Filme “Rocketman” e a busca pela essência

Texto por Ana Badialle

Elton John e Taron Egerton na première do filme (Foto: Getty Images)

“Você deve matar a pessoa que nasceu para se tornar a pessoa que você quer ser?”, diz um artista conceituado do estilo jazz e soul ao jovem Reginald Dwight, que decide então seguir o conselho e passa a se apresentar como Elton John. Essa passagem consegue refletir o que o filme “Rocketman”, lançado no Brasil dia 30 de maio de 2019, transpassa com sua narrativa. 

Rocketman trata-se de musical longa-metragem sobre momentos de ascensão e queda do músico inglês Elton Hercules John. O longa baseia-se em uma visão honesta e bem intimista para contar sua história que tem seu ponto de partida em uma sessão de terapia. 

Elton, interpretado por Taron Egerton, confessa seus problemas como alcoolismo, bulimia, vícios e dificuldades emocionais, e conta como ele precisa de ajuda para superá-los, revelando-o como um ser humano, que atrás das fantasias e acessórios extravagantes possui suas fragilidades, cicatrizes e dificuldades.

Como uma biografia, Rocketman não busca ser totalmente verossímil e próximo à uma realidade documental e, sim, muito mais uma visão proporcionada pelas lembranças e impressões que o protagonista possui de si mesmo. Seus momentos de queda acompanhados pelo uso de drogas, que agravaram seu conflito emocional e suas relações com aqueles que acompanham sua carreira e sua vida, é revelado sem pudor ou suavização.

Dessa forma, é possível notar uma interpretação, por parte de Taron Egerton, emotiva e sincera que colabora com o tom épico, exagerado e conflituoso que a biografia traz. Em diversos momentos, é intensificado valores como a criatividade e a liberdade proporcionadas pelas composições repletas de lirismo de seu parceiro musical, como compositor de suas letras e amigo próximo, Bernie Taupin, interpretado por Jamie Bell. O mesmo demonstra carisma ao estar sempre ao lado de Elton o apoiando em seu sucesso e em seus momentos de desequilíbrio, dando ao filme uma dose de companheirismo e compreensão. 

Além da experiência fílmica e biográfica, Rocketman possui sua relevância social em relação à representatividade LGBTQ+. Elton é uma figura pioneira e relevante para a diversidade. Atualmente ele vive com seu marido, David Furnish, e seus dois filhos, mas ele chegou a assumir sua sexualidade na década de 1980, momento em que havia enorme preconceito e intolerância, juntamente do surto do vírus HIV, que acarretou uma bagagem de ignorância maior ainda para cima daqueles que fugiam do padrão normativo imposto.

Por isso, o fato de existir um filme de sucesso celebrando uma pessoa tão icônica na luta contra o preconceito é essencial na atualidade. A cinebiografia não diminui em nenhum momento o impacto da sexualidade de Elton na sua vida, especialmente, na relação com seus pais, que dificilmente lhe deram apoio e suporte para enfrentar a discriminação e a dificuldade encontrada na época para não ser alvo de comentários e ações de ódio da maior parte da sociedade. 

Com isso, a falta de aceitação por parte da família, a impossibilidade de se sentir completo e a solidão são fatores profundamente explorados na história. É comum indivíduos LGBTQ´s sentirem dificuldade de se aceitar ou simplesmente compartilhar algo tão básico de sua vida com pessoas próximas, levando a problemas mais profundos como depressão, uso de drogas e outras doenças psicológicas decorrentes. O fato de isso ser mostrado de maneira honesta no cinema traz conforto e identificação para muitas pessoas, sejam elas parte da geração que viveu nos anos apresentados pelo filme ou mais novas, jovens que precisam de representatividade correta, que os ajudem a se compreender de maneira mais aberta. 

Rocketman dessa maneira cumpre seu papel como um musical empolgante, mas ao mesmo tempo, como uma cinebiografia que procura a essência de seu protagonista ao passo que a história avança e o artista se desprende de suas alegorias para ser mais honesto consigo e com sua arte. Como o próprio músico canta em um de seus sucessos “I´m still standing”, ele ainda está seguindo e livrando-se de seus medos, vícios e disfarces, como qualquer outro indivíduo que precisou se perder muitas vezes para finalmente se estabilizar como a pessoa que nasceu para ser. Pode soar clichê e exagerado, mas assim como seu filme e suas músicas, é verdadeiro. 

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