A Origem Carmesim

Conto por Guilherme Penninck

Foto: reprodução da internet

O vento uivava sem descanso naquela sombria noite de verão, os trovões ecoavam por toda cidade, entretanto, apenas um alarme podia ser ouvido naquela vizinhança. Os donos da casa foram surpreendidos ao descobrirem que sua propriedade fora arrombada, mas o que, inicialmente, parecia apenas uma invasão domiciliar seguida de roubo, mostrou-se uma situação muito mais fúnebre. Sabia o que iria acontecer, reconheci a situação, a chuva, aquela ventania e, principalmente, os calafrios que percorriam minha pele.

[5 anos atrás]

A noite já havia se instalado quando eu e minha prima Gabriela descemos do táxi. Observamos o casarão de janelas circulares, iguais a dois olhos tristes no qual passaríamos a noite. Não tínhamos outra escolha, nenhuma pensão oferecia preço melhor a duas pobres estudantes, talvez por esse motivo o sobrado se encontrava em um estado tão decadente.

A dona era uma velha franzina, de cabelos tão brancos quanto a neve que caía do lado de fora. Vestia uma desbotada camisola de estampa florida e tinha unhas enormes cobertas por um esmalte da cor roxa descascado nas pontas. Acendeu um cachimbo.

– Vou mostrar o quarto, fica no segundo andar da casa – disse ela enquanto soltava uma baforada em nossos rostos.

Subimos uma estreita escada feita de madeira que rangia a cada passo que dávamos, o segundo andar era bem amplo, não continha nenhum móvel, apenas uma pequenina porta no fim do corredor, seguimos em direção a ela e a abrimos, quando a luz se acendeu tivemos a primeira visão do quarto, não podia ser menor. Duas camas, duas estantes e uma mesa com duas cadeiras de madeira que pareciam não terem sido usadas há algumas décadas.

– Café das nove às onze, deixo a mesa posta na cozinha – falou enquanto soltava uma densa baforada. – Recomendo que não abram a janela, o frio daqui de cima é algo sobrenatural – recomendou enquanto lutava contra sua crise de tosse.

Estávamos exaustas e logo fomos dormir, caí no sono assim que me deitei, em meu sonho havia um anão em nosso quarto, ele veio até mim, pegou minha mão e me levou até uma pequena passagem que estava escondida atrás de uma das estantes. Acordei sobressaltada com um barulho que vinha do lado de fora, minha prima havia acordado também e estava ao lado da janela tentando ver o que tinha acontecido.

– Não tem nada lá fora, que estranho! – constatou.

Lembrando de meu sonho comecei a empurrar a estante e, para minha surpresa, ali estava a passagem, ao abri-la deparei-me com uma pequena caixa prateada com adornos em dourado e o desenho de uma caveira na tampa. Chamei minha parente para descobrirmos o que se encontrava dentro daquele estranho e pequeno baú, tivemos uma surpresa ao abrirmos, pois nos deparamos com uma pilha de ossos.

– São de anão! – constatou minha prima. – É uma raridade, dá para ver que estão todos formados – concluiu.

Essa descoberta foi aterradora para mim, enquanto Gabi se encontrava maravilhada pela sua mais nova descoberta. Ela estava cursando o terceiro ano em medicina e realmente amava o que fazia, para ela, achamos algo equivalente a um pote de ouro. Subitamente, um estrondo veio do andar de baixo, fazendo com que eu desse um pulo de espanto.

– Você ouviu esse barulho? – indaguei, estava pálida como uma folha de papel.

Decidimos investigar, descemos lentamente os envelhecidos degraus da casa. O que, inicialmente, eram apenas ruídos, gradualmente, transformou-se no som de uma lâmina raspando contra a parede, o barulho afastava-se calmamente, assim, seguimos, essa talvez tenha sido a pior escolha que já fiz, eu me condenaria pelo resto de minha vida.

Uma melodia começou a tocar, algo que nunca ouvira na vida, uma babel de sons caóticos, um verdadeiro pandemônio, entreolhamo-nos, duvidando de nossa sanidade e, lamentavelmente, tive uma prova de que o horror era real ao chegar na cozinha. Vi a cena mais aterradora que qualquer pessoa poderia presenciar: a dona estava pendurada por um gancho de carne em seu ombro, sua pele havia sido arrancada, a mulher estava agonizando até a morte.

Palmas puderam ser ouvidas atrás de nós, ao nos virarmos fomos surpreendidas por uma figura fantasmagórica que trajava uma máscara e uma grande capa preta. Aquela coisa lambia a lâmina banhada no sangue pastoso da velha senhora da casa, este que possuía uma cor vinho tão enigmática quanto o próprio assassino e suas intenções. Intenções essas que estavam escondidas por trás de olhos amarelos profundos e inebriantes que brilhavam na triste  penumbra que recheava de desespero o recinto, a máscara escondia o semblante de seu usuário. Assobiava uma sombria canção, com a calma de um caçador perseguindo uma presa indefesa.

– Eu encontrei a oferenda perfeita, o sacerdote dos grandes antigos ficará orgulhoso de mim.

Minha prima lutava Karatê e partiu para cima do agressor, eu me limitei a sentar no chão e implorar por minha vida. O assassino, munido de uma faca, retalhou Gabriela e foi para nosso quarto, voltou com a pequena caixa em mãos e atirou uma faca em minha direção antes de desaparecer na escuridão. Pude olhar uma última vez em seus olhos tomados pela loucura, aquilo que estava à minha frente não era mais um ser humano, apenas uma casca que cedera à insanidade. Havia um bilhete preso à arma branca, nele estava escrito: “aqueles que não lutam por suas vidas não merecem ser sacrificados”.

Esses dizeres, esses malditos dizeres, nunca mais pude tirá-los de meus pensamentos, todos os dias eu sonhava com o rosto já sem vida de minha prima caída em meus braços, e então, uma faca era atirada em minha direção e nela, eu podia ler tal frase. O ódio que eu sentia por mim me corroía, não conseguia me perdoar pela minha impotência, minha incapacidade de me defender, até que, em um dado momento, decidi mudar. Eu mereceria ser sacrificada. 

[Presente]

Um carro parou em frente à casa, dele saiu um casal que com pressa abriu os portões e entrou no local. Não tive tempo de impedi-los, limitei-me apenas a observar de longe, eles tiveram sua primeira surpresa ao pisarem em um fluído viscoso que descia escada abaixo, manchando as caras roupas dos jovens.

– Somente o vermelho vívido da mórbida falta de vida é capaz de saciar minha sede – ecoou uma voz gutural, capaz de gelar a espinha de qualquer ser vivo que a ouvisse.

O casal hesitou, porém decidiu subir até o segundo andar, de certo, deve ter pensado que era apenas um sádico que matava animais por diversão e por obra do destino escolhera esta casa para se entreter.

– Eu vou chamar a polícia! – bradou o dono da casa.

Não houve resposta, ao invés disso, um silêncio gritante invadiu o ambiente, uma atmosfera aterradora torturava os ali presentes, dissecando suas esperanças. Algo caiu ao lado do homem, ao se abaixar para apanhar aquilo, seu pavor se tornou quase palpável, tremia enquanto olhava, fixamente, para odiosa descoberta, uma mão decepada. Não sabia ao certo de quem era, sabia apenas que tal imagem jamais sairia dos confins de sua mente, aquela pele gelada em contato com a sua fazia todos os seus pelos se arrepiarem, a sensação não passou mesmo após soltar aquele pedaço de carne.

– Eu sou o que escolhe quem habita o mundo carnal e quem visitará seus entes queridos, sou algo maior que a morte, sou seu emissário. Junto dos Grandes antigos trarei o inferno à terra, causarei o maior pandemônio já visto pela humanidade – sussurrou a voz, enquanto uma sombra tomava forma na escuridão, uma luz prateada resplandecia de sua mão, lentamente, assumindo a configuração de uma lâmina. – Tornar-nos-emos um! Em breve – completou a voz entre gargalhadas.

Nada se viu, pouco se ouviu, novamente, o silêncio pôs-se a reinar naquela sombria noite, o casal nunca saíra daquela casa. A polícia, finalmente, havia chegado e rapidamente adentrou a casa. Então, uma voz foi ouvida por todos no recinto.

– Vocês também querem participar da minha obra-prima?

O agressor assobiava a mesma sombria canção de cinco anos atrás enquanto os oficiais eram massacrados sem nenhuma piedade. O sangue dos corpos mortos a facadas formou um mar agonizantemente vermelho, causando espanto em quem o visse. Os acontecimentos dessa amaldiçoada noite passaram a assombrar aquela calma vizinhança, ninguém nunca soube ao certo o que aconteceu, mas uma coisa eu posso afirmar com certeza. Algo maior está por vir. 

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