Amizade de corredor

Conto por Rafael Amin

Imagem: reprodução da internet

Batia o sinal.


Começava, então, o mesmo ritual de todos os intervalos, e ritual repetido é rotina. O garoto calmamente levantava de sua cadeira, observando os quatro cantos da sala: o azul pastel, que beirava o cinza, das paredes; o verde escuro, como uma floresta morta, da lousa;  observava seus colegas conversando, cada um com seu grupinho fechado nos quais ele nunca conseguiu entrar. Mas nada disso o incomodava, ele sabia que não era na sala onde deveria estar, assim, com um sorriso no rosto – um sorriso tímido que ele mesmo nunca chegou a perceber – descia.

Descia aquilo que Borges um dia chamou de paraíso: a biblioteca, onde todos os frutos de Babel estão imortalizados em papel e tinta. Mas não, o paraíso agora não se encontrava nos livros; encontrava-se em algo muito maior, e infinitamente mais complexo, que todo o tempo perdido de Proust e que o dia repleto de tempos passados e futuros de Joyce: paraíso ali, era no outro.

Os dois sempre se encontravam na biblioteca. O menino do primeiro ano; a menina, do terceiro. Havia menos de um ano que se conheceram, por coincidência, nos corredores da escola, e os dois, que sempre andavam com algum livro debaixo do braço, passaram a conversar. Conversa de corredor é assim: começa pequenina, dificilmente cresce. Ela enfrenta o pior muro de todos, aquele que corta todas as conversas, deixando fios soltos que nunca se resolverão: o tempo. Afinal, uma conversa de corredor vai sempre contra o relógio; quando o elevador para, quando o ônibus chega no seu destino, quando, depois de quinze minutos, bate o sinal, anunciando o fim do intervalo, então, a conversa precisa acabar, com cada um indo pro seu canto e, eventualmente, esquecendo da conversa.

Mas quando cresce… Aí nem o tempo, a distância ou o acaso; nada consegue segurar. Os Querubins abrem os portões do Éden, tornado o inferno de Sartre paraíso. Quando cresce, a conversa toma vida por si mesma, vira o alfa e o ômega, o princípio e o fim, ela passa a existir apenas por existir enquanto conversa. Quando cresce, até o silêncio se torna agradável. Quando a conversa cresce, aí vira amizade. Foi isso que aconteceu entre os dois alunos. Um dia, a conversa simplesmente cresceu e, então, o garoto do primeiro ano, ainda achando tudo isso de ensino médio muito novo e estranho, e a menina do terceiro, aterrorizada pelo desconhecido que a aguardava no próximo ano, passaram a se encontrar sempre na biblioteca. Um ritual estudantil, bobo e tipicamente adolescente, mas nem por isso menos belo: assim que batia o sinal, os dois desciam, encontravam-se fingindo que por coincidência, e rapidamente passavam a conversar. 

O intervalo já estava perto de acabar e os dois continuavam nessa dança de palavras. Dessa vez, a conversava não tinha nenhum tema específico, era tão abrangente e ao mesmo tempo tão pessoal que se alguém um dia viesse a narrá-la, teria de usar apenas a voz do narrador, pois seria impossível retratar, de maneira fidedigna, a naturalidade daquele diálogo com travessões e aspas, frases previamente pensadas antes de ir ao papel. O garoto perguntava uma coisa, a menina respondia, e respondia também a próxima pergunta antes mesmo dela ser feita. A conversa mudava a cada de frase de assunto e os dois só aceitavam. Ninguém a ditava, ninguém a dominava, ela apenas fluía e eles seguiam a correnteza. Haviam esquecido do tempo, das próximas aulas, das atividades, das lições que tinham de acabar, dos outros alunos na biblioteca; naqueles quinze minutos de intervalo existiam apenas em relação à conversa. Então, bateu o sinal.

O som alto, estridente, do sinal tornava o ambiente pesado. O fim de um intervalo, por melhor que tenha sido, vem carregado de um gosto amargo e melancólico. Afinal, todo fim de intervalo representava um dia a menos dessa rotina que já parecia intrínseca à vida deles. Os dois sabiam disso, mas fugiam dessa ideia, tentavam ao máximo não pensar nesse futuro tão próximo, no qual a relação entre eles existiria apenas entre likes, fotos e pequenas conversas ocasionais. O menino não conseguia imaginar seus próximos dois anos de ensino médio, em que iria à biblioteca apenas para pegar livros. A menina via-se no garoto quando ela era do primeiro ano, por isso, não queria perder essas conversas, elas a lembravam de tudo que já tinha feito nessa escola, de cada armário que ajudou a quebrar e cada conquista que realizou, de um pequeno mundo privado que ajudou a mudar, mas que em menos de um ano fecharia as portas para ela. Sem pensar nisso, os dois subiam as escadas, cada um em direção a sua classe, concluindo a conversa e despedindo-se. Era um intervalo a menos.

Batia o sinal. O professor resolvera usar esses quinze minutos para arrumar umas pastas na biblioteca. Não conseguiu. Distraiu-se tentando, com o canto do ouvido, escutar uma conversa entre seus alunos. Uma garota do primeiro e um menino do terceiro falavam sem parar sobre os mais diversos assuntos. A música nunca fora de tom que compunham com suas palavras, a dança sincronizada de seus gestos, o jeito que os dois pareciam não se importar com os outros alunos, tudo aquilo instigava o professor, como se seu inconsciente estivesse tentando lembrar de algo já há muito enterrado na memória. Então, enquanto subia as escadas, junto com dezenas de adolescentes voltando do intervalo, até a sala onde daria sua próxima aula, as memórias vieram como se fosse uma epifania. Lembrou de todas as suas descidas à biblioteca; todas as conversas que o transportavam a outra realidade; de quando aprendeu a dançar com palavras; de um tempo mais simples, quando, por quinze minutos, o paraíso perdido era recuperado. O professor lembrou também do Drummond e, com um sorriso tímido, sussurrou – tão baixinho que sua voz se perdeu em meio aos gritos dos alunos subindo as escadas – “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” 

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