A dialética entre as representações do jovem na cultura

Texto por Ana Badialle e Rafael Amin

Foto: Autor desconhecido

O jovem é um problema relativamente recente na literatura, no cinema e na política. No entanto, apesar da construção da ideia de juventude ter sido feita apenas na segunda metade do século XX, isso não isenta o fato de que a noção desse conceito carrega diversas simbologias que foram estabelecidas ao longo dessas décadas por meio de elementos da cultura. Representações que, essencialmente, foram estabelecidas por meio da dialética entre as representações do jovem na cultura e sua resposta política à essas representações que revela a maneira como o jovem realmente se enxerga na sociedade.

Na literatura, enquanto livros que retratam os anos de formação de um indivíduo datam desde a época de Goethe (início do século XIX), foi somente em “O Apanhador no Campo de Centeio” (J.D Salinger, 1951) que o arquétipo do adolescente ganhou a forma que conhecemos hoje. Rebelde, transviado e alienado, Holden Caulfield – protagonista da obra – conseguiu cativar um grande público na época de seu lançamento. Paralelo à isso, uma representação similar de um jovem rebelde e alienado tornou-se popular entre os jovens da época, o filme “Rebel without a Cause” (Juventude Transviada, 1955), apresenta à cultura de massa estadunidense o novo modelo de jovem, um que viria pela primeira questionar aquilo que havia sido imposto pelos pais, nascidos na geração anterior. 

Por isso, o filme retrata um jovem rebelde que precisa externar, ao contrário do Holden que internaliza seu conflito, impondo-se como alguém rebelde que questiona, de maneira impulsiva, a vida conformista. Tal representação de jovem não surge ao acaso, mas de um diálogo histórico e artístico, bem representado pelo bildungsroman.

Pai do que hoje é conhecido popularmente como coming of age (histórias que tratam sobre amadurecimento psicológico, como “Clube dos cinco” ou “Curtindo a vida adoidado”), o bildungsroman (palavra em alemão que remete a romance de formação) é um gênero que tenta abordar as relações entre jovem e o meio, quanto um modifica o outro e o caminho até a maturidade. 

O livro “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1796), de Goethe, retratava o mundo como algo mágico. O protagonista não possui voz própria e a madureza consiste em aceitá-lo, literalmente abdicando das pretensões artísticas de um jovem e abraçando a realidade tal como ela é.

Passado vários anos, especificamente em 1924, o escritor alemão Thomas Mann publica sua versão do bildungsroman, como resposta direta ao romance de Goethe. Em “A Montanha Mágica” o protagonista continua sem voz e o meio continuava sendo mais importante do que ele, entretanto, no pós-primeira guerra, o mundo não era algo que poderia simplesmente ser aceito. 

Dessa forma, os anos 1960, trouxeram uma quebra abrupta de convenções conformistas, ao passo que, abriu espaços para novas formas de música e vestuário, criando os primórdios da cultura teen, como conhecemos hoje. O surgimento do Rock and Roll, na metade da década de 1950 – com influência do Blues e do R&B – trouxe diversas influências para os adolescentes da época popularizando nomes como Elvis Presley, Carl Perkins e Chuck Berry. Com a mudança sofrida no comportamento e na maneira consumir música e entretenimento, o rock se transformou em uma válvula de escape, mas também forma de protesto para os jovens que estavam cansados da cultura consumista.

Logo no início da década de 1960, surgiram outros artistas como os Beatles e Rolling Stones, bandas que derivaram da música estabelecida pelo Rockabilly para construir seus próprios conceitos de rock. Com isso, essas bandas alteraram a forma de se produzir música, fazendo sucesso em shows, reinventando a maneira de ser jovem e livre para alterar a visão conservadora da geração anterior. Foi definido um som inconsequente e vibrante até por volta de 1966, quando os jovens e as bandas de rock passaram a acreditar em uma filosofia mais ligada à política como uma resposta aos conflitos da Guerra Fria, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras que se instalaram na América Latina. Levando o jovem que antes estava preocupado com aspectos estéticos e musicais à utilizar a arte e a cultura da contestação como uma forma de protesto e engajamento político direto.

Nesse contexto de conflitos surgiu o conceito da contracultura, movimentado por uma das gerações mais conscientes e politicamente engajadas, o sentimento de revolta e impotência gerou jovens que atuavam politicamente por necessidade. Desse jeito, a contracultura proporcionou o Woodstock, um festival de música, baseado nos ideais de três dias de música e paz, o que refletiu de forma artística a negação aos ideais imperialistas estadunidenses presentes nas suas atuações e conflitos. É nesse momento que a arte e a política aparecem fortemente em um aspecto só para aquela geração, dando popularidade à novos estilos e formas de expressão, como o grafite e o fortalecimento da cultura urbana.

No Brasil, a década de 1960 e 1970, em meio ao contexto da ditadura militar (1964), fez a cultura juvenil voltar-se aos elementos nacionais, com atuação, principalmente, da camada dos estudantes.  Eles aderiram a contracultura, recusando-se a envolver aspectos estadunidenses, a fim de criar uma caraterização da arte produzida internamente. Nomes famosos como Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Os Mutantes incorporaram o movimento conhecido como Tropicália. 

Surge então, junto com a chamada geração Y, uma arte popular com forte teor político, só que desta vez a contracultura não se dava por meio de movimentos sociais ou protestos, mas sim por uma forte apatia, rejeição e sátira dos moldes vigentes. Nasce em 1989, por exemplo, os Simpsons, que satirizava de maneira cruel a família tradicional americana, tanto defendida pelas sitcoms dos anos 80. 

Essas obras são frutos de uma sociedade que viu seu grito não levar a muita coisa e, então, escolheram a completa rejeição da realidade. A alienação na época não foi resultado de uma indústria de massas que despolitizou a juventude, mas sim, de um excesso de consciência política, de um realismo visceral que resultou em relativa inércia. Sabendo da corrosão da realidade e que muito provavelmente ela não poderia ser transformada, o jovem viu como única saída escapar, nisso surgem movimentos como o punk, grunge e o clubber, além da popularização e globalização da cultura pop.

O punk talvez seja a representação máxima da rebeldia jovem nos anos 70. Irreverente até mesmo com o seu pilar, o rock clássico, o movimento e, posteriormente a tribo urbana, tinha como lema “faça você mesmo”. Sem pensar muito em estética musical, com um discurso anarquista que ia contra o moralismo da época, o punk foi um enorme grito em favor da individualidade jovem, da diversão e rebeldia, focando novamente no indivíduo e menos no coletivo, mas ainda satirizava o último.

Entretanto a acidez política presente em grande parte da música de 70-80 foi perdendo espaço para uma visão individual e hedonista. Os clubes e a música eletrônica na década de noventa deram origem a cultura de discotecas, com sua estética extravagante marcada por cores vivas e alucinógenas, que tirava o teor político das músicas em troca de torná-las mais dançantes. 

Nisso há uma representação do jovem fortemente estereotipada, de alguém que não se envolvia tanto com o choque de gerações ou embates políticos. Uma retomada muito forte de comédias românticas, como “As Patricinhas de Beverly Hills”, com uma representação caricata e alienada dos jovens na escola, sintetizando seu papel à conflitos banais dentro da estética noventista, tornando-se um filme que explora clichês já conhecidos para aprofundar o universo adolescente. Isso influencia diversos outros filmes do gênero que viriam seguinte como “Meninas Malvadas”, entre outras comédias românticas que retratam o escapismo do mundo adolescente. 

No entanto, o jovem, atualmente, tem deixado essa fase despolitizada de lado, e se importando cada vez mais com problemas sociais, ambientais e individuais. Com adultos literalmente destruindo quaisquer esperanças para o amanhã, propagando preconceitos, violência e destruindo a próprio ambiente ao seu redor, os jovens novamente precisam pegar para si a responsabilidade de transformar as relações presentes no mundo e a necessidade de escapar da realidade deturpada por excessivas preocupações. Os adolescentes trazem o conflito interno em oposição com o caos externo e criam, uma série de questões para si, além de repensar fortemente questões de identidade e representatividade. 

A arte se adaptou a essa nova conscientização e, gêneros que estavam estagnados, como a comédia romântica adolescentes, ganharam um novo fôlego e público ao incluir questões de gênero e classe. Como por exemplo, o filme/livro “Love, Simon” (Com Amor, Simon), lançado em 2018, que conta a história de um adolescente que questiona a relação que as pessoas em seu entorno possuem com sua sexualidade, trazendo um perfil voltado para o questionamento de padrões sexuais e de gênero ainda impostos ao jovem.

Com uma rebeldia necessária e sútil, a geração atual, chamada de Geração Z, retrata como nunca a auto descoberta e aceitação, desenhando um jovem voltado para questões internas, políticas e transformadoras. A juventude atual sofre com a alienação da década de 80, carrega para si ansiedades e tribulações, mas ao mesmo tempo tem uma atitude reformista engajada como a década de 60.

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