Inimputável

Conto por Victória Lopes

Seus olhos corriam rapidamente pelo cômodo tentando processar todas as informações. O sangue escorria pelas paredes que um dia foram brancas, assim como lágrimas escorriam pelo seu fino rosto. Ele estava atordoado e ofegante perante ao corpo sem vida estirado no chão do quarto. Não era difícil reconhecê-lo, sendo ele de seu irmão mais novo. Por breves minutos tudo que se conseguia escutar eram suas batidas de coração aceleradas e a chuva batendo ruidosamente na janela. Assim que Alec tentou se afastar, a cabeça começou a rodar e ele bateu com os joelhos no chão respirando fundo. A cabeça doía e ele sentia marteladas constantes e ritmadas de dentro para fora. 

O sangue agora jazia em suas mãos e roupas deixando o garoto sem saber o que fazer. Ele se ergueu novamente e girou pelo quarto procurando uma escapatória enquanto olhava para todos os cantos com a visão turva. O pobre coitado sentia o pânico crescer dentro de si e o consumir. As loucuras e insanidades que ele pensava podem ser consideradas grandes absurdos,mas ele não conseguia sair disso. Sentiu suas palmas já molhadas de sangue familiar começarem a suar e tremer, calafrios teimavam em subir pela espinha e parar no cérebro causando curto-circuito completo. A dor de cabeça aumentava a cada movimento e dessa vez ele precisou parar tudo que fazia combatendo o instinto de gritar.

Ainda rondando o quarto que nem louco em busca de uma solução, ele escutou o barulho que o fez enlouquecer de vez. Agora escutava passos, se vinham do andar debaixo, dos quartos ao lado ou do sótão ele não sabia. Também não estava muito afim de descobrir. A adrenalina marcou presença e ele parou. Parou de andar, de chorar e de tremer, focando apenas no som que ecoava pela casa. O andar pesado que ele escutava antes tinha cessado e, mais uma vez, tudo que ele escutava era a chuva se chocando contra a janela. 

Decidido de suas ações e sem emitir barulhos, ele foi até o banheiro e colocou tudo que antes tinha deixado em cima da pia nos bolsos: remédios, carteira e o telefone. Alec evitou ao máximo olhar no espelho e encarar o próprio rosto, não queria ver o sangue, nem as lágrimas, as olheiras ou o pânico nos olhos. Ao sentir pés rangendo com proximidade de onde estava, com toda a rapidez, correu para a janela de seu quarto, a escancarou e pulou do primeiro andar. 

O impacto de seu corpo nas moitas do jardim aliviou a queda, mas não o livrou da dor de um tornozelo machucado e cortes por toda pele nua causados pelas plantas. A imagem de seu irmão tombado e ensanguentado ao lado de um martelo insistia em aparecer cada vez que ele fechava os olhos, mesmo assim ele levantou mancando e tremendo. Mais uma vez ele saiu correndo ao ouvir a janela se escancarar.

Embora fosse uma noite chuvosa, ele corria que nem um maluco desesperado para despistar quem quer que estivesse em seu encalço, quem quer que tinha matado seu irmão. A tempestade teimava em chicotear as casas e carros, as árvores sacudiam com o vento e todas as luzes jaziam apagadas deixando a iluminação natural da lua dar um ar fantasmagórico ao ambiente. Todos os ruídos da noite eram dissipados, exceto um deles: os passos fortes no meio de pequenas poças d’água.

Os pulmões de Alec queimavam e já tinha se tornado mais difícil de respirar, mas aquelas pisadas ainda estavam em sua cola, logo atrás dele e o pobre rapaz se recusava a virar para encará-lo nos olhos. O medo subia pela espinha e a visão começava a borrar, ele ainda não conseguia processar todas as informações daquela noite e para ele tudo era uma mancha grande e escura. Imagens rápidas de todo aquele sangue esguichando pelas paredes e de seu irmão caindo no chão surgiam como um turbilhão em sua mente.

Ele estava extremamente cansado e a dor do tornozelo subia pela perna, ele se sentiu obrigado a parar. Correu até um beco e se escondeu atrás de uma lata de lixo, estava ofegante e dolorido, colocou a cabeça entre as mãos e esperou pelo pior. Tudo que o rapaz escutava agora era seu próprio coração, alto e rápido. Suor e chuva cobriam ele da cabeça aos pés, ele começou a tremer de frio mesmo com a temperatura corporal alta. Após alguns minutos tentando processar tudo, ele finalmente percebeu a ausência de passos, estava sozinho e tinha despistado quem o seguia. Ainda de estômago embrulhado, ele se levantou e olhou atentamente para os lados aliviado, o tornozelo ardia e os pulmões pareciam pegar fogo.

Foi quando ele se apoiou na parede para pegar fôlego que tudo veio à tona. Ele apalpou os bolsos da calça procurando os remédios, olhou os dias da semana e, para sua surpresa e desespero, os de hoje estavam completos. Era difícil para Alec manter a sanidade sem eles, desde pequeno sempre teve os mesmos problemas, perdi completa noção de espaço e tempo, tinha blackouts, perdia horas na memória e não se lembrava de coisas que fazia. Assim que ele passou a respirar mais facilmente ele se forçou a lembrar, queria lembrar da noite toda. Tinha que se lembrar da noite toda. Era difícil se concentrar com toda aquela chuva, cada segundo que passava parecia que ela ficava mais violenta e ele não aguentava mais ficar ali.

De súbito se lembrou de agarrar o martelo com as próprias mãos e acertar direto na cabeça de Peter, uma, duas, três e quatro vezes. Ele afundou o rosto nas mãos em puro desespero. Lembrou-se do sangue esguichando e escorrendo pelas paredes. Ele não conseguia lidar com a própria consciência, a dor no tornozelo voltou forte e ele sequer sabia em qual beco estava. Deviam ser quatro da manhã e ele nem se atreveu a olhar para o telefone, não sabia o que fazer. Será que os vizinhos tinham escutado? E se tivessem, tinham ligado para a polícia? Alec não tinha escapatória. Ele se escorou na parede enquanto soluçava violentamente. Era tudo culpa dele, de mais ninguém. E agora nem tinha mais o que fazer.

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