um rosto, tem até uma janela por onde entra luz e vida. Essa segunda pintura é a terceira parte do livro de Virginia, é onde ainda não estamos, onde os sofrimentos do agora já são o passado do futuro. E é nessa relação com o tempo que se encontra a beleza da obra de Woolf.

Na terceira parte do livro vemos os personagens indo até o farol, símbolo de um passado perdido pelo tempo, um passado de memórias lindas de uma mãe brincando com filho e de um pai com sua filha. Memórias essas que não são mais possíveis, a guerra levou o filho e a doença, a filha. Mas os personagens vivem, mesmo depois de um passar tão cruel do tempo eles continuam andando em direção ao farol, aprendendo a viver com o peso memória.

Às vezes, imagino que o sonho modernista, aquele de Proust, Joyce, Borges e, principalmente, da Virgínia, fosse de um tempo memorial, no qual apenas a lembrança de um momento passado era suficiente para atingir a plenitude. O pesadelo, entretanto, também; um tempo no qual só a lembrança de momentos de crise são suficientes para levar alguém à loucura, onde apenas a ideia de voltar a ter uma baixa foi o suficiente para fazer Virginia afundar no oceano. Felizmente (ou infelizmente), nosso tempo é apenas o agora, o que quer dizer que temos de lidar com todas as suas complicações e incertezas, mas também garante uma coisa: que o agora vai ser melhor. Não necessariamente o agora futuro, mas tudo que estamos presenciando , quando virar memória e história ,será, no mínimo, um pouco menos confuso.

Quanto ao agora futuro, posso apenas esperar que não optemos pela barbárie e pelo esquecimento, que não transformemos todas as vidas perdidas em apenas números, que consigamos seguir em frente no caminho que aponta o farol da nossa humanidade: aquela que sente empatia pela morte e sofrimento de pessoas, não pela “morte” de CNPJS.

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