Desconstruindo Van Gogh: o homem por trás do mito

Texto por Ana Badialle e Isabella Gemignani

Arte: Isabella Gemignani

Ora narrada em 1890, ora relatada em 2019, a história de Vincent Van Gogh foi, assim como a percepção social a respeito do artista, transformando-se ao longo dos anos. Vítima de um processo de especulações, sua trajetória sofreu com constantes mistificações, idealizações e reinvenções. À medida em que o pintor foi  se tornando um dos nomes mais influentes na história da arte ocidental, tendo sua arte massificada comercialmente na atual cultura e, seu nome, apesar de ter sido considerado, em vida, um fracasso, reconhecido, tanto no âmbito artístico quanto cotidiano. Seu legado volátil, no entanto, contribui para a difusão de mitos acerca de sua jornada como pintor. Afinal, quem foi, verdadeiramente, Van Gogh?

A ORELHA CORTADA

Van Gogh, Autorretrato com orelha enfaixada, 1889

Exatamente 131 anos atrás, em uma casa amarela no Sul da França, que abrigou a inspiração para a obra “O Quarto em Arles”, Van Gogh cortou um pedaço de sua orelha sob circunstâncias misteriosas. Imortalizado em sua pintura “Autorretrato com a orelha cortada”, tal ato configurou um dos acontecimentos mais icônicos de sua vida, fazendo com que o pintor fosse, mesmo, reconhecido posteriormente pela estória de seu lóbulo ausente. 

Embora não se saiba ao certo o motivo de fazê-lo, há teorias quanto a sua motivação: alguns supõem que Paul Gauguin, amigo de Van Gogh (que morava com ele na época), foi responsável pela infame ocorrência e, para protegê-lo da polícia, Vincent teria assumido a responsabilidade do acidente. Por outro lado, acredita-se que a ocorrência tenha sido seja advinda de uma briga com Gauguin: durante sua estadia, Van Gogh supostamente teria tido um surto psicótico e, após ameaçar o companheiro com uma faca, ele teria mutilado sua própria orelha e, depois, presenteado-a à uma prostituta em um bordel próximo. Esta, por sua vez, o denunciou à polícia, que foi responsável pela internação do pintor em um hospital psiquiátrico em Arles.

UM PINTOR FRACASSADO?

Apesar de contemporaneamente ser considerado um artista extraordinário, não é desconhecido o fato de que, em vida, Van Gogh se considerava um fracasso. Mesmo o seu quadro mais famoso, “A Noite Estrelada”, foi considerada um insucesso pelo pintor. Após lidar com uma série de desventuras, achou, tardiamente, sua verdadeira vocação na pintura. Seus anos dedicados à arte foram caracterizados pela ridicularização sofrida, a qual fazia-o ansiar, apenas, pelo “saber de como é que posso ser útil ao mundo”, conforme relatou em uma carta à seu irmão mais novo, Theo Van Gogh. Além disso, Vincent considerava-se um ônus familiar e, principalmente, econômico, à Theo: este financiou praticamente toda a vida artística do pintor, visto que, dentre suas quase 900 pinturas produzidas em menos de dez anos de carreira, apenas uma foi vendida em vida: o Vinhedo Vermelho. 

TELAS SOBRE TELAS 

Van Gogh, Pedaço de Grama, 1887.
Van Gogh, Pedaço de Grama, 1887, e sua obra escondida.

Sob a camada de tinta das centenas pinturas de Van Gogh, encontram-se mais dezenas de obras não vistas. Diante da pobreza e da dificuldade de manter seu ofício, o pintor compunha telas sobre telas para sustentar sua paixão, literalmente. Utilizando aceleradores de partículas, cientistas descobriram que aproximadamente um terço das obras expostas no museu Kröller-Müller, que conta com o segundo maior acervo de obras de Vincent do mundo, foram pintadas em cima de trabalhos prévios. Tal prática de reutilização de telas, embora inusitada, era bastante comum entre artistas, sendo utilizada, inclusive, por Picasso e Rembrandt. 

TINTA AMARELA: A DIETA PARA A FELICIDADE?

No ano passado, o Van Gogh Museum, em Amsterdam, na Holanda, respondeu pacientemente dúvidas e mitos frequentes sobre Van Gogh. Entre elas estava a questão levantada pela internet, relacionada à fantasia de que o artista ingeria tinta amarela pensando que o levaria à felicidade.  O mito culminou em reflexões genéricas e inconsequentes, como a pergunta que se popularizou por conta dessa história, “quem é sua tinta amarela?”, como se fosse um questionamento profundo ao interlocutor, sendo que, na verdade, isso só parte de diversas generalizações preguiçosas e narrativas simplistas.

Em primeiro lugar, o Museu esclareceu que, quando Van Gogh foi internado, ele ingeriu sim, tinta – sem especificação nenhuma de cor – e aguarrás (solvente de tinta), com o objetivo claro de se machucar e intoxicar. Com isso a invenção e romantização da tinta amarela como algo que forjaria uma felicidade momentânea, mas a longo prazo causaria mal, é imprudente e desrespeitosa, além de se basear totalmente em um senso comum que busca idealizar e culpabilizar as pessoas por seus transtornos psicológicos.

Considerando que o mito da tinta amarela afirma que havia chumbo em sua composição, o que causaria – sem base nenhuma – a depressão, é concebida outra idéia errônea, pois Van Gogh nunca teve um diagnóstico específico. No entanto, caso esse diagnóstico fosse depressão, já foi comprovado cientificamente que a causa dessa doença não é apenas um fator ou um elemento como insistem algumas pessoas, e sim, um conjunto de causas, que podem variar de outras doenças (como cardiovasculares), de fatores e fenômenos emocionais da vida de um indivíduo ou até mesmo uma predisposição genética combinada à outros acontecimentos.

A propósito, a intoxicação por chumbo, também conhecida como saturnismo, segundo artigo publicado no jornal de medicina da Universidade de Oxford, tem como sintomas: cólicas abdominais, dores e câimbras musculares, paralisia, perda de peso, palidez, marcas nas gengivas e um odor característico. Depressão não faz parte do quadro de sintomas. 

VAN GOGH: FLORESCENDO EM REINTERPRETAÇÕES

Gogh-van-Cruijff, Uriginal, 2013. O autorretrato de Van Gogh adorna a parede de tijolo, ao lado do jogador Johan Crujiff.

Mesmo 129 anos após seu falecimento, a inserção das obras de Van Gogh na indústria cultural popular possibilitou que seu legado fosse mantido vivo com o passar das gerações, embora em diferentes pinceladas e formas. Reproduzido fielmente em pinturas como de Myung Su Ham e de Vitali Komarov, ou em vieses modernos, como uma noite estrelada retratada por meio de itens descartados por Jane Perkins, sua influência ainda é notável na esfera artística, atingindo, também, o meio da arte urbana contemporânea, na qual seus autorretratos estampam a urbe e a esfera de produção massificados, com acervos não apenas de imitações de seus quadros, como também de mercadorias. Além disso, a sinestesia van goghiana transcende, na contemporaneidade, a tela, podendo ser experienciada por meio de projeções e objetos cenográficos na exposição Paisagens de Van Gogh, no Pátio Higienópolis, em São Paulo, até dia 15 de setembro.

Em 2019, assim como no século XIX, ainda não se sabe ao certo quem foi Vincent Van Gogh. Descrito por aqueles que o conheceram como “louco” e por outros como “gênio”, Van Gogh, mesmo após as desconstruções modernas, permanece misterioso, mas é possível compreender, ao estudar sua trajetória, que ele foi, acima de tudo, um homem excessivamente sensível em contraste com a frieza do mundo, tendo seus momentos  de criação como os momentos especiais da sua vida, baseada em sensibilidade e contemplação. Cabe às suas expressivas obras deixadas o papel de contar sua história ao mundo, agora que este, mais do que nunca, quer tanto ouvi-lo.

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